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Arte

Da Poesia e do que É um Poeta

Antony Capitão 0 180

A poesia é um mistério, uma clarividência, uma sombra e uma ascese – é um degrau, uma tentativa, um exercício. Toda a verdadeira poesia deixa em nós um toque muito leve de algo longínquo e esquecido, de algo que se sente e se sabe e quase não se expressa; é uma pegada angelical que marca o mundo com o fogo da mais alta Beleza que lhe imprime. O que haverá no som e no ritmo que tanto parece extasiar-nos como elevar-nos aos poucos a regiões mais claras e luminosas? O poeta, claro está, é uma espécie de sacerdote; por vezes um pontífice desarranjado, com um grande apelo claro e sem clareza.

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O Zodíaco de Johfra: Leão

Eva Garda 0 126

Nesta quarta parte, continuaremos a analisar as lâminas do Zodíaco por Johfra Bosschart (1919-1998). Desta vez, o signo de Leão. Recordemos que nas obras deste artista podemos encontrar ideias do neoplatonismo, passagens bíblicas, cabala judaica, astrologia hermética, gnosticismo, magia e mitologia. O Leão é um signo de Fogo, associado às características deste elemento: extroversão, energia, entusiasmo, iniciativa e auto-suficiência. O regente de Leão é o Sol, centro do Sistema Solar, e é por isso que aqueles nascidos sob este signo são geralmente egocêntricos. Tal como a ideia que formamos do leão pelos relatos e mitos, aquele nascido sob este signo é geralmente forte, corajoso, elegante, nobre, mas também ávido pelo poder. Não aceita rivais ao seu redor, muito menos outro Leão, consciente, como ele, do seu próprio valor. É bom na posição que ocupa na sociedade, tanto no trabalho como em casa, mas precisa de ser aquele que toma as rédeas, porque caso contrário, podem ocorrer confrontos.

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Além da Vida

Alfredo Aguilar 0 228

Este é um filme de 2010 que narra três histórias em paralelo relacionadas de alguma maneira com o além. O primeiro caso é o de um homem com o dom de comunicar com os mortos através do contacto físico com uma pessoa próxima do falecido; o segundo é o de uma mulher que sobrevive a uma experiência de quase-morte durante um tsunami e o terceiro o de um menino que perde o seu irmão gémeo num acidente de trânsito e tem uma necessidade urgente de comunicar com ele. A primeira vez que vi este filme, na televisão, já tinha começado e eu não sabia do que tratava o enredo, mas, como um bom cinéfilo, quando reconheci alguns actores disse “vamos ver”. No primeiro dos três casos, o homem com dotes mediúnicos é interpretado por Matt Damon, e a acção decorre em São Francisco, nos Estados Unidos. Por sua vez, a mulher que sobrevive ao tsunami é francesa, trabalha para a televisão e estava numa missão na zona do Oceano Índico, interpretada aqui pela actriz belga Cécile de France. Entretanto, a história relacionada com os meninos gémeos, interpretados pelos irmãos gémeos Frankie e George McLaren, passa-se em Londres.

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Os Outros

Juan Adrada 0 154

As duas primeiras realizações de Alejandro Amenábar – Tesis (Morte ao vivo) e Abre los ojos (Vanilla Sky) – pressagiavam, apesar dos seus evidentes vazios e carências, uma carreira de êxitos a um jovem e imaginativo realizador que apoiava no mistério e na fantasia um mundo pessoal pleno de matizes e singularidades. O êxito de um primeiro filme é facilmente predizível. Geralmente é uma obra muito pessoal sobre a qual se esteve a trabalhar durante muito tempo, por vezes desde os anos de estudante e que foi repensada uma e outra vez até ao mínimo detalhe. Tal parecia ser o caso de Tesis, uma realização quase académica que bebia das fontes do suspense hitchconiano. Mas a coisa muda quando o novo realizador tem que submeter-se por inteiro às exigências e aos ritmos da indústria cinematográfica e ainda assim, continuar com o máximo empenho.

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O livro de Poesia «Movimento Perpétuo», de António Gedeão

Os Físicos e os Químicos tentam nos convencer, desde a lei exata de Lavoiser (nada é criado ou destruído, apenas transformado), que é impossível o movimento perpétuo. No entanto, a vida mostra-nos em todos os momentos o que sim é possível, precisamente na continuidade e dinamismo desta transformação que nunca pára, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno (pois a mesma ondulação quântica é incessante).

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Código da Vinci da Vida Real?

Foi há quase um ano que o agora denominado “Ritratto di Lecco” (outrora “Cristo di Lecco”) começou a ser centro de uma bateria de análises desde o município lombardo de mesmo nome, provocando toda sorte de reações no meio acadêmico o quanto se pode imaginar. Este pedaço de papel, medindo 24 x 16,8 cm e 0,02 cm de espessura, com a imagem do rosto em ¾ de um homem de cabelos e barba longos, parece fazer alusão à figura clássica do Cristo, mas o curioso é que também nos leva à grandeza e dignidade da mítica “Mona Lisa”. De fato, tanto o ângulo quanto a firmeza da personalidade transmitidos no olhar daquela figura ao contemplador nos farão lembrar o famoso autorretrato de Turim de Leonardo da Vinci.

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A Arte de Maria Bethânia

Ricardo Santos 1 348

A música trabalha com potências. Toda a música. Porém, a música erudita e, nesta, sobretudo a instrumental, quase que totalmente, porque abstrai da voz e do seu fonologocentrismo. Ainda que, no caso do canto lírico, a técnica vocal que este implica seja, desde logo, já uma das formas em que a voz se deixa diluir para além do logocentrismo. A arte do canto lírico seria a do contorno do logocentrismo, na exacta medida da formação artística que expressa. Se é exacto que o canto lírico é uma arte derivada da poética como potência da alma, esta potência joga-se ela-mesma no limiar aberto pela fonética própria a essa arte. Talvez a técnica do pianíssimo de Montserrat Caballé fosse aqui absolutamente paradigmática. É nesta medida que a música devém potente.

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Sobre arte… Uma Singela Parte!

«Se no Musée du Louvre me impressionou o quadro “La jeune martyre” (1855), de Hippolyte De La Roche, no Ashmolean Museum impressionou-me muito mais o “Landscape with fishermen at the mouth of a river” (1937), de Georges Michel. Não só pela técnica aplicada, pois essa é, simplesmente, impressionante!

Sem dúvida que a manipulação pródiga da pintura do artista consegue manipular mesmo uma visão crua de observador. Eu diria que não escolhi a obra, mas que a obra me escolheu a mim. Mal a avistei fiquei presa: ao seu volume e conteúdo, à densidade da sua cor, à profundidade da sua técnica.

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Inteligência Estética

Sabine Leitner 0 305

Todos nós, provavelmente, ouvimos falar de diferentes tipos de inteligência: corporal-cinestésica, verbal, lógico-matemática e, ultimamente, também de inteligência emocional e até espiritual. Recentemente deparei-me com o termo inteligência estética e…

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O Jardim de Émile Zola

Na verdade, o nome do romance em que o protagonista é um jardim incrível é ” O Crime do Padre Mouret “. Émile Zola (1840-1902), seu autor, é considerado um dos pais do naturalismo, que viria a espalhar-se pela Europa, e foi decisivo, por exemplo num Galdós em Espanha ou num Eça de Queirós em Portugal. A descrição é detalhada, realista, natural, até crua, embora sem ficar distorcida como nos espelhos grotescos do Valle Inclán.

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A Música de John Williams

Alfredo Aguilar 0 373

Nos primeiros meses de 2020, John Williams dirigiu um concerto com a sua própria música em Viena, com a Orquestra Filarmónica da cidade, onde teve como solista convidada a violinista Anne-Sophia Mutter. Àquela data, Williams tinha 88 anos recém cumpridos, um mérito acrescido, a meu ver, dado o esforço que representa dirigir um concerto em qualquer idade. Aquele concerto, que me apressei a gravar, teve para mim um acrescido prazer visual por ser pré-pandemia, quer dizer que o teatro estava completamente cheio e ninguém necessitava ainda das omnipresentes máscaras (tapa bocas ou cobre bocas noutros países) de que ainda não podemos prescindir em 2022, quando escrevo.

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Dunquerque. Viver ou Sobreviver?

Gilad Sommer 0 417

À medida que os custos de produção sobem, tanto na televisão como no cinema, parece que menos profundos vão ficando os conteúdos. Muitos filmes e programas televisivos são acerca de nada, tecnicamente excelentes, mas olvidáveis. Não é o caso de Dunkirk, o filme histórico de Christopher Nolan de 2017, que faz pensar sobre a condição humana. A sua abordagem minimalista, com uma técnica quase perfeita, dá significado a cada som, cada palavra, cada gesto, tal como na escuridão cada pequena luz faz a diferença.

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Nicolas Poussin, a Antiguidade Impõe a sua Marca na Mensagem Cristã

Didier Lafargue 0 273

Nicolas Poussin (1594-1665), pintor na corte de Luís XIII em 1640-1642, é um grande representante da arte clássica francesa do século XVII. Fascinado pela Itália, ele passou grande parte da sua vida em Roma. Na península, adquiriu esta sabedoria da Antiguidade que exprimirá nas suas obras; o estoicismo, em particular, fascinou-o verdadeiramente. A sabedoria foi reforçada pelas leituras de Montaigne, em casa de quem ele estava muito presente. Todos os seus quadros testemunham uma fé intelectualizada e perfeitamente serena. Se Philippe de Champaigne, seu contemporâneo, é um pintor místico, Poussin é um pintor filósofo, pois quer esclarecer intelectualmente a religião através da sabedoria antiga, da qual o cristianismo é o herdeiro.

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Sócrates, de Roberto Rossellini

José Carlos Fernández 0 449

É incrível que, apesar do interesse que despertam, não se façam mais filmes desta natureza, sobre personagens ilustres cujo exemplo move a admiração e o desejo de emular as ações nobres e virtuosas; e sim sobre todo tipo de depravados, assassinos e mafiosos, cujo sucesso é garantido quiçá pela mórbida característica da nossa parte bestial. Já dissemos noutro artigo desta série como o filme Confúcio, superprodução chinesa da mais alta qualidade, apenas entrou no circuito comercial de cinemas e vídeos.

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Franco Battiato. Um Místico Contemporâneo. Parte II

Antony Capitão 0 366

Quando confrontado com o seu percurso, costumava dizer que começou pela filosofia indiana, e que entretanto encontrou Gurdieff, que impactou profundamente a sua vida. De forma muito resumida, podemos dizer que Battiato herdou a ideia da necessidade de um centro de gravidade permanente (fez da ideia uma das suas músicas mais conhecidas) , de harmonizar diferentes centros de uma falsa personalidade afim de dar voz e espaço a uma identidade mais profunda, identidade essa reflectida em todas as Tradições da Humanidade e que portanto faz parte de uma herança e conhecimentos universais.

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Franco Battiato. Um Místico Contemporâneo. Parte I

Antony Capitão 0 349

Há uma Itália que conhecemos e uma Itália profundamente desconhecida entre nós, em Portugal. Por quanto o inglês seja a língua universal hoje em dia, há uma magia muito própria em conhecer outros idiomas, pois estes abrem-nos novos horizontes para toda uma vida… e dão-nos possibilidades de enriquecimento da alma que talvez nem suspeitássemos. Podemos traduzir poesia, mas nunca teremos a mesma música; podemos ver a tradução de uma letra, mas nunca terá o mesmo impacto de sabermos os contornos de uma palavra precisa numa dada língua e cultura – e assim perdemos os picos de Beleza de um outro país.

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O Concerto

Alfredo Aguilar 0 288

“O Concerto” é um filme de 2009 dirigido por Radu Mihaileanu, um realizador romeno radicado em França. Nele nos apresenta em tom de comédia, dramática e emotiva, pequenas e grandes tragédias humanas com o mundo da música clássica como pano de fundo. A história gira em torno de um célebre maestro da Orquestra Bolshoi de Moscovo que caiu em desgraça, juntamente com toda a sua orquestra, por se recusar a fazer parte de uma purga de músicos judeus no final dos anos 70.

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Sabedoria Egípcia Escondida entre Hieróglifos e Papiros

Cláudia Barros 0 1121

Conhecemos o termo sophia desde os tempos da Grécia Antiga, e já na altura, o conceito conjugava em si quatro premissas basilares: conhecimento, ação, saber e virtude. Mas mais do que um conceito grego, a “sabedoria” traduz uma forma de conduta, de atuar e de agir de acordo com a ética. Atuar sabiamente era essencial. Possuir esta capacidade era um dom que equivalia a ter conhecimento de todas as coisas e a aplicá-las da melhor maneira, podendo-se assim contemplar a verdade camuflada do Mundo.

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As Ilustrações de William Blake da Divina Comédia de Dante

José Carlos Fernández 0 731

Todos reconhecemos em Dante (1265-1321) o verdadeiro precursor do Renascimento, com outros autores do chamado Trezentos (século XIV) que o aceitariam como Mestre, Petrarca e Boccaccio, por exemplo, e com Florença como centro de irradiação (apesar das críticas feitas por Dante, um dos seus filhos favoritos, a esta cidade, devido a convulsões políticas e morais).

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Luz de Lisboa

José Carlos Fernández 0 592

Os cineastas vêm a Lisboa para filmar, porque sabem desta luz feiticeira. Assim como os publicitários, sendo usada para publicitar interesses menos sagrados do que ela. Os pintores, e os fotógrafos, querem desvendar os seus mistérios fazendo uso dos seus pincéis e do olho da sua câmara, os poetas dedicam-lhe versos e os escritores não se esquecem de incluí-la nos seus relatos e descrições, porque é uma das características mais distintas desta cidade. Os cientistas investigam os seus diferentes raios e frequências, estudam os ventos que formam e limpam o ar, as mini partículas em suspensão que a refletem e dispersam, o efeito diáfano das águas do Tejo que a devolve na face brilhante da sua linfa.

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A Morada, de Teresa Cubas Lara

São os versos que despertam na minha imaginação ao ler aqueles que palpitam neste livro de Teresa Cubas Lara, intitulado “A Morada”. Não é o seu primeiro livro, mas mais um elo de ouro numa cadeia de beleza que amamos ao sussurrar os ecos da alma da sua autora, uma peregrina nos caminhos da sabedoria. Outros vieram antes: Maternidade, Procurando um Ideal, Palavras com Asas, Nascer da Luz … e certamente outros já escritos aguardam. Sinto-me honrado pela autora, por juntos estudarmos e juntos recebermos ensinamentos sublimes, juntamente com tantos outros privilegiados, os quais nos sentimos irmãos nessas vivências e aprendizagens.

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A Filosofia da Arte

Uma das situações mais confusas que enfrenta a filosofia académica actual é a dos propósitos da filosofia da arte, ou seja, perante uma obra artística, como um poema, ou uma escultura, ou uma catedral, uma dança ou uma interpretação musical, qual será a missão da filosofia. É o mesmo que perguntar como deve enfrentar o pensamento as questões sobre a beleza. Do pensamento são os limites, as formas, as classificações e as comparações. Da beleza é a experiência, o inexpressável e o espírito subtil que escapa a todas as definições.

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Isabel de Portugal, Rainha de Espanha

Carmen Morales 0 808

No imaginário de todos os povos, há personagens que perduram através do tempo deixando atrás de si um rastro luminoso de respeito e admiração. Entre as rainhas espanholas dos últimos séculos, há uma que se destaca pela simpatia que desperta, mais de 400 anos depois da sua morte. Referimo-nos a Isabel de Portugal, esposa de Carlos I de Espanha e V da Alemanha, rainha e imperatriz e governadora de Castela e Aragão nos momentos de regência.

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Qual o primeiro – o ovo ou o pássaro?

Teosophist 0 681

Peço para apresentar os meus mais sinceros agradecimentos ao Sr. William Simpson, F.R.G.S., o ilustre artista e antiquário, que estendeu no ano passado as suas pesquisas ao vale Peshawar e a outros lugares, e assim enriqueceu o Museu Lahore, por gentilmente me apresentar uma cópia do seu artigo muito valioso, Arquitetura Budista – Jellalabad, enriquecido com sete ilustrações.

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