Editorial – Fénix em papel n.º 1

Para comemorar o 2º aniversário da edição digital da revista Fénix – Ideias e Cultura, lançamos uma edição impressa em papel, que pode adquirir enviando um email para fenix@revistafenix.pt.

Leia o editorial do 1º número da Fénix em papel.

 

José Carlos Fernández, Diretor da Nova Acrópole em Portugal

Editorial

Numa conferência de imprensa emitida pela RT, perguntavam em tom de brincadeira a Vladimir Putin se ele sabia quando iria acabar o mundo. O presidente da Rús­sia disse “claro que sim, daqui a cerca de 4.500 milhões de anos”. Na verdade, segundo os cientistas (e também segundo as tradições esotéricas compiladas por H. P. Bla­vatsky) encontramo-nos no período médio de vida do planeta, antes que o núcleo quente e magnético do mesmo arrefeça e não possa opor algum escudo magnético face ao Sol. Evidentemente, talvez seja este o ciclo da Terra, ou algo aproximado, no entanto, a acção do homem poderá ainda quebrar a harmonia dos ciclos naturais e levar a graves desajustes ao seu equilíbrio.

A humanidade, está enlouquecida pe­la perda de ideais que alimentem a alma, com metade dos nossos semelhantes desesperados lutando pela so­bre­vivência, uma quarta parte vegetando, e outra rodeada pela abundância sufocante da amoral sociedade de consumo. Pois nesta, ao querermos vender qualquer tipo de produto, coisificamos a nossa mente ao pensar somente em objectos materiais em vez de penetrar nos seus significados; adoece ao desejar a eterna juventude do corpo a qualquer preço; envelhece e apodrece, em contacto com os desejos e as obsessões contranatura ou contra o tem­po.

O presidente russo pôde responder o que disse com aparente optimismo e alguma ironia, mas a ba­lan­ça da nossa relação com a Natureza e com o íntimo da nossa alma está, obviamente, perturbada. Como se poderá por em causa este facto se espoletámos na atmosfera (a maior parte; depois subterraneamente) sem grande divulgação, mais de 2.600 bombas nucleares, algumas de potência 1.500 vezes superior à lançada sobre Hiroshima ou Nagasaki, contaminando a terra, as águas, o ar e até mesmo o espaço, o elemento sempre puro, com resíduos que ameaçam cair sobre as nossas cabeças? Acresce que vivemos uma atmosfera de pré-guerra mundial, com a radicalização e tensões que não nos fazem esperar nada de bom

Com os países cada vez mais enraizados nos seus fanatismos religiosos ou nacionalistas; com infâncias roubadas ou interrompidas pela nossa absurda maneira de viver; com a juventude sem futuro, sem esperança e sem força para enfrentar as difíceis lutas que se apresentam desafiantes num horizonte ensanguentado ou fumegante; as pessoas adultas a sofrer de stress insuportável ou de um vazio existencial ainda mais doloroso; os idosos abandonados e sós sem compreender porque as suas vidas terminam desta forma, o que terão feito de mal, depois de trabalhar e sofrer tanto pelos seus filhos e netos.

O filósofo polaco Zygmunt Bauman, falecido recentemente, na sua obra A modernidade líquida expõe muito bem este cenário onde tudo se desmorona, se dissolve e desfalece, tão semelhante ao descrito pelo professor Jorge Ángel Livraga (1930-1991) ao explicar a primeira fase da Era de aquário, cujas águas invisíveis tudo diluem, antes de cristalizar a vida sob formas rígidas, de gelo. Nas profecias de Kalachakra, no seu comentário do século XI, a Vimalaprabha refere o mesmo: a extinção do Dharma, ou seja da Justiça, durante estes próximos 300 anos em que o homem, sem perder a sua forma, resume-se e se reduz quase ao estado animal, pois sem justiça-política, social, íntima do coração – o ser humano torna-se uma besta sem alma. Já o dizia Platão e se olharmos para o retrato moral de grande parte dos que governam os destinos do mundo, vemos per­feitos tiranos rodeados de riquezas adquiridas de forma corrupta, enquanto as pessoas são forçadas a desonrar-se, traindo os seus princípios, para sobreviver ou mendigar pão.

Em muitos países, o rei era o primeiro cavaleiro, primus inter pares, como Artur, na Távola Redonda, que resolvia os problemas de igual para igual entre os seus pares, mesmo que a ele pertencesse o governo por responsabilidade sacra. Hoje observamos frequentemente ser o governante o maior corrupto, furtando-se pela direita ou pela esquerda à legalida­de devido à sua insaciável avidez ou sede de poder, quando não chega mesmo a assassinar os seus próprios compatriotas, através de atentados de falsa bandeira ou semelhantes, justificando assim as suas políticas, tendo como pano de fundo o flagelo do terror psicológico.

É a hora dos filósofos, de todos aqueles que não querem perder a razão, o sentido íntimo dos acontecimentos, ou o simples senso comum, e que querem elevar os seus ideais como um estandarte que flameja no mais profundo da sua alma. Daqueles que sentem todos os outros seres humanos como irmãos, e não somente os seres humanos, mas todos os seres vivos. Que não queiram dissociar-se do melhor do seu passado, para assim sonhar e construir no presente o ­melhor dos futuros possíveis. Da­que­les que se conheçam a si mesmos, ou se esforçam nesse sentido, e dessa forma não sejam manietados pelas suas paixões, ou pior, pelas paixões de outros e não se deixem cair nas fauces obscuras da sua própria ignorância, que aprisiona os ingénuos na an­gústia e dor desnecessárias. Daqueles que estão dispostos a lutar no labirinto contra o egoísmo e a brutalidade do Minotauro interior, tornando insuportável a existência dos milhares de minotauros deste mundo. Daqueles que amando a sabedoria e lendo nos seus próprios corações, nos corações dos outros e no coração da própria vida, encontrem o fio de Ariana que permite sair da caverna putrefacta e cheia de cadáveres morais, e permite respirar o ar puro de um mundo melhor, mais belo e mais justo, como diria o divino Platão.

É a hora dos amantes de tudo o que enobrece a alma e a vida, pois estes, unidos, na força das suas próprias íntimas e dignas convicções, serão as sementes de «ouro», incorruptíveis, de uma nova era, em que nós todos esperamos, com entusiasmo, o reencontro. ■

Pode adquirir a revista impressa enviando um email para fenix@revistafenix.pt