Por João Porto

Falar sobre o Tempo é difícil, pois como diria Irwin Schrodinger(1), a “ linguagem vulgar é prejudicial porque está por completo imbuída da noção de tempo – não podemos empregar um verbo (verbum, “a palavra”; em alemão: Zeitwort) sem o usarmos num ou noutro tempo verbal”.

Aqui reside o cerne do problema: fazemos parte do Tempo e torna-se difícil avaliá-lo de fora!

De acordo com a Teoria Geral da Relatividade Espacial de Einstein, sendo nós matéria a quem foi atribuída Massa, ou vivendo num corpo planetário com determinada Massa, o Espaço-Tempo torna-se curvo.

Como provam os acertos constantes do tempo pelo GPS, um relógio numa nave espacial o tempo passa mais depressa do que em outro no solo terrestre ou dois gémeos, um colocado a bordo da Estação Espacial Internacional e o outro em Terra: o que fica no planeta envelhece mais depressa. Outro exemplo: num ambiente tipo Star Wars, duas naves espaciais atiram mísseis ao mesmo tempo uma contra a outra mas uma delas está perto de um planeta gigante onde a sua massa retardaria o tempo (do ponto de vista desta), esta não escaparia ao ataque porque a outra teria disparado mais cedo.

A Mecânica Quântica oferece-nos mais um contributo à relativização do Tempo. Segundo a mesma, ao contrário da concepção newtoniana, o tempo não flui de forma contínua.

Para a Mecânica Quântica entram em jogo os campos probabilísticos e a estatística ao afirmar que qualquer objecto está sempre num estado de superposição até a sua onda Ψ (psi) colapsar. Esta realidade é o que a experiência nos demonstra ao nível das partículas sub-atómicas e que na actualidade faz furor com a sua aplicação prática na computação quântica, com os seus Qubits. Ao invés da computação digital onde um bit pode assumir dois estados traduzidos em 0 e 1 (desligado-ligado), na computação quântica um Qubit assume 3 estados, 0, 1 e 01 (ou superposição de ambos).

Ou seja, aplicando este princípio ao desenrolar de todos os acontecimentos, não existiriam um primeiro e um segundo acontecimento mas uma superposição dos dois, tipo Gato de Schrodinger. Esta ordem temporal do tempo quântico assume características impensáveis de imaginar permitindo até as imaginárias viagens no tempo.

Segundo Carlos Rovelii, a sua teoria da gravidade quântica em loop, conduz a novos conceitos sobre a natureza do nosso universo e do espaço-tempo que deixa de existir como o concebemos, unificando as disparidades existentes entre a Teoria Geral da Relatividade de Einstein e a Mecânica Quântica de Schrodinger.

Neste contexto ao conceber o Espaço como um campo quântico granular, forçosamente sendo os quanta do espaço como os quanta da luz, os fotões, sendo ambos pacotes de energia mínima, implica que enquanto os fotões vivem no espaço, os pacotes de espaço são eles próprios o espaço. Aqui o espaço deixa de ser contínuo conferindo a mesma propriedade ao tempo.

Interessante verificar que já em Xenócrates (406 a.C. — 314 a.C.), é feita a defesa de uma teoria pré-atomista, baseada num corpuscularismo geométrico semelhante ao do Platão em Timeu(2), que recusa a infinita divisibilidade e postula as grandezas mínimas, que são as “linhas indivisíveis”.

De acordo com Carlos Rovelli “O espaço como amorfo contentor das coisas desaparece da física com a gravidade quântica. As coisas (os quanta) não habitam o espaço, habitam uma na vizinhança da outra e o espaço é o tecido de suas relações de vizinhança”.(3)

Assim, a Gravidade e o Tempo não existem. Isso não quer dizer que não sintamos os seus efeitos locais. São ambos efeitos da curvatura do espaço granular que se traduz num campo de natureza quântico que se contem a si próprio (os designados campos covariantes), e que contem os restantes campos: em primeiro lugar o de Higgs, que confere massa às partículas da matéria; o electromagnético e os da força nuclear forte e da força fraca.

Difícil de imaginar, mas a ideia base é conceber o conjunto como um “recipiente” único fora do qual campeia a Energia Escura definida pela Constante Cosmológica ꓥ de Einstein.

A detecção das ondas gravíticas pelos grandes instrumentos com quilómetros de comprimento (tal como o Advanced Laser Interferometer Gravitational Wave Observatory – LIGO), comprovam as dobras do chamado espaço-tempo como se o campo granular do espaço vibrasse como a onda sonora faz ao ser transportada pela vibração do suporte molecular do ar.

“A substância de que é feito o mundo simplificou drasticamente nos últimos anos. O mundo, as partículas, a energia, o espaço e o tempo, tudo isto não passa da manifestação de um só tipo de entidade: os campos quânticos covariantes.”(4)

O Bhagavad Gita em O Espírito Supremo/XV.12 já afirmava: “Reconhece que a luz radiante, do sol que ilumina o universo inteiro, a luz da lua e a do fogo são a minha própria luz”.(5)

Toda esta relativização, levou segundo Schrodinger, à “destronização do tempo como um tirano que nos é imposto de fora, uma libertação da inabalável regra do “antes e depois””.(6)

A visão da evolução unificadora da Física de acordo com Rovelli (ilustração adaptada do autor)

Entretanto a Segunda Lei da Termodinâmica que define a entropia como a evolução natural do nosso universo, faz uso da Seta do Tempo (passado-presente-futuro), afirmando que conforme o tempo passa, a quantidade de desordem no universo aumenta. Todas as leis da física, menos esta, são reversíveis – o que significa que os mesmos efeitos ocorrem independentemente de o tempo andar para a frente ou para trás. A Gravitação de Newton, a Eletrodinâmica de Maxwell, a Relatividade Especial e Geral de Einstein, a Mecânica Quântica – nenhuma das equações a elas inerentes dependem do tempo.

Isso significa que o universo deverá ter começado mais ordenado do que é agora! Alguém concebe o fenómeno “explosão” inflacionária género Big-Bang um sistema mais ordenado do que o universo presente? Uma contradição latente que é ultrapassada pela actual teoria Cosmológica Cíclica Conforme (CCC) de Sir Roger Penrose, onde o universo na sua expansão para a densidade nula, em que a radiação arrefece até a zero graus como resultado do “esticar” do Big-Bang inicial, reescalando a junção dos dois universos face à existência de uma Constante Cosmológica ꓥ positiva no espaço de tempo de 10100 ou mais (correspondendo a um éon). Aqui o Tempo também não faria qualquer sentido, pensando que as partículas sem massa (bosões dos campos do espaço granular e fotões por exemplo) “não parecem preocupar-se muito com a natureza métrica do espaço-tempo, respeitando apenas a sua estrutura conforme”.(7) É o chamado “Problema do Tempo”.

Deste modo uma singularidade advogada numa inflação exponencial tipo Big-Bang não é compatível com uma baixa entropia. A mesma opinião é expressa por Roger Penrose: “Do meu ponto de vista, esta ideia por detrás da inflação – que a uniformidade do universo que agora observamos deve ser o resultado de processos físicos (inflacionários) que actuam na sua evolução inicial – está basicamente mal concebida”.(8)

Carlos Rovelli, em consonância com esta filosofia, garante que “O nosso Universo poderia ser o resultado do colapso de outro Universo, passando através desta fase quântica onde espaço e tempo se dissolveram em probabilidades”.(9)

Ao considerarmos um período de transição hiper-inflacionária, em que as primeiras partículas (quarks, gluões, protões) não seguem a seta do tempo em direcção a um estado em que a influência da gravidade sobre os primeiros agregados moleculares (hidrogénio, deutério, trítio e lítio), em que as leis de direcção no tempo passam a operar (fase designada por decoerência, de acordo com a equação de Wheeler-DeWitt), verificou-se que a gravidade não é a força necessária e suficiente para o fazer.

Assim, segundo Robert Lanza e Dmitry Podolsky, “A nossa pesquisa revela que o tempo não existe, sendo uma propriedade emergente que depende apenas da capacidade do observador de preservar informações sobre acontecimentos vividos”.(10) Ou seja, o tempo não constitui um fenómeno distinto.

Diagrama CCC de Penrose (ilustração adaptada do autor)

Ou seja, o tempo é uma “variável” subjectiva cuja influência se remete ao nosso espaço local macroscópico por efeito da curvatura do espaço. Assim é, que o tempo não existiria num buraco negro, localmente vivido perto do seu horizonte de eventos. Imaginariamente, um suposto astronauta que se aproximasse do horizonte de eventos, constataria que teria passado alguns milhões de anos, em relação ao seu planeta de origem.

Assim como em Plotino(11), a essência do Tempo, não é cósmica, o tempo para ele é interiorizado na alma. A definição de tempo como identificando-se com a “esfera do cosmos” já é conhecida de Aristóteles (cfr. Physics. IV, 218 31b 1).

Não nos coibiremos de transmitir e comentar a filosofia mais antiga do planeta.

Diz a tradição filosófica ocultista que a pequena obra conhecida como as Estâncias de Dzyan é a obra original da qual foram compilados o Shu-King (a bíblia primitiva da China), o Siphrah Dzenioutha (o mais velho documento hebreu relativo à sabedoria oculta), o Sepber Yetzirah (obra atribuída a Abraão), as escrituras sagradas do egípcio Thoth-Hermes Trismegisto, os Puranas da Índia, o Livro dos Números Caldeu e o Pentateuco. Vem isto a propósito da necessidade de realçar a concepção transversal, inerente a todas as filosofias antigas (a grega e as ocidentais mais modernas também aí foram beber), de determinados princípios, como aqueles muito belos, revelados na Estância I, da Evolução Cósmica, do livro de Dzyan e que passamos a transcrever, e quando possível a entrosar com os conhecimentos actuais proporcionados pela Cosmologia actual ou pela recém nascida Biologia Quântica:

  1. O Eterno Pai (o Espaço), envolto em suas Sempre Invisíveis Vestes (sem dimensões visíveis, porque campo granular, “espuma de spins” em C. Rovelli), havia adormecido uma vez mais durante sete eternidades (sete períodos de um Manvatara, de acordo com a filosofia védica e equivalente a 311.040.000.000.000 anos comuns terrestres e que poderia corresponder aos éons do CCC de Roger Penrose).
  2. O Tempo não existia, porque dormia no Seio Infinito da Duração (já o demonstrámos antes. Na filosofia esotérica também o passado-presente-futuro só existem no plano da ilusão fenomenal conhecida como Maya).
  3. A Castração de Urano (tempo infinito) por Cronos (tempo finito), fresco de Giorgio Vasari e Cristofano Gherardi. Domínio Público

  4. A Mente Universal não existia (a Informação de acordo com o Princípio de Landauer da equivalência Energia-Massa-Informação, poderá dar substância à criação do Cosmos como acto do Pensamento ou da Consciência), porque não havia Ah-hi para contê-la (a matéria primordial – protões e electrões ou os Trigunas – quarks e gluões, ainda não existia, apenas campos quânticos).
  5. Os Sete Caminhos da Felicidade não existiam. As Grandes Causas da Desgraça não existiam, porque não havia ninguém que as produzisse e fosse por elas aprisionado (as leis da Causalidade, do Karma, da Causa e Efeito e aquilo que implicam, ainda não podiam ser aplicadas).
  6. Só as Trevas enchiam o Todo Sem Limites, porque Pai, Mãe (os pólos opostos – Yang,Yin, matéria e anti-matéria) e Filho (Luz – campos quânticos) eram novamente Um, e o Filho ainda não havia despertado para a Nova Roda (novo Manvatara onde vão ser criadas novas Rodas – Galáxias) e a Peregrinação por ela. (acreditamos que Bariogénese alicerça e esclarece estas afirmações escritas de forma tão simbólica).
  7. Os Sete Senhores Sublimes (são segundo os Vedas e os Upanishades, seres que assumem a sua existência provavelmente, dizemos nós, sob a forma quântica/informação, e que orientam cada Manvatara) e as Sete Verdades haviam cessado de ser, e o universo, filho da Necessidade, estava mergulhado em Paranishpanna (a entropia absoluta após cada ciclo Manvatárico), para ser expirado por aquele que é e todavia não é. Nada existia. (os ciclos de aparecimento e desaparecimento do Universo estão descritos aqui como actos de inspiração e expiração).
  8. As Causas da Existência haviam sido eliminadas, o Visível que foi, e o Invisível, que é, repousavam no Eterno Não-Ser – o Único Ser. (as causas da existência – material e espiritual, referem-se a uma espécie de lei mandatória que obriga à Existência nas sua multiplicidade de formas e dimensões, como se houvesse uma necessidade de tal. O Eterno Não-Ser – de onde nasce o Universo, é aqui equiparado afinal à verdadeira realidade).
  9. A Forma Una da Existência, sem limites, infinita, sem causa, permanecia sozinha, em um Sono sem Sonhos, e a Vida pulsava inconsciente no Espaço Universal, em toda a extensão daquela Omnipresença que o Olho Aberto (olho espiritual) de Dangma (alma na sua mais alta vibração) percebe. (A verdadeira existência, seja a do universo – matéria bariónica e escura, com os seus ciclos “big-bounce”, seja a do Não-Ser – Energia Escura (?), constituem um Todo que se interpenetram).
  10. Onde, porém, estava Dangma (alma na sua mais alta vibração) quando o Alaya do Universo (alma do mundo, Gaia, Panpsiquismo ou a estrutura Holo-Morfogénica de Rupert Sheldrake) se encontrava em Paramârtha (o Ser Absoluto ou o Não-Ser), e a Grande Roda (o Universo) era Anupâdaka? (sem pais ou progenitores)”.

Este belíssimo texto(12) tem a particularidade de resumir de forma eloquentemente poética e sobretudo simbólica como é próprio das mitologias, tudo aquilo que tentámos expor de forma relativamente mais simples. No entanto a densidade de informação exposta deverá obrigar a uma consulta dos temas aqui focados inequivocamente de maneira ligeira.

Como disse E. Schrodinger falando sobre a Vida, “Isto é uma descrição fantástica, talvez mais própria de um poeta que de um cientista. Contudo, não é necessária imaginação poética, mas somente sóbria e lúcida reflexão científica, para se reconhecer que estamos em presença de processos cujo regular e ordenado desenrolamento é orientado por um “mecanismo” em tudo diferente do “mecanismo probabilístico” da física”.(13)

Estes são os maiores desafios da Ciência e do Espírito Humano.

Notas e bibliografia

[1] “Espírito e Matéria, Parte II, Vida, Espírito e Matéria”, Erwin Schrodinger, Publicações Europa América, pág. 200.

[2] Timeu, Platão, IV,4 [28], 15, 1 e ss.

[3] “A Realidade não é o que parece”, Carlos Rovelli, Editores Contraponto, pagina 153.

[4] “A Realidade não é o que parece”, Carlos Rovelli, Editores Contraponto, pagina 167.

[5] Bahgavad Gita, Editorial Trotta, Edicion de Consuelo Martín,El Espíritu Supremo/XV.11, pag. 253.

[6] “Espírito e Matéria, Parte II, Vida, Espírito e Matéria”, Erwin Schrodinger, Publicações Europa América, pág. 201.

[7] “Ciclos de Tempo”, Roger Penrose, Edições Gradiva, pagina 182.

[8] “Ciclos de Tempo”, Roger Penrose, Edições Gradiva, pagina 155.

[9] “A Realidade não é o que parece”, Carlos Rovelli, Editores Contraponto, pagina 181.

[10] Cornell University, arXiv.org > gr-qc > arXiv:1508.05377, On decoherence in quantum gravity, Dmitriy Podolskiy, Robert Lanza.

[11] Enéades, Plotino.

[12] A Doutrina Secreta, Vol. III – Antropogénese, Parte I: A Evolução Cósmica, Sete Estâncias do Livro Secreto de Dzyan, de H. P. Blavastsky.

[13] A Vida, Espírito e Matéria, Erwin Schrodinger, Publicações Europa América.