Os dicionários dizem do tempo que é “a duração das coisas sujeitas à mutação”. É evidente, portanto, que o que está sujeito à mudança é influenciado pelo Tempo, ao qual se deve adicionar que a partir da sua manifestação, ou seja, desde o seu ponto de partida, as coisas existentes estão sujeitas a uma permanente mutação. Tudo o que não pertence à Unidade, no conceito de Plotino, é o Ser, e o que é o Ser está sujeito ao tempo.

Devemos entender, portanto, que o corpo e a alma estão sujeitos ao ciclo de transmutações, um como ser físico e mais subtil, mas igualmente corpóreo, existe também, de alguma forma, no conjunto do manifestado, algo que vai além da matéria, algo que vai além do Ser. Esta Essência, consubstancial com a Unidade, além do Ser, é o abismo no interior de cada coisa, e a consciência desse abismo não depende da coisa em si, mas do nível de consciência em que é encontrado.

A presença desse abismo, desse Dionísio, desse Deus em nós, é a chamada permanente do Ser. A razão do Ser é atrair o foco da nossa consciência desde a sua função experimental nos planos da manifestação até ao seu regresso à fonte de onde partiu, na sua infinita projeção. Ao chegar ao foco da consciência, o Ser perde a sua razão de ser e deve dissolver-se, pois até ele implica separatividade em relação à Unidade.

O Tempo como Conceito

Se admitirmos que o corpo é a sede da alma e esta é a sede do Espírito, ou seja, o Ser, a porta do Abismo, as coisas necessitarão de tempo para que a consciência sonde a matéria, experimentando num processo de ida para as partes mais densas e de retorno para as partes mais etéreas. Enquanto esse processo durar, todas as coisas estarão sujeitas a mutação. O conceito de Tempo poderá desenvolver-se a partir de duas perspetivas: como a duração que as coisas precisam para a sua viagem desde o interior de si mesmas para a sua própria periferia e o seu regresso para o interior, que é o que geralmente tendemos a utilizar e que implica a ideia de que as coisas passam pelo Tempo; ou, pelo contrário, utilizando uma perspetiva exatamente inversa, que seria baseada na ideia de que nada mudou de lugar desde o começo da Evolução, que o que realmente ocorreu foi uma refração infinita, exponencialmente multiplicada e onde a Essência ao refletir-se sobre si, refletiu, por sua vez, em dois outros pedaços, numa espécie de emanação de sombras ou emanação de reflexos, como que num conjunto de espelhos quebrados onde, uma vez recompostos estes, obteríamos uma única imagem refletida. Talvez toda a Criação não seja apenas o espelho da Essência, onde esta Essência ou Unidade se reflete.

Poderia pensar-se que, assim como os homens reconhecem a sua própria imagem diante do espelho e os animais diante das águas do lago calmo, a Essência se observa em silêncio no espelho da Criação. Quando a experiência desse reflexo acabar, talvez já não seja necessário o espelho da emanação das formas a partir do Ser. Portanto, de uma perspetiva inversa, a Essência, a Unidade, ao provocar a emanação do Ser, não se moveu, nem o Ser; aqui, o jogo especular dos reflexos é uma ilusão de imagens multiplicadas. As coisas, portanto, não iriam nem voltariam simplesmente desde a atenção do Ser, mas contemplar-se-iam uma e mil vezes numa rica combinação de formas que não passam pelo Tempo, sendo antes o Tempo a passar por elas.

Desde esta perspetiva, o Tempo é o estado de uma substância que permite que as coisas manifestadas possam mutar-se; é como o vento que arrasta as nuvens e faz parecer que elas andam. Seria como lançar ao rio que corre um pedaço de madeira amarrado a um fio de nylon quase impercetível e acreditar que o pedaço avança. Mas é o Tempo o que passa, como passa o rio inexorável pela madeira. O Tempo é o estado dinâmico de uma substância fundamental que permite criar a ilusão da mudança das coisas.

O Tempo como Mutação das Coisas

Na realidade, a Essência, tanto quanto podemos entendê-la, é imutável; logo, pela sua própria natureza, não pode emanar de si nada que seja contrário ou oposto a essa mesma natureza que a inspira. Seria absurdo pensar que algo pode surgir de uma matriz que já antes não contenha esse algo a que deu origem. De que modo, então, a Essência ou a Unidade pode produzir algo que não é da sua própria natureza? Ou seja, como pode provocar a imagem inversa de si própria? Utilizando, pois, uma substância, o “espaço-tempo”, que lhe permita refletir-se; e embora nas ondas desse espaço-tempo especular pareça transmutar-se e mover-se, ela permanece a mesma, imutável e imóvel. Da mesma forma que num jogo de espelhos deformados a imagem encolhe ou aumenta, no espaço do Tempo parecemos envelhecer e transformar-nos, mas o original imutável é sempre o mesmo. Assim, tudo depende da posição que tomemos na análise do Tempo e da perspetiva que utilizarmos.

O cômputo horizontal do Tempo vai do passado ao futuro, passando pelo misterioso instante do presente. A figura bicéfala do deus Janus ajuda a compreender este enigma, uma vez que cada um dos seus rostos tem uma perspetiva oposta e diferente, e onde o deus é um só que supera ambas as análises, que para entender a História bifurca-se, mas para ser sintetiza-se.

Do mesmo modo, teremos que ter em conta um cálculo vertical do Tempo, um Janus que olha para cima e para baixo. Tal como no Janus horizontal podemos contemplar a História desde o passado com um critério tradicional do fluxo dos factos e/ou desde o futuro com um critério progressista dos atos humanos, mas no final a realidade supera e sintetiza ambos os critérios; também no Janus vertical podemos contemplar o Tempo a partir da matéria, como um devir desta, ou desde a Essência, como um devir do Tempo, sendo que, afinal, nada é o Tempo exceto um instrumento da Essência, como a História o é da consciência do Homem.

Como não se pode avançar com êxito para o futuro sem se ter aprendido com o passado, não se pode entender a mutação aparente das coisas sem se ter compreendido a necessidade do Tempo. Se, para saber como deve ser o futuro, devemos sondar o passado, para interpretar a nossa aparente passagem pelo Tempo devemos aprender a nossa estabilidade além dele. A mutação das coisas no Tempo não é mais do que um jogo da nossa Essência Imutável.

O Tempo Físico e o Tempo Psicológico

Dado que o Tempo que poderíamos chamar físico acelera o processo de mutação das coisas, é óbvio que o ser humano, na contemplação do seu devir, usa habitualmente uma análise do Tempo a partir do tempo e não a partir de si mesmo. Motivado pelas transformações que se operam nele, utiliza como suporte da sua análise o mais marcante, que é o mais mutável que está nele, e não justamente a visão contrária, a partir do imutável que poderia encontrar nele. Claro que é mais simples, é quase natural que a nossa análise introspetiva seja feita a partir do que vemos, do mutável, e não do imutável que, entre outras coisas, não vemos. Dessa forma, na sua análise através do mutável, carrega os seus conteúdos conceptuais com critérios baseados em experiências de tipo especular, em última análise ilusórias.

Tempo, Abdul Mati Klarwein (1965). WikiArt

Determinar a análise do Tempo a partir de uma perspetiva vertical descendente na matéria, permite-nos o reflexo que surge das formas como entidades não permanentes. E tudo isso é importante, porque ajuda a conhecer as leis da matéria, mas se não se transcende ainda mais, as causas dessas leis não serão conhecidas. Pelo contrário, se determinarmos a análise do Tempo a partir de uma perspetiva vertical ascendente, até certo ponto isolamo-nos do tempo. Assim parece duplicar-se o processo experimental sobre o Tempo, e à maneira de um barco de grande calado ancorado num rio caudaloso e de forte corrente, há uma sensação de que sob a quilha se abre o sulco na água e, por outro lado, sobre a linha de água se vê correr as águas em redor do navio. No primeiro caso passa-se pelo tempo, no segundo o tempo passa por nós. E embora o exemplo possa parecer insuficiente para uma compreensão abstrata do fenómeno, serve como uma figura indutiva que reflete o processo de perceção que pode tomar a consciência quando se abstrai da dinâmica das mutações que é filha do Tempo.

Não deixa de ser indicativo o facto de que a corrente da água ser percebida de uma forma diferente desde a quilha e quase arrastada pela corrente, do que desde o convés vendo-a passar. Se, por um momento usarmos a comparação e identificarmos a corrente com o Tempo, a situação junto à quilha com uma perspetiva vertical-descendente, e a situação no convés do navio com uma perspetiva vertical-ascendente, isso nos permitiria apontar a possibilidade de perceber o tempo de uma forma diferente do que estamos habituados.

Deveríamos concordar, e tudo parece indicar que este é o caso, que o Tempo é um em si mesmo, que a sua natureza é uniforme; em suma, que as águas de que são compostos os rios são sempre águas. Mas a diferença estaria na rapidez dos seus cursos, em cujo conhecimento os marinheiros podem dominar a navegação. Assim, o Tempo, que na sua manifestação sobre as coisas – ou as coisas no devir do Tempo – parece inexorável e ritualmente preciso, encontra a sua primeira fissura na captura e medição dos períodos pelo homem.

Medir o tempo físico usando os ritmos da Natureza é uma arte complexa de raízes iniciáticas. Os calendários e a medição das horas foram sempre o símbolo de uma sociedade civilizada. Mas, além desses períodos físicos, surge para o homem uma captação diferente da medida do Tempo no chamado tempo psicológico. Aqui podemos ver que se utilizarmos a medida padrão de uma hora em diferentes circunstâncias, o resultado desse período pode resultar, para o sujeito afetado, extremamente breve ou eternamente longo. O que aconteceu aqui? O Tempo encontrou uma fissura na inexorabilidade dos seus ritmos, e isso permite-nos ter a certeza de que de acordo com os planos de consciência em que nos situemos, a passagem do tempo terá efeitos diferentes. Tal como as águas de um rio são mais escuras na profundidade e mais claras na superfície, ou mais rápidas ou mais lentas, sem deixarem de ser elas próprias, o Tempo, juntamente com o Espaço, parecem ser os instrumentos de um fenómeno ilusório.

Pode-se pensar, nesta mesma ordem de coisas, que à medida que movemos o nosso foco de um plano para outro das nossas possibilidades de consciência, a perceção do tempo se iria transformando. O importante desta conceção vertical-ascendente do Tempo – para chamá-la de algum modo – é observar que quando as coisas parecem passar pelo Tempo ou através dele, é na realidade o Tempo que passa através das coisas ou pelas coisas. Isso não invalida o facto de que o Tempo, no seu roçar nas coisas, desgasta-as, envelhece-as e transforma-as. Essa nova perspetiva não nega o Tempo, não nega as suas leis, mas tenta abordar dedutivamente as causas dessas leis. As coisas precisam do Tempo para se tornarem eternas.

O Tempo como Inimigo

É habitual interpretar a passagem do Tempo como algo que nos consome, que nos devora. Mesmo a partir da própria Mitologia observamos Cronos-Saturno a devorar os seus filhos à medida que vão nascendo. Isso, devido a uma prolongada endoculturação, foi-nos colocando numa posição oposta ao Tempo como conceito: duração das coisas sujeitas à mutação.

Deste modo, sujeitos psicologicamente à observação física das mutações próprias do material, colocamos o nosso processo evolutivo no quadro do devir temporal. A mais elementar das relações ocorre de seguida, quando resistimos à passagem do Tempo no nosso corpo, condicionados logicamente pela mutação que observamos no nosso ambiente físico. A nossa passagem psicológica pelo Tempo converte-se numa experiência que por vezes é lacerante e que nos incomoda psiquicamente ao observar que as mandíbulas de Cronos estão cada vez mais próximas da mão da equânime Parca.

Projetamos o processo de envelhecimento físico sobre as nossas capacidades intelectuais e espirituais, e a chegada da maturidade, longe de nos converter no fruto propício para a degustação, no momento oportuno para o canto do cisne, transforma-nos num fruto azedo, mais próximo da putrefação estéril do que do ato sublime de transmutação.

Se entendermos o Tempo como uma linha reta sobre a qual nos movemos, e que ao longo desse deslocamento vamos desgastando as nossas qualidades originais, o Tempo converte-se num inimigo, é algo que nos priva dos nossos melhores dons, que debilita as nossas forças e que no final nos tira tudo. O desgaste que ocorre nos corpos transmite-se desnecessariamente para o plano intelectual, e aqui está outra ficção, já que a experiência dos nossos corpos submetidos ao processo temporal, é a que serve para alimentar a nossa psique e o nosso plano espiritual. O reflexo do nosso Eu nas águas do espaço-tempo permite-nos conhecermo-nos. Mas em ambos os casos qualquer identificação será negativa, como nos recorda o mito de Narciso. A identificação que nós, humanos, fazemos com o processo corporal submetido ao espaço-tempo é o ponto de partida da maioria dos nossos próprios erros. Especialmente por duas razões fundamentais: a primeira, porque ao refletirmo-nos no espelho das águas a nossa imagem aparece invertida, e o que observamos sobre essa imagem invertida deve necessariamente ter uma leitura inversa; e a segunda, porque não somos nós ao refletirmo-nos no rio que navegamos, mas é o rio que navega sobre a nossa imagem recortada nas suas águas. Desta maneira, os reflexos na água, no Tempo, não devem ser interpretados tal como como se veem nele, uma vez que essa leitura induz em erro. Assim, o que parece mudar talvez não mude mas, por outro lado, não é a nossa imagem refletida que é transportada através das águas, não é o nosso corpo que navega pelo Tempo, mas é o rio que passa pela imagem, é o tempo que passa pelo corpo. Desta maneira, desde a margem, ao nos refletirmos, a água não nos molha, o rio não nos leva, o rio é um aliado que nos permite a observação de quem somos, é o meio que nos dá a leitura dos nossos enigmas. O Tempo permite-nos observarmo-nos, mas as mudanças da nossa imagem não são as nossas mudanças, mas as ondas da água brincando com a nossa imagem. O Tempo é um aliado que passa ao nosso redor, que nos dá a mão para que nos ponhamos ao seu lado, para que possamos refletir nele, para que possamos aprender o que nos falta saber.

O Tempo inimigo enfraquece-nos, o Tempo aliado fortalece-nos. Se queres escravizar alguém, escraviza primeiro o Tempo e então ele será teu escravo. Se, em vez disso, quiseres libertar alguém, alia-o com o Tempo e será sempre livre.

A Raiz do Tempo

A chave para o encontro com o Tempo seria estar no Tempo sem estar nele.

De alguma forma, serve-nos aqui a figura do hexagrama do mago, dentro do qual se coloca para realizar a sua magna obra. Esta imagem pode nos ser útil se concordarmos em aceitar, para o desenvolvimento das ideias que aqui expomos, as que se dizem ser as regras da Magia. Para quem não o entende assim, a ideia, no entanto, é prática e didática. Devemos recordar que, de acordo com estes critérios, o oficiante coloca-se dentro de um tetragrama muito elaborado que ele desenha no solo. Deste modo, ao realizar as suas invocações, penetra noutra dimensão sem sair daquela da qual partiu. Encontra-se no mesmo instante em dois planos distintos, algo assim como ter sacado a cabeça através da abóboda do céu sem ter deixado de pisar a terra. Desta forma, não só tem o regresso garantido, mas também continua a ser o que sempre foi antes do ato de oficiar. Está noutra dimensão sem estar nela, simplesmente pode observar e observar-se na tela dessa outra maneira de ser das coisas.

Se os seres humanos entendessem que colocarem-se na dimensão do Tempo é introduzirem-se num âmbito que não lhe é consubstancial, poderíamos também entender a possibilidade de abstrair-se dessa dimensão sem necessidade de sair dela; tudo consiste em compreender que as bordas e o contorno dos nossos corpos mais densos constituem o nosso próprio hexagrama de oficiantes na dimensão do Tempo. Deste modo, o corpo, como as bordas do tetragramaton, desgasta-se; mas tu, o verdadeiro protagonista, permaneces imune, inalterável aos acontecimentos que se sucedem nessa outra dimensão e como o oficiante do nosso exemplo, observas e observas-te.

O Tempo é aquela dimensão cristalina ou especular, como já dissemos antes, onde as coisas encontram a possibilidade de se reproduzir e transmutar-se na mudança aparente das suas imagens e das suas formas, como no caleidoscópio. É, na realidade, o grande amigo, o melhor aliado do Ser, já que ele é o grande inimigo das formas. O Tempo é o aliado do Conhecimento, já que permite à inteligência ver o mutável da Criação; é a chamada de atenção para regressar ao Ser, é o aviso do final do caminho. O Tempo, ao degenerar as formas, gera a necessidade do encontro com o imutável, é o Tempo que gera a busca de eternidade no homem e a sua necessidade.

Dance com a música do tempo. Nicolas Poussin (1634). Domínio Público

Se nos aliarmos às formas mutáveis, o Tempo é o nosso oponente; se buscamos o imutável, além das formas, o Tempo é nosso aliado, porque nos dá a sua transitoriedade e no final liberta-nos dela. O Tempo aliado torna-nos sábios e livres.

A Aliança com o Tempo

Se voltarmos à Mitologia clássica, vemos que Zeus consegue escapar do Tempo inexorável, Cronos, que a todos os seus filhos devora, pelo ardil da Natureza – Rea, sua mãe – que coloca no seu lugar uma pedra que o salva, e será assim Zeus quem irá governar em vez do seu pai.

Poderíamos interpretar que Zeus-Júpiter representa cada homem em aliança com a Natureza, Rea, quem pode iludir a acção do Tempo, Cronos-Saturno. Mas essa aliança com a Natureza é, também, uma aliança com o Tempo, já que Rea, mãe de Zeus, é a parte feminina de Cronos na segunda Dinastia Olímpica; o binómio espaço-tempo estaria aqui representado pela dualidade Rea-Cronos.

O Misterioso Instante do Presente

Um dos mais complexos instantes do processo temporal é o chamado presente, já que é aqui onde nós, seres humanos, nos encontramos no ponto de maior perigo quando confrontados com o Tempo. A falta de captação do momento confunde toda a leitura vertical ascendente do fenómeno do Tempo. Realmente, existe o presente? Ou trata-se simplesmente do momento em que se unem o passado e o futuro? Mas, se é uma união é também vazio, é um ponto de encontro de duas linhas, uma para trás e outra para frente e, na medida em que nos encontramos permanentemente nesse ponto de encontro entre as duas projeções dinâmicas, o passado e o futuro, esse ponto, se é permanente, estaria em contradição com o próprio sentido de evolução. Se não é permanente, mas mutável, já não seria presente, pois seria passado ou se converteria em futuro. Então, provavelmente, neste misterioso instante do presente não haja nada, mas uma fissura por onde se pode enganar o Tempo ou, pelo contrário, o que cai enganado nas suas redes é o homem a quem o presente devora.

Quando nas Escolas Neoplatónicas se recordava aos discípulos a necessidade de viver intensamente o presente, se estava tratando de indicar a fissura pela qual nos escapamos do Tempo e podemos entrar na Eternidade. Em definitivo, o presente, que na realidade não existe como fenómeno temporal, é o ponto no qual assenta a nossa consciência na viagem experimental. É ali onde se abre a cada instante, por um momento, a possibilidade de entrar ou vislumbrar o Abismo, o que é Eterno, o que está para além do Ser.

Ao estar permanentemente ancorado entre o passado e o futuro, ninguém vive o presente, já que quem o vive, torna-se eterno por um instante e coloca uma pedra na boca de Cronos.

A sensação enganosa da falta de tempo no momento presente nada mais é do que a consequência do erro anterior. Se não soubermos imortalizar o momento presente, como diria Rudyard Kipling, “esse momento inexorável de sessenta segundos que te levam ao céu”, caímos na falsa sensação de querer apanhar o Tempo, mas como o Tempo, ao ser dinâmico, é inapreensível, sempre nos faltará tempo no momento presente. Essa angústia por falta de tempo degrada-nos, escraviza-nos ainda mais ao Tempo, e longe de superá-lo nas correntes das suas sensações, nos leva. O resto é apenas uma questão de tempo, a sensação da sua falta só gera mais falta dele, já que é inibidora. O Tempo como angústia desenvolve-se na psique do homem alimentando-se da necessidade de mais tempo, e o mesmo que acontece com a gula para o corpo físico, ocorre neste caso, onde a necessidade de mais tempo pode chegar a graus patológicos. Então parece impossível ser capaz de fazer o que um homem, livre desses laços, teria feito num instante com um único gesto de eternidade.

Se percebermos que é o Tempo que precisa de nós para continuar a existir e não nós dele, de alguma forma, através de uma impercetível compreensão, começamos a ser um pouco mais livres.

Os espelhos só servem para se olhar neles, no máximo para se reconhecer, mas para poder Ser devemos regressar a nós mesmos. O Tempo e o Espaço servem-nos para manifestar as nossas experiências, para nos observarmos nelas, mas nós já somos antes do Tempo e do Espaço. Devemos lembrar e compreender essa frase de Buda quando disse: “Eu sempre tenho tempo para aqueles que já não têm tempo.”

Nós, homens livres, que caminhamos sobre o fio da Eternidade, devemos aprender a ter sempre tempo, a saber colocar uma pedra na boca de Cronos.

Tempo, o Oposto da Eternidade

A Eternidade não pode gerar algo, a partir da sua própria natureza, que não tenha nada a ver com ela ou até a contradiga. Aqui há um enigma que é preciso decifrar, um segredo sem desvelar.

Se a Eternidade utilizou o Tempo para se refletir no Ser e o Ser utiliza, de algum modo, as suas experiências no tempo para regressar à Eternidade, à Unidade, ao não-Ser, o Tempo deve estar em estreita ligação com a Eternidade.

Vejamos: a linha pode ser interpretada como uma sucessão de pontos, mas hoje a moderna Geometria compreendeu o que já disseram os antigos, que a linha é um ponto em movimento. Projetando esta reflexão sobre o assunto em questão, poderíamos dizer que o Tempo é uma soma de presentes, entendendo a este como um instante, como um ponto do abismo no devir do Tempo; então poderíamos, realmente, ir mais longe e dizer que na vida de um homem o presente, o verdadeiro presente é um só, isto é, um ponto de consciência na Eternidade, que se move ao longo da nossa existência. Assim, o tempo de uma vida seria, para aquele homem livre e desperto que vive de forma neoplatónica intensamente o presente, um presente que se move, que está em movimento. De modo que, para este homem que conseguiu viver o misterioso instante do presente, não como uma experiência única, mas como algo habitual no seu desenvolvimento vital, a porta para sair do Tempo encontra-se perto. Em resumo, vivendo o presente ou ponto da Eternidade, o Tempo não existe como um fenómeno quotidiano, pois o Tempo em si é a Eternidade refletida, não é mais do que a aparente soma de presentes que constituem o passado mais a soma de presentes que constituirão o futuro. Portanto, se o presente consciente é um ponto dessa Eternidade no Espaço, um ponto em movimento, o Tempo como devir é ilusório, não existe na realidade.

Vigília Eterna, Sabin Balasa. WikiArt

A Eternidade só gera a eternidade, e o homem que vivencia esses sessenta segundos que o levam para o céu, torna-se eterno, colocou uma pedra na boca de Cronos.

Se o tempo é esse inverso da Eternidade, se é uma Eternidade refletida por instantes, por presentes no Espaço, o homem levará em si mesmo a ideia de Eternidade, ou seja, a consciência da Imortalidade. O ser humano submerso em toda essa série de ilusões, de enganos que são suportados nas leituras inversas da Realidade, sente-se junto ao Tempo e às Coisas, e, portanto, sente-se mortal. Não há dúvida de que as coisas morrem, como morrerá a sensação do Tempo e do Espaço à qual estão sujeitas. Desta forma, a vida do ser humano será tão longa ou breve quanto as coisas em que ele deposita a sua consciência. Por exemplo, se um homem se identificasse, num absoluto hipotético, com as suas próprias roupas, psiquicamente morreria quando alguém lhe arrancasse as roupas. E eu digo psiquicamente, porque nesta hipótese apresentada assumimos que a identificação seria tal que o horror de perder essas roupas lhe causaria um choque de tal natureza, que o invalidaria para continuar a agir com consciência e cairia num estado de letargia. Mas o homem do nosso exemplo continuaria a viver, sem a consciência disso, continuaria no mundo. É algo parecido ao que acontece com o homem cuja identificação com o corpo é tal que a perda dele fá-lo cair numa letargia atroz. Mas, se bem que ao morrer o seu corpo ele sente-se a morrer com ele e, no entanto, quando tira todas as noites a sua roupa não se sente afetado, talvez algo semelhante nos aconteça com a chamada “morte”. Então, um homem que não deposite a sua consciência no corpo, mesmo que esteja sujeito às variações do Tempo, se identifica o seu ponto de atenção com o imutável, poderá aperceber-se em vida que nele há um resquício de imortalidade. Assim, do mesmo modo como ninguém sofre porque deve deixar o casaco velho, pois pode comprar um novo e melhor, o homem internamente desperto não sentirá sobre si a pressão da passagem do Tempo através do seu corpo, e encontrar dentro de si a ideia de imortalidade o fará livre e feliz. Terá colocado uma pedra na boca de Cronos.

Prof. Juan Manuel de Faramiñán
Diretor do Centro Jurídico Internacional Maat