A Teoria Quântica dos Campos afirma que todos os ingredientes elementares que constituem a natureza, o mundo ou o universo, mais não são do que ondas vibratórias que se estendem no espaço, envolvendo tudo e, que ao interferirmos com essa onda provocamos o seu colapso pontual, gerando o fenómeno existencial da partícula. Daí que a natureza nos brinda com o constante e permanente fenómeno dualista onda-partícula.

Uma visão consentânea com esta ideia é-nos dada nas linhas de força de Michael Faraday (caso simples da acção de um imã sobre a limalha de ferro), que tecem uma espécie de malha tridimensional no espaço envolvente e, que no caso cosmológico, no fundo mais não é do que a “quantidade” da curvatura do espaço pelas massas em redor.

Uma das barreiras actuais ao desenvolvimento da Física é a existência de operações matemáticas que conduzem a valores infinitos. A Física ao explicar a teoria quântica dos campos introduz o conceito da infinita divisibilidade do espaço e, ao fazê-lo no cálculo das probabilidades de evolução de um processo, depara-se com múltiplos infinitos que de acordo com Feynman, é o resultado do somatório infinito da distribuição de todos os modos de desenvolvimento do acontecimento no espaço contínuo infinito de pontos.

A nível cosmológico os infinitos também surgem, desta vez na forma de singularidades derivadas da teoria da gravidade de Einstein, com os consequentes e comprovados denominados buracos negros ou com a teoria do Big-Bang do surgimento do Universo.

No entanto a quantização dos fenómenos da natureza ou a atribuição de valores discretos (matematicamente falando) como acção ou informação mínima, a célebre Constante de Planck (h), ao lado de outras variáveis que impõe limites ao infinito, como a velocidade da luz (c) ou o comprimento mínimo de Planck (Lp) e ainda o espaço mínimo com a teoria granular do espaço, vieram resolver a insolúvel questão dos infinitos.

Assim, como a energia do campo electromagnético (e a própria luz) é formada por quantas discretos, os fotões, e que permeiam todo o espaço num espectro bem conhecido, também o espaço é formado por “pacotes discretos” onde neste caso as linhas de Faraday, são as linhas de gravidade que se unem em “nodos”, formando “grãos de espaço” ou os denominados “grafos”. Neste caso enquanto os fotões vivem no espaço, os quanta do espaço são o próprio espaço.

Ora esta ideia do espaço granular vem resolver o problema das singularidades e das condições impostas ao nascimento do nosso Universo: em vez de um big-bang seria um big-bounce cíclico de acordo com a actual teoria do nobel Roger Penrose e da milenar tradição dos cíclicos védicos. Também vem solucionar o eterno problema de Aquiles e a tartaruga no paradoxo de Zenão.

A Cosmologia Cíclica Conforme (CCC) de Roger Penrose

Demócrito com o seu Atomismo, introduziu o conceito de que a matéria é feita de grãos elementares, mas já antes Plotino nas Enéadas, cuja obra é toda ela invadida pela analogia da concepção do Uno com a luz e oposto à multiplicidade, refuta também a ideia dos infinitos:

“O que se passa, então, no chamado “número do infinito”? Mas primeiro, como pode ser número, se é infinito? Porque nem as coisas sensíveis são infinitas, como tão pouco o será o número associado a elas, nem que as conta um número infinito, mas, mesmo que duplique ou multiplique, a soma é limitada; e mesmo que se tome em conta o futuro, o passado ou ambos, a soma é limitada.”

Deste modo a mecânica quântica revelou 3 aspectos fundamentais para a nossa concepção do mundo:

  1. Na base, a Constante de Planck, que trouxe a ideia de “informação mínima” e da granularidade e agora corroborada tanto pela verificação experimental do Princípio de Landauer (onde informação e massa se equivalem e “vivem” sob a forma de quanta) e pela descoberta no CERN (experimento ATLAS) do Bosão de Higgs (incorrectamente apelidada por “Partícula de Deus”).

    Neste sentido o circuito fecha-se com a equivalência Massa – Energia – Informação.

    Assim, a Informação surge como outro campo de forças que tudo permeia e dá forma atribuindo às constantes universais os valores intrínsecos conhecidos (são aqueles e não outros!) e à simetria observada em todas as escalas, desde a forma de um floco de neve à galáxia espiral mais recôndita – o “número de ouro”– a chamada Informação-Entrópica Holomórfica de Chris Janes e Michael Parcker, também conhecida como campos morfogenéticos de Rupert Sheldrake, com as sua componente Akásica ou de Ressonância (uma espécie de memória ou registo do tempo passado, presente e futuro).

    Chris Jeynes e Michael Parker afirmam: “Demonstrámos que entropia e informação podem ser tratadas como um campo estando relacionadas com geometria. Imagine as duas hélices da dupla cadeia de ADN enrolando-se uma na outra. As ondas de luz possuem a mesma estrutura, onde as duas hélices são respectivamente o campo eléctrico e magnético. Nós demonstrámos matematicamente que a relação entre informação e entropia pode ser vista usando a mesma geometria.”

    Depois entra em campo a Biologia Quântica, com um trabalho pioneiro de Roger Penrose e Stuart Hamroff dando a conhecer a teoria Orch OR ou Redução Objectiva Orquestrdada, que os campos quânticos e as estruturas microscópicas denominadas microtúbulos desempenham um papel fundamental na explicação científica da existência da consciência, indo de encontro ao Panpsiquismo do século XVI através do filósofo italiano Francesco Patrizi. Neste sentido todo o objecto seria dotado de consciência incluindo o próprio universo (uma qualquer partícula com a sua onda Psi evoluiria durante éons pela quebra crescente da simetria num processo de entropia e complexificação do género: rocha – cristal – vírus – bactéria – planta – animal – ser humano – etc).

    A mesma informação na base da geometria de uma galáxia ou do Nautilus
    Imagens de Peter L Barker (Nautilus) e de Trodel (Galáxia). Creative Commons

    Depois, outro campo quântico, o Campo de Higgs, também permeia o espaço e confere massa aos outros campos quando estes colapsam nas respectivas partículas (bosões e fermiões).

  2. Modelo Padrão de Partículas Elementares, LauraGilchristEdu. Creative Commons

  3. A não-localidade ou acção à distância instantânea em que todos os sistemas estão ligados pela sua origem comum aquando dos Big-Bounce Cíclicos. Isto é consubstanciado pela experiência do dia-a-dia da computação quântica ou pelo fenómeno de duas partículas com origem comum, estando a milhões de anos-luz de distância uma da outra, se uma muda de spin a outra adquire o valor oposto. Einstein chamou a este fenómeno “acção fantasmagórica à distância”.
  4. “Acção fantasmagórica à distância”. Creative Commons

  5. Tudo é probabilidade e nada acontece hoje que possa determinar o futuro. O livre arbítrio é senhor e rei, ou seja, o electrão só existe quando interage, quando a sua onda colapsa por efeito de uma interferência. Até lá é uma onda de probabilidade e está em todo o lado. A realidade só existe por existirem processos de interferência ou de relação entre sistemas.
    Não é por acaso que Richard Feynman escreveu: “Penso que se poderá dizer que ninguém compreende realmente a mecânica quântica”.

    Poderemos peremptoriamente afirmar que, a realidade como a conhecemos, material, empírica, na maior parte das vezes, dolorosa, não é formada por partículas e campos…mas por campos quânticos flutuantes que se interpenetram em frequências vibracionais ou “tons” pitagóricos, de diferentes amplitudes, como se o Universo fosse uma orquestra sinfónica de todos esses campos.

    Um dos Axiomas Herméticos diz: “A Mente (tão bem como os metais e os elementos) pode ser transmutada de estado em estado, de grau em grau, de condição em condição, de pólo em pólo, de vibração em vibração” ou ainda “O TODO é MENTE, o Universo é Mental”.

    Poderíamos deste modo elaborar uma geometria quaternária e ternária, relembrando ao mesmo tempo Helena Blavatsky ou a tradição védica e os textos filosóficos dos Upanishads (como disse Erwin Schrodinger: “Eu vou aos Upanishads para fazer perguntas.”).

    Teríamos assim nos vértices do Quaternário as bases constituintes da matéria e as forças que a regem: num dos vértices os Fermiões (matéria e anti-matéria), nos restantes 3, os bosões da força electromagnética (fotões), os bosões da força forte dos hadrões (gluões), e os bosões da força fraca (muões e piões W e Z). No conjunto constituiriam apenas 4,9% do Universo.

    No Ternário teríamos o campo Info-antrópico-holomórfico (possivelmente formando a denominada Matéria Escura); o campo granular do espaço e o campo da informação ou da Consciência, (a desconhecida e misteriosa Energia Escura?).

    Entre os dois, e ligando-os como uma ponte, teríamos o Campo de Higgs “fornecendo” comprovadamente massa ao Quaternário e possivelmente ao primeiro nível do Ternário.

Geometria Septenária

Esta geometria septenária parece estar de acordo com o Upanishad Katha, quando refere que, “Este Universo é como uma árvore que existe eternamente, com suas raízes voltadas para cima e seus galhos espalhados embaixo. A raiz pura da árvore é Brahman, o imortal, em que nos três mundos têm a sua existência, a quem ninguém pode transcender, que é verdadeiramente o Eu.”

Em a Doutrina Secreta, Blavatsky afirma: “A Tétrade era na Kabalah, como o era por Pitágoras, o número mais perfeito, ou melhor, o número sagrado, porque emanava do Um, da primeira Unidade manifestada, ou melhor, dos Três em Um. E este último foi sempre impessoal, sem sexo, incompreensível, ainda quando dentro do alcance das percepções mentais superiores.”

Reuchlin, em “The Source of Measures”, citado por Blavatsky em Doutrina Secreta, avança que, “A filosofia esotérica explica que o 4 é o símbolo do Universo em seu estado potencial ou de Matéria Caótica, e que necessita do Espírito para penetrá-la activamente; isto é, o Triângulo primordial abstracto tem que deixar a sua qualidade unidimensional e expandir-se através desta matéria, formando assim uma base manifestada no espaço de três dimensões, a fim de que o universo se manifeste de modo inteligível.”

Como afirma Hermes Trismegisto no Caibalion, “Os lábios da sabedoria estão fechados, excepto aos ouvidos do Entendimento”. Na actualidade a Ciência, nos seus mais diversos ramos do saber e da investigação, parece aproximar-se e querer confirmar estes pressupostos revelados pelos ancestrais textos védicos onde também, ao longo das épocas históricas, H. Trismegisto, Plotino, Blavatsky e muitos outros pensadores ocidentais foram beber a inspiração.

João Porto

Bibliografia

The Science Delusion, Rupert Sheldrake, Coronet 2013.

Introdução a Plotino, Margherita Isnardi Parente, Edições 70, 2005.

O Jazz da Física, Stephon Alexander, Edições Gradiva, 2016.

A realidade não é o que parece, Carlo Rovelli, Contraponto, 2019.

Ciclos de Tempo, Roger Penrose, Gradiva, 2013.

MaxEnt double spirals in space-time Maximum Entropy, Double Helical and Double Logarithmic Spiral Trajectories in Space-Time, Chris Jeynes, Nature Research, July 2019.

Consciousness in the universe: A review of the “Orch OR” theory, Stuart Hameroff e Roger Penrose, Physics of Life Reviews, volume 11, issue 1, March 2014.

O Caibalion, os três iniciados, Publicações Maitreya, Maio 2018.

A Doutrina Secreta, H. P. Blavatsky, Volume IV, Editora Pensamento, 2019.

Bhagavad Gita, Edicion de Consuelo Martín, Editorial Trotta SA, 2018.

Vida, Espírito e Matéria, Erwin Schrodinger, Publicações Europa América, 1963.

Os Upanishads, Sopro Vital do Eterno, Editorial Pensamento, S. Paulo, Frederick Manchester.

Ísis Sem Véu, Volume I, Helena P. Blavatsky.