Ao passar os olhos pelo mostruário do mundo, onde vemos perfilar os tipos e os percursos de vida, não se mostra fácil decidir sobre quais serão os melhores exemplos de quem triunfou na vida.

Talvez o futebolista que ganhou o maior número de troféus, talvez o de baixa origem social que soube criar grande riqueza, talvez o estudante dedicado que conseguiu a melhor nota do curso, talvez o político que ganhou muitas eleições, talvez o cientista que descobriu mais um mistério da natureza… Talvez todos estes tenham tido algum tipo de êxito, mas podemos dizer com segurança que triunfaram na vida?

De um modo ou de outro, todos queremos triunfar na vida. Todos queremos que as nossas decisões sejam certeiras, que os nossos esforços deem frutos, que os nossos projetos tenham sucesso. O que podemos perguntar, cingindo-nos ao que realmente está ao nosso alcance, é que tipo de triunfo podemos almejar, e quais os meios, os princípios e os fins desse triunfo.

Não podemos chamar triunfo àquilo a que não dedicamos os nossos esforços e a nossa melhor vontade. O triunfo implica alguma ação dirigida, intencional e livre para que se possa produzir. O triunfo não pode ser produzido por nada externo a nós, não nos pode ser oferecido, de nada vale esperar por ele sem nada fazer. Por outro lado, não podemos evitar a ação. O próprio facto de estar vivo nos faz agir, ainda que nos fiquemos por comer e respirar. A vida é ação, é movimento, como a água que flui e que fica morta quando estagna. Para triunfar na vida, então, temos que agir, sim, mas não basta agir. É necessário algo mais que só encontraremos no fundo de nós mesmos.

Todos nós temos um conjunto de capacidades interiores, de tendências, de virtudes que, mesmo podendo ser mais desenvolvidas no futuro, podem em qualquer momento entrar em ação. Todas as capacidades se desenvolvem com o hábito, como um músculo que só cresce pelo uso que lhe damos. Se queremos triunfar, é às nossas próprias capacidades que temos que recorrer, e desenvolvê-las ao ponto de conseguir obter o sucesso pretendido.

Muitas são as capacidades interiores que podem existir dentro de cada um de nós, em maior ou menor grau. Mas três são aquelas a todos têm direito, e que temos também o dever de usar e desenvolver: a vontade, o amor e a inteligência.

Romeu e Julieta. Domínio Público

A vontade é o motor interior que nos dá a força, a disciplina, a determinação, a perseverança necessária para empreender qualquer tarefa ou projeto que tenhamos pela frente. Quando falta a vontade, tudo se torna mais pesado, desinteressante, banal. Sem vontade surge a preguiça, o cansaço, o deixar para depois, um depois que acaba por nunca chegar. Podem existir adversidades, mas as mais difíceis de vencer são estas interiores, que nos fazem perder a batalha ainda antes de a iniciarmos, pois somos vencidos por nós próprios. Daí que a vontade tenha que ser fortalecida para não nos deixarmos vencer pelas circunstâncias e suas dificuldades. Para isso, não podemos correr apenas atrás do conforto e do prazer imediatos, que tantas vezes se confundem com vontade, mas que mais propriamente se devem chamar desejo. É o desejo o pior inimigo da vontade. O primeiro é um momentâneo chamamento a partir de fora, tantas vezes um desvio da nossa determinação inicial. A segunda é a força consistente que vem de dentro. Não é por acaso que se diz que a vontade move montanhas, pois é essa a maior força de que dispomos, a energia mais poderosa cujo uso continuado é fundamental para se chegar à vitória duradoura que procuramos. Com a vontade podemos modificar o nosso regime de interesses, apontando-o a metas cada vez mais construtivas. A vontade aproxima-nos de um sentido de responsabilidade, de cumprir com o que devemos e os compromissos, de caminharmos por nós próprios e sentir como nosso cada passo que nos aproxima da meta. A ação por própria vontade é a melhor definição de liberdade interior, condição essencial para o triunfo.

No entanto, o triunfo da vontade, por si só, pode ser demasiado frio e violento se não há um conjunto de valores e princípios que sejam respeitados. A vontade, para gerar o tipo de triunfo que procuramos, não pode avançar à custa do sofrimento alheio, os nossos passos não podem pisar as cabeças dos outros, a nossa liberdade não pode ser motivo da exploração de outras pessoas. Os princípios que poderão orientar a vontade podem todos ser sintetizados numa outra capacidade que todos temos: o amor.

A força da vontade deve ser revestida pela suavidade do amor. O amor é a qualidade da vida quando adquire um maior grau de sabedoria. O amor na vida pode ser aplicado em vários planos, canalizando as nossas ações para horizontes cada vez mais nobres e dignos, para nós próprios e para os outros. Amar não é só querer para nós o que gostaríamos de possuir, mesmo que com isso acreditemos poder sentirmo-nos completos e realizados. Amor é essa força de união, sim, que nos faz aproximar do que amamos, mas é também o que nos faz mergulhar dentro de nós mesmos para encontrar o melhor que podemos dar. Com esse estado interior a acompanhar as iniciativas da nossa vontade, as nossas ações serão mais generosas, mas respeitadoras, mais harmónicas com tudo o que existe à nossa volta.

Amar o estudo faz-nos interessar por tudo o que podemos aprender. Amar o trabalho faz-nos valorizar tudo o que produzimos. E assim com tantas coisas na vida, que só de as fazermos com amor se tornam boas e capazes de gerar felicidade.

Vontade e amor são, então, fundamentais. Mas para garantir o triunfo devemos juntar-lhe a inteligência. A vontade torna-se boa pelo amor, mas só se torna eficaz pela inteligência. Com muito boa vontade e com amor podemos iniciar mil e uma iniciativas, podemos querer ajudar à concretização de um projeto, podemos verter os nossos esforços na resolução de inúmeros problemas do mundo. Mas sem a inteligência necessária, muito provavelmente essas iniciativas não chegarão a bom porto. É preciso saber avaliar as circunstâncias e adaptarmo-nos da melhor maneira, reconhecer que recursos são necessários e se estão disponíveis, quais as ferramentas à nossa disposição. Sem inteligência, caímos na repetição dos mesmos erros, não aprendemos com os melhores exemplos, não sabemos encontrar e escolher os melhores caminhos. Não se trata apenas de uma capacidade racional de processamento de dados, mas de uma visão nítida do que é útil e do que é inútil em vista do objetivo, e de conseguirmos decidir pelo que é bom. A inteligência dá a melhor forma à ação para que dê o melhor resultado possível, através da força da vontade e da orientação do amor.

O nascimento do Sol e o triunfo de Baco, Corrado Giaquinto. Domínio Público

Assim, triunfar na vida vai paulatinamente deixando de estar dependente das forças que se opõem às nossas iniciativas e aos nossos sonhos. Também já não será um conjunto de resultados ou fruto externo das nossas ações. Se soubermos sonhar alto o suficiente, se soubermos conquistar essas capacidades dentro de nós, se conseguirmos usar a vontade, o amor e a inteligência, já estaremos a triunfar na vida.

 

Hélio de Orvalho