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O Manto Negro do Esquecimento

Sabe-se hoje que há aproximadamente 12 700 anos a Terra sofreu uma mudança geológica tão significativa que marcou o final de uma era (Pleistoceno) e o início de outra (Holoceno). Esta mudança gerou-se em duas vagas, separadas aproximadamente por 1200 anos uma da outra, e a diferença entre o antes e o depois desafia a imaginação.

Ainda Vivem Animais Pre-históricos?

São seis da tarde e, mesmo assim, há muito sol sobre a cidade de  Guatemala. Mais além, ao longe,  o verde quase  negro  da  selva  e, ainda mais longe,  montanhas cobertas de vegetação. Na nossa discreta casa de dois andares, uma das principais salas é ocupada por uma pequena coleção de diminutos objetos fragmentados, diferentes daqueles que normalmente se mostram aos turistas nos museus oficiais. Carecem de valor material e não são impressionantes. No entanto, são testemunhas, tão válidas como quaisquer outras, das grandes culturas proto-históricas que habitaram a costa do Pacífico e as selvas de Petén. Estas pequenas cabecinhas de barro, algumas simplesmente cozidas ao sol, ganham vida nas mãos de Alejandro, arqueólogo e filólogo profissional que trabalha para várias universidades da América Latina. Os seus vitais olhos azuis escrutinam cada peça e descobrem características escondidas; representações de deuses, muitos dos quais ignoramos até mesmo o nome, respondem ao seu eloquente conjuro e apresentam-se perante nós, por vezes entrelaçados uns com os outros.

“O Meu Nome É Legião, porque Somos Muitos” Uma Interpretação Pessoal do Episódio do Possesso de Gerasa

Dentro da fortaleza mais ou menos estável que somos e vamos sendo, ou que acreditamos ser, oculta-se a nossa verdadeira identidade, à qual só não somos mais fiéis por falta de espírito de aventura e por medo do que por lá possamos encontrar, mas, sobretudo, por medo do que até lá possamos perder, por mais impessoal e transitório que isso seja. Por não sabermos que nome receberemos e que nome deixaremos de ter, que tesouro interno encontraremos e que tesouro ficará por achar à superfície, entre tantas outras desculpas para não avançarmos em direção a nós mesmos.

A Água

É um elemento tão fundamental no nosso planeta, como a parte sólida que denominamos de terra. É mais: há maior proporção de matéria líquida que de sólida na Terra, e não há parte sólida que, de certa maneira, não esteja embebida, trespassada – ou precise estar – de líquido. O protótipo do aquoso é, para nós, o mar. O mar é como o sangue do planeta, vital, salgado, cheio de energia e dador de força ao mesmo tempo. No mar estão resumidas todas as formas da água: o sal que o compõe, o doce dos rios que nele vão entrar e as chuvas verticais que nascem pela subida do vapor e a descida das gotas líquidas… Por isso os antigos falaram do mar como do sangue, e eles souberam que os seus muitos sais não eram motivo para fazer dele um ser inerte, pesado e quase denso nas profundezas do seu leito. Eles sabiam deste sangue vivo que, dentro dele, transportava várias correntes, frias e quentes, num e noutro sentido, para que essa enorme massa líquida não estivesse nunca em repouso, distribuindo sempre o seu rico caudal energético. Tal como o sangue que circula pelo corpo, usando canais, e dependendo muito das correntes de temperatura…

Um Novo Nome para Teotihuacán

Um estudo sugere que os mexicas usaram a emblemática zona arqueológica para atacar os tlatoanis e propõe que seja chamada de Teo uacan, a cidade do sol.
O nome e a origem mística de Teotihuacan poderia mudar como a conhecemos. Um novo estudo sugere que a cidade dos deuses é na realidade a cidade do sol e deveria ser conhecida como Teo uacan, tal como a teriam chamado os colonos que chegaram no século VIII depois de ter sido abandonada. A investigação também expõe que a zona arqueológica teria sido considerada pelos mexicas como um local de peregrinação, no qual foram investidos mais de um tlatoani, como eram chamados os governantes mesoamericanos.

Terra Queimada

A política de terra queimada tem sido utilizada em inumeráveis ocasiões ao longo da história como medida defensiva perante um exército invasor ou, em seu lugar, também por uma força invasora como castigo ao grupo derrotado. A ideia pressupõe queimar ou destruir todos os recursos que pudesse utilizar o inimigo para se alimentar e abastecer, além de envenenar os poços de água e impedi-lo de sobreviver. Todas estas acções de carácter bárbaro aconteceram em tempos de guerra e até um terrível conquistador se vangloriava que a erva não voltaria a crescer por onde ele passava.

Pensamentos de Marco Aurélio, a Vida Interior do Imperador

Esta obra, tão especial na história da filosofia, é constituída pelas meditações ou reflexões que o imperador Marco Aurélio escrevia em grego, durante as noites, depois de cumprir os seus deveres imperiais. Provavelmente eram exercícios internos, próprios daqueles que, como ele, tinham consagrado a sua vida à filosofia.
O imperador conhecia as escolas de filosofia do mundo antigo, mas seguia de forma mais directa os ensinamentos da escola estóica, que eram afins à sua natureza e ao carácter romano em geral. Tratava-se de uma filosofia que, sem deixar de responder a problemas teóricos gerais, centrava-se no conhecimento e no domínio do mundo interior, com a finalidade de conquistar o próprio bem e o da sociedade a que se pertence.

O livro de Poesia «Movimento Perpétuo», de António Gedeão

Os Físicos e os Químicos tentam nos convencer, desde a lei exata de Lavoiser (nada é criado ou destruído, apenas transformado), que é impossível o movimento perpétuo. No entanto, a vida mostra-nos em todos os momentos o que sim é possível, precisamente na continuidade e dinamismo desta transformação que nunca pára, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno (pois a mesma ondulação quântica é incessante).

A Rosa Púrpura do Cairo: Ilusão e realidade

Que cinéfilo não terá visto algum filme de Woody Allen? O genial actor e realizador nova-iorquino dirigiu mais de quarenta filmes ao longo de toda a sua carreira artística, muitos deles como protagonista. Nascido como Allen Stewart Konigsberg em 1935, alterou o seu nome artístico para o actual e, ainda adolescente, começou a sua carreira como humorista. Com o tempo conseguiu fama mundial e múltiplos prémios.

A Beleza

A beleza pode ser definida como perfeição agradável à vista e que cativa o espírito ou a qualidade do que é belo. Para além de qualidade, pode ainda ser definida como característica ou particularidade daquilo ou daquele que é belo ou aprazível; formosura, venustidade, beldade ou encanto; sublimidade que atrai o olhar e conquista a alma.

A Arte de Ser Sempre Filósofo

É uma arte praticamente perdida. Fomos criados e educados no bulício e na alienação de uma mudança permanente, de uma caminhada perpétua sob a ameaça do aborrecimento ou das fantasias da nossa psique.
O Mundo Velho do qual todos procedemos está ainda muito agarrado a nós, com os seus hábitos vazios, as suas concessões, as suas oscilações entre formas religiosas já desprovidas de conteúdo e o materialismo bestializante.

A Digitalização da Sociedade

Durante o período de confinamento, alguns de vocês podem ter encontrado um conto de E. M. Forster chamado “The Machine Stops” (“A Máquina Pára”, em tradução livre), que se tornou notícia devido à sua extraordinária presciência. Escrito em 1909, cinco anos antes do evento cataclísmico que foi a Primeira Guerra Mundial, o autor descreve um mundo futuro em que as pessoas se auto-isolam, comunicam entre si por meio de ecrãs e controlam o ambiente das suas células individuais pressionando botões que lhes dão sensações realistas de som, cheiro e côr.

A Terra

A Terra é um ser vivo, embora os jogos de Maya façam que, para os homens, esta não seja mais do que o receptáculo ou habitação onde decorre a nossa existência. Deste modo, a Terra não assume mais importância do que a que pode ter um conjunto de tijolos bem unidos, e até não faltam homens que, cegos a tudo pela ilusão, não imaginam como é que os humanos não foram os construtores de algo tão “simples” como a Terra.

A Grande Mãe

Terá sido ela quem lhe disse,
A Mãe.
Não a mãe desta vida.
A Mãe de todas as vidas que já passaram e que virão.
A Mãe de todas (e todos) os que já foram, dos que estão e dos que estarão.

A Alma Humana Precisa de Heróis Entrevista a José Carlos Fernández

José Carlos Fernández é investigador, escritor e colaborador em diversas publicações, como a Revista Esfinge em Espanha, e dirige em Portugal as revistas Fénix, Pandava e Matemática para Filósofos. Conta como escritor com um grande número de obras, como Córdova Eterna, Florbela Espanca (sobre a sua vida e obra, traduzindo a sua poesia completa), A Viagem Iniciática de Hipatia, sobre esta filósofa alexandrina, Elementos Herméticos na Obra de Fernando Pessoa, e ainda Reis, Poetas e Sábios de Portugal, Ensaios Filosóficos e Teológicos, Viagem à Turquia (inédito), Instantâneas com Filosofia (inédito), bem como peças, como Ibn Qasi, rei filósofo do Algarve ou Florbela Espanca, lírio de Portugal. Assina também os roteiros documentais Córdoba Romana e Símbolos do Tibete. Estuda há mais de quarenta anos na Nova Acrópole, onde, além de leccionar, já realizou mais de mil palestras e seminários sobre temas relacionados com a filosofia, civilizações antigas e arte. Actualmente é director da Nova Acrópole em Portugal e hoje falamos com ele sobre Notas sobre o Simbolismo Arturiano, o seu último livro.

A Eneida (Aeneis) e a Divina Comédia: Uma Leitura

Publius Vergilius Maro, (70 – 19 a.C.), é o autor da Eneida, poema que narra a fundação de Roma na região do Lácio por Enéias, herói troiano que escapara do desastre da queda da cidade de Tróia, assim ligada hereditariamente ao surgimento do povo italiano. Roma absorveu muito da cultura grega e isso é evidente na influência que a Ilíada e a Odisseia de Homero na composição dos doze livros que compõem a Eneida.

Candidez e Ideal

O pensamento atual, fortemente influenciado pelo materialismo, inclina-se frequentemente para um constante jogo de contradições. Mas da antiga fórmula de “tese – antítese – síntese”, onde o último termo englobava o melhor dos anteriores da forma mais eclética possível, passou-se para uma irredutibilidade conceptual onde o processo fica pela metade e a análise substituiu a síntese.

Código da Vinci da Vida Real?

Foi há quase um ano que o agora denominado “Ritratto di Lecco” (outrora “Cristo di Lecco”) começou a ser centro de uma bateria de análises desde o município lombardo de mesmo nome, provocando toda sorte de reações no meio acadêmico o quanto se pode imaginar. Este pedaço de papel, medindo 24 x 16,8 cm e 0,02 cm de espessura, com a imagem do rosto em ¾ de um homem de cabelos e barba longos, parece fazer alusão à figura clássica do Cristo, mas o curioso é que também nos leva à grandeza e dignidade da mítica “Mona Lisa”. De fato, tanto o ângulo quanto a firmeza da personalidade transmitidos no olhar daquela figura ao contemplador nos farão lembrar o famoso autorretrato de Turim de Leonardo da Vinci.

A Arte de Maria Bethânia

A música trabalha com potências. Toda a música. Porém, a música erudita e, nesta, sobretudo a instrumental, quase que totalmente, porque abstrai da voz e do seu fonologocentrismo. Ainda que, no caso do canto lírico, a técnica vocal que este implica seja, desde logo, já uma das formas em que a voz se deixa diluir para além do logocentrismo. A arte do canto lírico seria a do contorno do logocentrismo, na exacta medida da formação artística que expressa. Se é exacto que o canto lírico é uma arte derivada da poética como potência da alma, esta potência joga-se ela-mesma no limiar aberto pela fonética própria a essa arte. Talvez a técnica do pianíssimo de Montserrat Caballé fosse aqui absolutamente paradigmática. É nesta medida que a música devém potente.

O Caos

Os livros e textos sagrados que vamos conhecendo e estudando retratam sempre um momento inicial sobre o qual não existia nenhuma identificação concreta da matéria ou de uma existência em movimento. Esta ideia do “nada” ou de um “oceano primordial” assemelha-se a um estado que podemos definir como sendo o caos, um equilíbrio imóvel ou uma inércia em potência. Uma espécie de estado adormecido ou de Pralaya, tal como o útero de uma mãe aguarda algo que desperte vida no seu interior. Tesla referia que a dimensão obscura no universo está apenas adormecida, ou seja, à espera de algo que a desperte. Também o mesmo acontece no Ser Humano. No seu interior residem inúmeras zonas de matéria negra numa potência inerte à espera de algo que a torne consciente, viva e desperta.

O Dia e a Noite

São outra forma de ciclo, embora repetido num breve tempo que nós, humanos, calculamos como sendo de 24 horas. Este ciclo produz muito menos medo do que o outro maior das estações. Este é notado com mais assiduidade, e embora a nossa memória seja débil, pode recordar de um dia para o outro, de uma noite para a outra. Esta possibilidade de memória retira o medo.

Santo Agostinho e a sua Cidade Celeste

O saque de Roma pelos visigodos no ano 410 chocou o mundo antigo. As pessoas atribuíam-no a um castigo divino por terem sucumbido às doutrinas alucinantes, sectárias e excludentes dos cristãos, e por deixarem de render culto aos velhos Deuses. Seja isto certo ou não, a verdade é que a nova religião desfez completamente o tecido social e institucional do Império Romano com as suas fantasias do iminente Fim do Mundo e a rejeição dos antigos valores da Concórdia, do Comprometimento, da Fidelidade, do Culto da Pátria, etc., etc. Que sociedade se pode manter de pé crendo que dentro de alguns anos vamos presenciar o Fim dos Tempos? Como trabalhar assim para o futuro? E é evidente que quem mais vai sofrer esta ausência de futuro são os que vêm depois, os filhos e os netos que se vêm perante o vazio, com as instituições públicas jurídicas, educativas, militares, etc. em ruínas e sem nada para substituí-las.

O Zodíaco de Johfra.Touro-Arte, Astrologia e Simbologia

Franciscus Johannes Gijsbertus van den Berg (1919-1998) é mais conhecido pelo seu nome artístico, JohFra Bosschart, resultante da união das primeiras letras de cada um dos seus nomes e o apelido de sua mãe.
Desde muito pequeno mostrou grande talento para o desenho e canalizou a sua atenção desperta pela sua imaginação e orientada pela natureza: cada tarde desenhava aquilo que lhe havia chamado a atenção durante o dia.

Sobre arte… Uma Singela Parte!

«Se no Musée du Louvre me impressionou o quadro “La jeune martyre” (1855), de Hippolyte De La Roche, no Ashmolean Museum impressionou-me muito mais o “Landscape with fishermen at the mouth of a river” (1937), de Georges Michel. Não só pela técnica aplicada, pois essa é, simplesmente, impressionante!

Sem dúvida que a manipulação pródiga da pintura do artista consegue manipular mesmo uma visão crua de observador. Eu diria que não escolhi a obra, mas que a obra me escolheu a mim. Mal a avistei fiquei presa: ao seu volume e conteúdo, à densidade da sua cor, à profundidade da sua técnica.

William Walker. O Mergulhador

Na minha última viagem a Inglaterra, tive a fortuna de visitar a antiga catedral de Winchester. Milenar centro de peregrinação e religiosidade, um dos vórtices mágicos do planeta, o lugar em que no século XI se elevou a atual catedral gótica sobre alicerces normandos que ainda são visíveis no cruzeiro, foi assento de santuários mergulhados no mais remoto passado, anterior ainda aos romanos.

A Tirania da Felicidade

Desejar a felicidade soa-nos tão natural nos nossos dias, que questionar esse desejo parece-nos uma coisa estranha, para não dizer absurda. No entanto, é precisamente quando nos deixamos de questionar que abrimos espaço à possibilidade de algum tipo de tirania sobre nós e a nossa vida. Não se trata, pois, de nos opormos à felicidade, mas sim de procurarmos entender como se desenvolveu uma visão redutora, simplista e egoísta da felicidade, que nos foi tirando a liberdade de viver.

O Jardim de Émile Zola

Na verdade, o nome do romance em que o protagonista é um jardim incrível é ” O Crime do Padre Mouret “. Émile Zola (1840-1902), seu autor, é considerado um dos pais do naturalismo, que viria a espalhar-se pela Europa, e foi decisivo, por exemplo num Galdós em Espanha ou num Eça de Queirós em Portugal. A descrição é detalhada, realista, natural, até crua, embora sem ficar distorcida como nos espelhos grotescos do Valle Inclán.

A Música de John Williams

Nos primeiros meses de 2020, John Williams dirigiu um concerto com a sua própria música em Viena, com a Orquestra Filarmónica da cidade, onde teve como solista convidada a violinista Anne-Sophia Mutter. Àquela data, Williams tinha 88 anos recém cumpridos, um mérito acrescido, a meu ver, dado o esforço que representa dirigir um concerto em qualquer idade. Aquele concerto, que me apressei a gravar, teve para mim um acrescido prazer visual por ser pré-pandemia, quer dizer que o teatro estava completamente cheio e ninguém necessitava ainda das omnipresentes máscaras (tapa bocas ou cobre bocas noutros países) de que ainda não podemos prescindir em 2022, quando escrevo.