O Livro da Vida de Rabindranath Tagore

Vivemos no mundo quando o amamos.

Tagore

Quem és tu, leitor, lendo meus poemas daqui a cem anos?
Não posso enviar-te uma única flor desta riqueza da primavera, uma única faixa de ouro das nuvens.
Abre as tuas portas e olha para o exterior.
Do teu jardim florescente, reúne memórias fragrantes das flores desaparecidas de cem anos antes.
Na alegria do teu coração, sente a alegria viva que cantou numa manhã de primavera, enviando a sua voz alegre por cem anos.

Tagore. O Jardineiro, 1915

Todos os homens possuem o dom de sonhar, mas raros são aqueles que transformaram os seus sonhos em folhas douradas do livro da vida. Toda a alma temerária que pretende penetrar no mistério desse livro, deve esforçar-se por vivenciar e integrar o Ser no não-ser, o essencial e duradouro no passageiro e perecível. Escrever história é o “fatum” da nossa condição humana. Cada acto por nós realizado é uma infinita parte do devir histórico através do qual o tempo alimenta a sua chama. O livro da vida está por detrás da história do mundo. Nele encontra-se registado o profundo significado de todas as transformações. Através dele, manifesta-se o Divino Alento, o Motor Imóvel, Deus Uno que está para além do bem e do mal, das vitórias e das derrotas, do prazer e da dor.

O livro da vida que nos deixaste, poeta, não foi simplesmente escrito sobre frágeis folhas de papel, mas o escreveste desde a insondável substância, milhares de vezes remoída pelas marés avassaladoras da corrente humana e que iluminaste com o teu cântico de esperança:

Não peço eu nunca, para me ver livre de perigos,
mas coragem para afrontá-los.
Não queira eu que se apaguem as minhas dores,
mas que saiba dominá-las no meu coração.
Não procure eu amigos no campo da batalha da vida,
mas ter forças dentro de mim.
Não deseje eu ansiosamente ser salvo,
mas ter esperança para conquistar pacientemente a minha liberdade.
Não seja eu tão cobarde, Senhor, que deseje a tua misericórdia no meu triunfo,
mas apertar a tua mão no meu fracasso!

Tagore in “O Coração da Primavera”

Não escreveste o teu livro com palavras rebuscadas; estas são como as folhas mortas que o vento outonal leva longe dos campos lavrados. A tua mão, Poeta, escreveu com o sangue que jorrou das tuas feridas abertas de tanto baterem à porta do mistério, na procura do consolo daquele que não tem nome nem rosto. Em plena noite escura, acendeste a tua lâmpada e fizeste dos teus erros uma oportunidade para te melhorares. Nos teus dias mais sombrios, mantiveste erguida a tua fé nos homens porque não desististe de ti, procurando sempre alcançar o elevado tabernáculo daquele Senhor amado que te chamava desde a tua insurreta sombra. Deste-lhe o teu amor e serviste alegremente, cantando o seu louvor, e como tu próprio dizes

Eu não sou mais que uma pequena cana de flauta tocada por Deus.

Mahatma Gandhi chamou-te a sentinela da Índia, mas tu foste realmente sentinela do teu próprio amanhecer.

Conduz-me do Irreal ao Real (satya), da Escuridão à Luz (jyoti/sundara); e da Morte à Imortalidade (amrta/śiva).

Upanishads

Nasceste no dia 7 de maio de 1861, em Calcutá, hoje de nome oficial Kolkata, (de Kalikata- Kali gath-kolkata) é capital do estado indiano de Bengala Ocidental, cidade sagrada onde a Mãe Ganga (o rio Ganges) abre os seus 8 braços para abraçar o oceano, devolvendo à Deusa negra Kali as cinzas dos seus ghats sagrados. Nesse mês primaveril consagrado à mãe natureza, um raio de luz abençoou o teu berço e foste chamado pelo teu pai de Rabindranath, nome bengali que significa “como o sol irá pelo mundo e do oriente ao ocidente o mundo será iluminado”.

Filho da índia por nascimento mas não hindu de religião, recebeste a fervente orientação do teu pai, Ray Devendronath, homem ilustre e sábio, seguidor do Brahmo-Somalh, movimento humanista criado pelo grande reformador Raja Ram Mohun Ray (1772-1833), como uma síntese dos princípios universais de todas as religiões (cristã, budista, muçulmana, hinduísta, jainista). Ram Mohun Ray foi verdadeiramente o primeiro protagonista do despertar renascentista da Índia moderna. Homem de profundas convicções sociais e porta-voz ativo para a abolição de práticas ancestrais tais como o Sati, rito de cremação das viúvas, lutou toda a sua vida contra a idolatria e práticas supersticiosas responsáveis pelo fanatismo violento. Com determinação e coragem, defendeu as classes mais desfavorecidas e oprimidas da Índia medievalista.

A melhor maneira de servir Deus, é fazer o bem aos homens.

Ram Mohun RaRabin

Desde os 8 anos, a poesia tornou-se a tua companheira predileta. Alma inspirada e sedenta de verdade, aprendeste a ler os mistérios latentes da natureza e respondias como um eco, escrevendo:

Aproveita o tempo para ouvir e aprender… Para ver a beleza que nos rodeia e demonstrar afeto… Para criar doces recordações e apreciar momentos especiais! Aproveita o tempo para acreditar nas tuas próprias capacidades! A borboleta não conta meses, mas sim momentos, e tem tempo suficiente.

A borboleta não conta meses. Pxhere

Várias vezes a dor apunhalou o teu coração: a perda dos teus entes queridos, a injustiça, a insignificância da existência e a incompreensão, a luta desigual contra a implacável máquina do materialismo que, a toda a velocidade, derrubava, do Oriente ao Ocidente, os alicerces do reino da paz. Escreveste:

Na civilização moderna, na qual se utiliza um grande número de homens como materiais, e as relações humanas passaram a ser em grande medida utilitárias, o homem revela-se de forma imperfeita. Já que a revelação de um homem não radica no facto de ser um poder, mas sim de ser um espírito. A prevalência da teoria que revela o poder da máquina no universo, e organiza os homens como máquinas, é como a erupção do Etna, tremenda em força, com a sua explosão de fogo e fumo, mas a sua lava avança lentamente e cobre os refúgios do homem construídos ao longo dos anos, e as suas cinzas sufocam a vida.
‘The Modern Age’, A Idade Moderna, 1922

No discurso pronunciado na Universidade de Tóquio contra a colonização europeia, no ano de 1916, dizias:

A civilização que nos vem da Europa é voraz e dominante: consome os povos que invade e extermina as raças que se opõem à sua conquista. É uma civilização com tendências canibais: oprime os débeis e enriquece os fortes. É uma máquina de triturar. Onde vai, semeia conflitos e discórdias. É uma civilização científica, mas não humana (…). Concentra todas as suas forças no único objetivo de enriquecer-se, como o faria um milionário que vende a sua alma por uma fortuna (…).

Partidário do universalismo cultural, científico e religioso, tornaste-te operário do Espírito de concórdia, caminhando de cabeça erguida e de coração sempre alegre, sem nunca deixares a erva daninha do separatismo e da violência penetrar no teu jardim de luz. Na plenitude da tua vida, percorreste o mundo para sensibilizar e angariar fundos, com o fim de trazer melhorias para a educação e as condições de trabalho e saúde dos camponeses bengalis.

Esforcei-me, durante todo o tempo em que eu estive no campo, por me familiarizar com todos os pormenores, por mais pequenos que fossem. Tive que viajar longas distâncias devido ao meu trabalho, indo de aldeia em aldeia, de Silaidah a Patisar, através dos rios, grandes e pequenos, e atravessando os pantanais, e dessa maneira, vi todas as facetas da vida nas aldeias. Tive uma grande vontade de compreender as rotinas quotidianas dos aldeões e a história variada das suas vidas … Gradualmente, a tristeza e a pobreza dos aldeões tornaram-se claras e quis fazer alguma coisa para remediar a situação. Pareceu-me uma coisa vergonhosa que eu devia passar os meus dias como um senhor, pensando apenas na ideia de fazer dinheiro e absorvido nas receitas e despesas.
Tagore, ‘A história e os ideais de Sriniketa’, The Modern Review,
Calcutá, Novembro de 1941: p. 433

Em 1901 , fundaste Visva-Bharati (a voz universal), em Santiniketan, uma escola modelo em plena zona rural no aconchego da Mãe natureza, reunindo à tua volta os primeiros rebentos daquilo que, no ano de 1918, se tornaria uma universidade de cultivo das artes da vida, onde o amor e o respeito pela vida, unidos ao conhecimento, contribuíram para o universalismo de uma educação integral. Esta obra iria constituir a mais bela página do livro da tua vida. A árvore que plantaste em pleno deserto de recursos humanos e hábitos moribundos lançou as suas raízes profundamente na terra, procurando a água cristalina da sabedoria ancestral. A árvore expandiu os seus ramos e revelou a riqueza cromática do ideal criativo eternamente inspirado pela busca da beleza e do bem comum.

O festival de arar o campo e plantar sementes. Realizado pelo vice-chanceler de Visva Bharati, Santiniketan. Wikimedia Commons.
A Voz de Tagore, “A Minha Pedagogia”:

Em 4 de maio de 1921, no Instituto J.J. Rousseau de Genebra, Tagore pronunciou uma bela palestra sob o título de “A Minha Pedagogia”.

Tendes-me pedido que vos fale da minha escola e dos princípios que dirigem a minha maneira de educar as crianças. Fundei a minha escola há vinte anos, mas, a dizer a verdade, não tinha naquela altura método nem experiência do ensino. Continuei em frente, fiando-me numa espécie de instinto de criança, e não correu mal. Hoje mesmo, tenho experiência, mas esta é, por assim dizê-lo, ainda simples e não cristalizou num bloco de arestas cortadas, cujas linhas retas vos possam ser propostas como princípios diretores.

Acabei de dizer-vos que não tinha, ao abrir a minha escola, qualquer experiência. Isto não é rigorosamente exato. Tinha, pelo menos, uma experiência negativa adquirida no decurso dos meus próprios anos de escola. Sabia como não devem ser tratadas as crianças. O que eu sofri, sobretudo na minha infância, foi sentir que a educação que eu recebia estava separada da vida. Tinha eu, reconheço-o, uma certa sensibilidade particular que outros não têm no mesmo grau. Senão, conformar-me-ia antes, sem dúvida, com a parte que me correspondia naquilo que me magoava. E teria conseguido, como outros, fazer calar em mim, no transcurso desses largos anos de escola, esta ardente aspiração cara à vida, cara à Natureza, de que tinham que arrancar-me cada dia, para ir às aulas, como se fosse dos braços de uma mãe.

Olho a porta da sala de aulas aberta cada manhã como uma grande boca, os seus muros nus, os seus bancos de madeira, a sua mesa em que se alçava um mestre que dava a sua lição como se fosse um fonógrafo vivente. Ainda sei de cor e escuto o ritornelo, sem qualquer beleza nem na melodia nem no ritmo, que cada manhã dizíamos a coro na galeria de madeira da escola, antes de entrar na sala. Dizíamos coisas muito boas, sem dúvida, que era preciso ser bom, não roubar, não pedir empréstimos; mas, contudo, era um péssimo princípio de jornada. Eu não sei o que acontece nas vossas escolas do Ocidente, não as conheço o bastante, mas tenho ouvido dizer, por gentes que estão muito ao corrente, que não está tudo muito melhor. Até acredito eu que a vós vos devemos esses métodos de educação; os trouxestes com uma multidão de coisas boas, os licores, os soldados…

Nesta escola, aprendi a gramática, a aritmética, muitas coisas que esqueci e a maneira de como não devem dar-se as lições. Assim é que, aos quarenta anos, me senti impelido a sair do pequeno recanto retirado onde tinha vivido até então nas ribeiras do Ganges e nas suas ilhas areosas, para fazer alguma coisa útil: resolvi dedicar-me a educar crianças. E não porque eu acreditasse que tinha um talento particular para ensiná-las, mas porque me parecia que tinha o segredo para as fazer ditosas. A dizer a verdade, ninguém tinha confiança em mim. Eu não tinha nem grau universitário, nem distinção de nenhuma classe. Passava por ser um homem extraordinariamente pouco prático, que não sabia mais que escrever poemas. E tratava-se, para as cinco crianças que me foram confiadas, de encontrar mantas e lenços, de procurar-lhes vida e acolhimento. Esforcei-me em viver com elas na vida. A educação propriamente dita estava num segundo plano. O que se encontrava em primeiro lugar era a nossa vida em comum, a nossa camaradagem.

Para mim, com efeito, a criança vive até aos doze anos mais pelo subconsciente que pela consciência clara. E o que importa nos seus primeiros anos não é que a sua memória se encha de conhecimentos que tem muito presentes no espírito, mas que a sua subconsciência se encha de beleza no contato com a Natureza vivente. Eu mesmo, na nossa escola (de Santiniketon), não ensinei nunca mais que línguas e literatura. Não tenho certidões que amostrar-vos, mas posso dizer-vos que as ensino bem. Os meus estudantes disseram-me que sou o melhor professor de línguas que jamais tiveram. Isto obedece, sem dúvida, ao enamorado que estou das palavras. Uma palavra, para mim, vive como uma flor ou uma borboleta; cada palavra tem o seu encaixe, o seu brilho, o seu encanto subtil. Isto permite-me ensinar bem todas as línguas que eu sei. Fiz a experiência com um aluno, a minha esposa, à qual ensinei o inglês em seis meses. Certo dia, recebi a visita de um inspetor da Universidade de Calcutá, que me encontrou em disposição de ler com rapazes de doze anos o Hino à beleza espiritual de Shelley, e ficou surpreendido ao ver-me a explicar às crianças um texto que figura nos programas dos institutos e das Universidades. Eu não acredito que deva tornar infantis as coisas que apresento às crianças. Eu respeito as crianças e elas compreendem-me.

Há que dizer também que sempre estive muito bem secundado. Nos primórdios da minha escola, um jovem poeta de dezanove anos veio espontaneamente oferecer-me a sua colaboração. Se não nos tivesse sido arrebatado aos vinte anos pela morte, hoje seria um dos grandes poetas do mundo. Lia Browning com os seus alunos, de maneira capaz de fazer-lhes sentir a beleza.

Não se pode ensinar mais que aquilo que se ama; vale mais calarmo-nos, quando não gostamos do que estarmos a ensinar. Assim pois, não devemos ensinar mais do que aquilo que guarda para nós um certo mistério. Eu falei disto aos meus amigos matemáticos; hão-de ensinar bem a tabuada de multiplicar só se lhe têm carinho. E, sem dúvida, há quem sinta amor por ela. Para mim, a tabuada de multiplicar está inscrita nas pétalas das flores e nas nervuras das folhas; sem sabê-lo, as borboletas transportam-na nas suas asas. Comentei isto com os meus amigos professores de matemática, propondo que tirassem proveito disso nas suas aulas. E eles, encolhendo os ombros, acharam que estas ideias eram lunáticas; sem dúvida, não são poetas, tal omo eu não sou matemático. E, apesar de tudo, eu continuo convencido de que um docente não ensina bem mais que o que para ele tem poesia.

Ó, já o sei! há que fazer concessões à ortodoxia reinante. As crianças hão-de entrar nas Universidades, têm que sofrer exames, há que seguir um programa. Os pais sustêem-no. (Os pais são os grandes inimigos!). E enquanto entrarmos por este caminho, estamos perdidos… Quando ensino algo, faço-o com amor, dou-me por inteiro a isso. E comentam os meus amigos: “Poderia você obter o mesmo resultado com menos gasto; pode-se dar às crianças alimentos racionados como conservas em botes de folha-de-lata”. Já o sei; mas isto é matar o espírito. Foi preciso fazê-lo assim na nossa escola, mas sei que isto é um crime do que me fez culpável. Eu espero que me seja perdoado no outro mundo porque, realmente, eu não sou o único responsável e cometi-o muito em meu pesar.

Passei eu doze anos na escola, sem receber jamais alguma recompensa. Não tive nunca outro prémio senão o prémio Nobel, mas este foi muito mais tarde, quando os meus anos de escola já estavam longe. Todos os meus camaradas levavam cada ano livros ou objetos diversos como prémio ou recompensa. Eu, nunca recebi nada. O mestre da minha turma enterneceu-se um dia pela minha sorte e dirigiu-se ao diretor para saber se não me poderia dar pelo menos um prémio. O diretor tinha princípios de moral: “Não, diz, não seria justo, posto que não tem méritos!” Mas o meu mestre tinha tanta piedade de mim (que não era de todo desgraçado) que foi à procura de um livro que compusera sobre a métrica bengali e deu-mo. Na primeira página, não encontrando mais méritos que alegar para esta recompensa, escreveu: “Pela sua boa conduta”. É preciso que soubessem isto para compreender que eu não tenho direito a falar de escola e de programa.

Pela minha parte, com efeito, nunca segui um programa e seria incapaz de sofrer um exame sobre os meus próprios poemas, coisa que os meus discípulos fariam, estou seguro, obtendo a máxima qualificação. Desprende-se das minhas ideias, se gostardes, um só princípio diretor, um só: ir ao encontro da vida, lá onde ela reinar. Saiam da sala de aula. Não leveis as árvores às aulas, mas deslocai as aulas para baixo das árvores. É, sem dúvida, cómodo ter um tronco de árvore numa sala de aula: isto permite dividi-lo em lâminas. Mas estas lâminas estão mortas: não há-de ser no interior de uma sala de aula que uma árvore nos vai oferecer flores e frutos.

Não vos preocupeis com os métodos. Deixai que o vosso instinto vos guie frente à vida. Diferem as crianças umas das outras e é preciso aprender a conhecê-las; navegar entre elas como se navega entre escolhos. Para explorar a geografia de seus espíritos, o melhor guia é um espírito misterioso que simpatize com a vida.

Liberdade através da renúncia – não é esse o meu caminho. Saboreá-la-ei, ao invés, em incontáveis formas de deleite e êxtase. O teu néctar se derrama em miríades de fragrâncias e cores que enchem, até à borda, o vaso de barro deste mundo. A chama do altar do Teu templo incendeia os milhões de pavios que iluminam o mundo inteiro. Não é da minha natureza fechar a porta dos sentidos tal como um yogi. Buscarei, sempre, a Tua presença alegre nas lúdicas alegrias que habitam as imagens, as fragrâncias e as canções.

Tagore. “Oferenda Lírica”

Cores na natureza. Pixabay
A Civilização como Obra de Arte

Para Tagore, o futuro da humanidade tende para os últimos acordes musicais da grande sinfonia da vida. Através da corrente evolutiva das espécies, o humano constitui a última etapa desta magistral obra que culmina na perfeita orquestração dos diferentes instrumentos que o Maestro do mundo concedeu à humanidade para finalizar o hino de alegria que resulta da fusão das partes, amor total que exige o desprendimento do pequeno eu que resiste, libertação de todas as tensões provocadas pelos desacordos triviais do egoísmo e da ignorância. Estes são os verdugos, responsáveis pela cegueira que obstrui a visão do verdadeiro propósito da vida. Desencarcerar o deus no Homem, o Ser do não-ser, a plena consciência da oculta matéria, tal é o fim glorioso do grande sonho que espera por nós. O tempo que nos foi concedido é uma linha sinuosa construída na união de Kshanti, a eterna paciência, e da sabedoria que Deus nos deu como cordão umbilical para regressar junto do seu coração de luz. Tagore não desejava desligar-se do mundo. Para ele, a felicidade nunca podia ser alcançada fora da sua identidade, fragmento da grande família humana. Se Deus é o Todo, tudo está Nele. Servir Deus é, simultaneamente, servir a vida e servir o homem, caminhando ao seu lado, partilhando o esforço coletivo para alcançar a perfeição em pensamento e ação.

Para orientar o seu percurso de vida, Tagore procurou no universalismo a fonte da sua inspiração, afastando-se de todo o orgulho nacionalista que corrói a cooperação entre os povos da terra. O yoga da Reta Ação e o Sankhya do reto conhecimento do Bhagavad Gita, o Bakthy Yoga do amor incondicional, que Cristo e Buda ensinaram através do exemplo da sua entrega ao mundo, a moral do quotidiano e o espírito de serviço leal à comunidade de Zoroastro e Maomé, o Ahimsa de Mahavira ou a conquista da paz interior, que nunca pode desistir do combate interior, para resgatar a divina justiça que governa o ideal da república de Platão sem nunca abdicar de lutar e proclamar bem alto o direito à dignidade humana de Ram Mohum Roy, Gandhi, Tolstoi, Romain Rolland e Henry David Thoreau.

Em vez de ser devoto de alguma religião, Tagore abraçou a essência de cada uma delas. Nunca quis aproveitar-se dos louros da fama para brilhar no topo da sua privilegiada casta bramânica; antes procurou, com humildade, elevar a sua consciência para merecer servir o seu amado Senhor. Soube inclinar-se, frente ao sofrimento dos seus próximos, pois também ele conheceu o desespero do vazio existencial e a dor da perda daqueles que mais amava. Procurou ser humano no sentido mais amplo e profundo que esta palavra pode conter. Um exemplo vivo da religião do homem que nos deixou como oferenda para construir esta obra de arte que continua a ser de todos nós, aqui, agora e sempre.

Adormeci e sonhei que a vida era alegria; despertei e vi que a vida era serviço; servi e vi que o serviço era uma alegria.
Tagore

Com singelas palavras, quis retribuir a minha admiração e gratidão por ti. Em vão, procurei seguir as tuas pegadas e perdi-me na floresta dos teus pensamentos, tão vasto é o teu mundo literário. Em cada pedra solitária, em cada ramo florido, em cada nascente de água pura, em cada brisa suave, em cada raio dourado de sol, lá estavas tu, poeta, para louvar a vida. O teu coração foi o ninho de todos as esperanças e voos de liberdade; não só cantaste a beleza do mundo, mas tornaste o mundo melhor, com a força do amor que jorrava das tuas mãos para reencantar e iluminar as nossas vidas. O mundo inteiro rendeu-se ao teu génio criador e, por isso, foste chamado, o príncipe sem coroa, o Goethe, o Leonardo da Vinci, o Victor Hugo da Índia. Fizeste da tua vida um atanor alquímico, extraindo das cinzas da tua morada transitória, o embrião de ouro do homem de amanhã.

Serás para sempre, poeta, o clarim da Alma do mundo que ressoa no coração de todos aqueles que sonham e trabalham para um mundo mais justo, mais fraterno, mais Humano.

Rabindranath Tagore. Public Domain

Então, repito que nunca podemos ter uma visão verdadeira do homem, a menos que tenhamos amor por ele. A civilização deve ser julgada e apreciada, não pela quantidade de poder que desenvolveu, mas pelo quanto ela evoluiu e expressou, por meio de suas leis e instituições, o amor à humanidade.
Tagore. “Sādhanā”

Françoise Terseur

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