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José Carlos Fernández

Diretor da Nova Acrópole em Portugal

Paz: Onde, Quando, Como e Porquê

José Carlos Fernández 0 404

É paradoxal, uma ironia, ou mesmo um sarcasmo, que no mesmo Dia Mundial da Paz, o governante da Rússia esteja ordenando uma mobilização de todos os reservistas quer eles o queiram ou não, atirando-os nas garras de uma guerra que quase ninguém no seu país deseja, uma guerra nascida sabe-se lá de que pesadelos e loucuras. ou pior, de fuga para a frente, ou filha de que interesses obscuros e indizíveis («follow the Money», já sabemos), em que veremos vários países que irão lucrar com o sofrimento dos povos, vendendo, por exemplo, os seus stocks de armas no mais puro estilo de O Padrinho… e dentro do direito internacional. Platão já o disse há dois mil e quatrocentos anos, no seu livro sobre a imortalidade da alma, o Fédon. Disse assim:
«De onde vêm as guerras, as sedições e os combates? Do corpo com todas as suas paixões. Na verdade, todas as guerras não procedem apenas do desejo de acumular riquezas e somos forçados a acumulá-las em prol do corpo, para servir de escravos às suas necessidades.»

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O Mito de Pigmalião

José Carlos Fernández 0 318

Que mãe não tem orgulho dos seus filhos? Quem não se enamora das suas próprias obras? Shakespeare disse: “Não são lícitos os versos que não são banhados pelas próprias lágrimas”, e estas são lágrimas de amor e emoção. Mas, como podem comover-nos aqueles que nada mais são do que uma projeção de nós mesmos? Será que nos conhecemos? Eis aqui uma das chaves de uma verdadeira obra artística, o que faz por exemplo que o músico derrame lágrimas perante uma partitura que ele mesmo está criando. O que inspira o verdadeiro artista é o mais luminoso que de si, é uma corrente de “eletricidade divina”, que desce do mundo da beleza perpétua, onde vive a sua alma mais elevada. Todos conhecemos a acusação que foi feita a Leonardo da Vinci, quando ao comparar as caraterísticas de Gioconda com as suas, foram encontradas tantas semelhanças. Ele, como Pigmalião, estava enamorado pela melhor das suas obras, porque nela tinha fixado sua própria alma, e seguro de que para ele, tinha mais vida do que a sua vida. E, não é lícito moralmente enamorar-se por aquilo que se faz, se isso reflete o seu quotidiano, o vulgar e o medíocre que o tempo se encarregará de fazer desgastar. Isto leva a acreditar que somos o centro do mundo e ao culto do eu pessoal e, portanto, à congelação da capacidade de resposta à nossa volta. E, este é o primeiro passo de um caminho descendente que faz do incauto uma estátua de pedra ou de sal.

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Os Hititas e o Caminho Que Faz Com Que Tudo Desapareça, Transformado Em Luz

jose-carlos-fernandez 0 1007

“Tudo dorme, o boi, as ovelhas, o próprio Céu e a Terra, [porque chegou o momento da morte]. E onde está a alma nesse momento? [Pois a alma está “perdida” e deve ser trazida para o lugar e ato mágico do cerimonial.] Se está na montanha, na planície ou num campo arado, que a abelha faça uma viagem de três ou quatro dias e a traga para o seu lugar. Se está no mar, que a traga um pato-bravo [migratório]. Se está no rio, que a traga o cisne. Mas o que está no céu, que traga a águia. Que a desejada [alma] seja golpeada com as suas garras, que o bode a agrida com seus chifres, que a mãe ovelha lhe bata com o focinho [Para lhe dizer que este já não é o seu lugar, que deve seguir o caminho do invisível]. A Deusa Mãe chora, chora e sofre. As coisas boas abrem-se nas nove partes do corpo, deixam que ela [a Deusa Mãe? a Terra?] seja agredida [ou seja, que se abram nela estas portas da morte que permitem a liberdade das diferentes almas]. A alma está-se a abrir e avançar em todas as suas partes [como uma flor]. Que não se faça nenhum oráculo sobre isso! [porque já não está na Terra onde os oráculos anunciam felicidade, infortúnio ou recomendações, a alma viaja para a Luz?] A alma é grande! A alma é grande! De quem é grande a alma? A alma do mortal [a alma humana] é grande. A alma é grande! Tem o grande caminho, o caminho que faz com que as coisas desapareçam. O homem do caminho [o equivalente ao Anúbis egípcio?] preparou-a para o caminho. Um bem sagrado da Deusa do Sol é a alma. A alma pertence aos deuses. Porque devo ir para onde os mortais perdem-se. [Por quê seguir o caminho da morte, aquele que leva novamente aos mortais se a minha condição é divina?] A alma dos mortos deve comer argila e também beber lodo. Porque devo ir para dasanata [termo intraduzido]. Se caio no rio, caio no poço. Deveria ir ao tenawa [termo intraduzido]? Não me deixe ir. O tenawa é o mal. Deixa-me ir rápido para o prado. Que não seja derrubado por um Deus.”

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Nova Acrópole como Exemplo de Filosofia Natural e Ativa

José Carlos Fernández 0 364

No Dia Mundial da Filosofia, todos os Centros ou Escolas da Nova Acrópole, internacionalmente, mais de 300, celebram o poder transformador “deste princípio luminoso da razão que recebemos do Céu”. Chamamos a isto Filosofia Natural, porque em vez de se perder de forma estéril nos labirintos da mente, quer ler e lê na natureza infinita que nos rodeia, nos acontecimentos e no seu significado (a que chamamos história), e nos mesmos véus da alma humana, no seu mistério sempre vivo.

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O Coração de Jade da Antiga Hattusa

José Carlos Fernández 0 688

Viajar para o coração do Império Hitita, para a cidade de Hattusa é uma experiência formidável. Encravada no centro da Anatólia, entre montanhas e penhascos que surgem do altiplano, centenas de templos (dos quais quase não há vestígios) e residências oficiais se estendem por uma área de mais de 2 quilómetros quadrados. Na época hitita, e já na sua decadência, foi devastada por um incêndio, por volta do ano 1.178 a.C. e sobre as suas ruínas se ergueu uma nova luvita ou cidade neo-hitita.

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Uma Aproximação à Realidade, de Nilakantha Sri Ram

José Carlos Fernández 0 451

Numa ocasião, Jinarajadasa, sendo Diretor Internacional da Sociedade Teosófica, comentou sobre Sri Ram (1889-1973), que mais tarde seria o seu sucessor no cargo, que era uma personagem, uma alma semelhante àqueles que acompanhavam como sábios e conselheiros os grandes Reis Iniciados do período védico. Todos os que puderam acompanhar as suas ações, discursos e livros diziam que a melhor qualificação para ele era o de Sábio, com maiúsculas.

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O Mito Persa de Yima

José Carlos Fernández 0 655

Trata-se de um dos mitos mais importantes da tradição avéstica. Aparece como tal no segundo Fargard de Vendidad Sade, o tratado do Militante. No entanto, ao não incluir um conjunto de preceitos morais, faz pensar os especialistas de que talvez se trate da interpolação de um mito antigo. Da Índia? Referente à humanidade primitiva, aquela que havia antecedido o Dilúvio Universal, o afundamento da Atlântida? As semelhanças com o mito bíblico de Noé ou do sumério Utnapishtin são evidentes. Neste hino Yima é o primeiro rei, o primeiro homem com que Ormuz, rei dos deuses, teria “conversado”. O primeiro que teria recebido a Lei de Ahura Mazda, a mesma que Zoroastro teria anunciado e içado como estandarte de ideias capaz de transformar a Humanidade sumida no caos da ignorância. Ahura Mazda encarrega Yima de ser o portador de uma “Revelação”, porém este se considera incapaz e aceita somente engendrar criaturas e governá-las com equidade. Compromete-se perante Ahura, “a proteger o mundo, alimentar e velar por ele”, mas não para ensinar, meditar e proclamar a Lei. Recebe de Deus os instrumentos mágicos, uma lança e um anel de ouro. Faz crescer tanto as criaturas na Terra, que esta não é suficiente para contê-las e alimentá-las, e por três vezes ele deve alargá-la com os presentes mágicos de Ormuz. Sobre esta terra renovada alargou a propagação de “gado, animais selvagens, homens, cães, pássaros e fogos vermelhos e ardentes”, até não haver mais sítio para eles e a Terra não poder aumentar mais o seu tamanho. Yima seguindo as instruções de Ormuz, vê-se obrigado a reduzir a superpopulação, fazendo uma seleção dos “germes” dos melhores exemplares. O resto é devastado por intermédio de um cataclismo em que as águas cobrem e dissolvem tudo o que pesava sobre Spendarmat (a Terra). As sementes de homens, animais e fogos são resguardadas num recinto (VARA) em que tudo cresce muito lentamente e os homens se reproduzem a cada 40 anos. Todas as criaturas selecionadas vivem em pares num reino isento de maldade e discórdia, ao abrigo das geladas águas do alto, das perigosas torrentes dos vales e da neve gelada das regiões intermédias. Yima elevou fortes e altas muralhas em torno do recinto sagrado e no seu centro, uma torre com janelas de onde se derrama um divino esplendor. Um pássaro chegado do céu, KARSHIPTA, ensina a Lei de Ahura a todas as criaturas.

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Ibn Arabí e os Caminhos do Amor

José Carlos Fernández 0 282

Todos os místicos de todas as eras ensinaram que existem tantos caminhos quanto caminhantes. Mas, como na lenda do Graal, só alguns são escolhidos para viver esta aventura espiritual que une as experiências de um modo tão misterioso, «elétrico» e definitivo.
Nos textos tibetanos – os livros de Dzyan -, fala-se destas sendas como as Sendas da Felicidade, sete em número. Para cada alma, a estrela ou Deus interior estende um raio de luz que é projetado sobre a terra em que essa alma está de pé: esta é a senda. Mas assim como a lua traça infinitos rastros de prata sobre o mar, tantos como os olhos que observam, para cada buscador a senda é uma: desce como um raio de luz e é projetada no karma de cada um, dando-lhe um significado, uma teleologia; estruturando-o sob a forma de uma escada interna; pois «UM SÓ SER NÃO PODE AMAR MAIS QUE UM E ÚNICO PRINCÍPIO».

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A Quinta Sinfonia de Tchaikovsky, um Hino de Esperança

Durante o cerco alemão de Leningrado na Segunda Guerra Mundial, os governantes russos ordenaram que a Orquestra de Rádio da cidade tocasse esta Quinta Sinfonia de Tchaikovsky para levantar o moral dos sitiados. Da mesma maneira, em Londres esta peça musical foi transmitida na noite de 20 de Outubro de 1941. Assim que começou o segundo movimento, as bombas começaram a cair na cidade e perto do local onde a estavam a interpretar. A orquestra continuou a tocar até ao final. Esta obra musical teve grande importância durante esta Guerra Mundial porque parece que invoca o Destino e a vitória final através de todas as dificuldades. O tema do Destino ouve-se nas primeiras notas, tocadas por um clarinete, numa comovente melodia e sentimento que impressiona, pela sua beleza e apelo ao mais profundo do ser. E o desenvolvimento da sinfonia é um claro “per aspera ad Astra” (através dificuldades até às estrelas) até se tornar numa marcha triunfante de apoteose, no último movimento.

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Hieróglifos Hititas e Luvitas. Notas filosóficas

capital do império hitita, é uma experiência única.
O grande reformador da Turquia moderna, o magnífico Ataturk (que significa “Pai dos Turcos”, já que o verdadeiro nome deste personagem é Ghazi Mustafa Kemal) quis ir às raízes mais profundas desta terra e do seu povo e não se ficar pela tradição islâmica, que já na sua época estava degradada e fechada a todo o tipo de progresso, mas inspirar-se nos grandes impérios que floresceram neste país: os Lídios, os Cários e mais especialmente os Hititas. Quem visitar o mausoléu deste herói da civilização, ficará impressionado com a semelhança à arquitetura hitita, mas ainda mais colossal.

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A Vila dos Mistérios de Pompeia, uma Nova Leitura da Grande Sala

Visitar Pompeia é como retroceder no tempo, quase como entrar numa cena congelada do passado, pois as garras deste, que desmoronam e reduzem a pó tudo o que cai sob o seu poder, foram misericordiosas e trataram com delicadeza feminina o tesouro de uma cidade que foi consagrada à Deusa do Amor. O terramoto em 62 d.C. destruiu parte da cidade, e foi um presságio da sua destruição total, em 79 d.C, após a violenta erupção do vulcão Vesúvio, a cujos pés estava confiada. Pompeia foi coberta de cinzas e pedras a altas temperaturas (fluxo piroclástico), extraindo a vida e água de todos os organismos (criando moldes deles, as “estátuas” humanas agonizantes que vemos ao visitar a cidade), mas evitando assim toda a putrefação (inexistente sem água e ar). Como nos lembra o professor Livraga, “a pintura pompeiana nada mais é do que aquela daquela cidade na época do Império Romano”. Com a nota de que aqui se conservaram milhares de frescos murais quase intactos, o que é em si um prodígio museológico se pensarmos numa distância temporal de quase dois mil anos.

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Et Ante Luna Sedis Eius

José Carlos Fernández 0 280

Mais de dez vezes no Museu que guarda as memórias de Emerita Augusta devo ter lido esta inscrição na pedra, e nunca me chamou a atenção. Mas não neste fim de semana, recebemos na Nova Acrópole Lisboa a visita de dois velhos amigos, Juan Carlos del Río e Helena Correas. O primeiro veio[1] para orientar um curso gratuito e público sobre “O que sabe o Google sobre nós?”, três horas fascinantes e divertidas em que nos revelou até que ponto este motor de busca e empresa de publicidade que nos fornece um fluxo quase ilimitado de informações, despe-nos para nos “vender” até um ponto onde nos teria sido difícil imaginar. No domingo fomos ao Museu Gulbenkien, sem dúvida o melhor museu artístico e histórico de Portugal, e nele havia uma Exposição Temporária de importantes peças do Museu de Mérida (entre elas o impressionante Mitra-Cronos). Vendo a placa de pedra e esta inscrição fiquei muito impressionado com o que ela diz: Et Ante Luna Sedis Eius.

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Sangue Azteca

José Carlos Fernández 0 237

Lia e tomava notas do livro «O Universo de Quetzalcoatl», da genial Laurette Sejourné, sobre o pensamento e o simbolismo dos aztecas. Entretinha-me com as imagens que aparecem nele, quando uma delas me chamou particularmente a atenção.

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Diego Gelmírez e o Roubo das Reliquias Sagradas, um Exemplo de Guerra Psicológica

José Carlos Fernández 0 819

Não é necessário ler Sun Tzu e a sua Arte da Guerra para reconhecer a importância dos símbolos na estratégia militar e na própria vida dos povos. Os símbolos têm tanta realidade no psicológico como os objetos materiais no físico; canalizam os valores psicológicos e morais de quem é regido por eles, “eletrizam” os ânimos e despertam do sonho da passividade. A história das crenças é, afinal, uma história de símbolos, e as guerras são guerras de símbolos que resumem diferentes visões do mundo. Símbolo é, por exemplo, a bandeira de um país, que encarna a Ideia ou Espírito Reitor (o Volksgheist de Hegel) e outorga unidade e destino a uma terra e às suas gentes; e que expressa os seus sonhos comuns, as suas esperanças, as suas vitórias e fracassos, a sua história. Praticamente toda a Idade Média é uma guerra religiosa entre a Cruz e o Crescente, e toda a Heráldica é uma história de símbolos que resumem genealogias e um esforço de glória acumulado durante séculos, escudos pelos quais facilmente se podia matar ou morrer. E quando o Grande Mestre do Templo outorga ao jovem Jaime I, o Conquistador, a espada do Cid, ela é um símbolo de Espanha inteira e de um velho Ideal que deve erguer-se vitorioso da sua tumba. Os mesmos heróis, que singram como tochas humanas os caminhos da História, são talismãs de carne e osso e vivem na memória e, portanto, no afã de gerações e mais gerações. A própria Santiago de Compostela, e graças à obra de Diego Gelmírez, foi um símbolo, juntamente com a obra dos “monges negros” de Cluny, do Renascimento da Europa, depois do frio e torturado sonho da Alta Idade Média.

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Símbolos do Herói Arturiano Tristão de Leonis

José Carlos Fernández 0 440

As lendas desta personagem histórica e literária, Tristão, surgem no norte da França e na antiga Britânia, com ligações ao País de Gales. Lendas célticas, que como a de Artur, mais tarde se tornam cavaleirescas, espalhando-se por toda a Europa durante a Idade Média nesta “mitologia” que permitiu dar vida e alma ao Ideal Cavaleiresco. Lembremo-nos que estes são tempos em que, como disse Quixote, “Cavalaria Andante é Religião”. E o exemplo das damas e cavaleiros é a melhor expressão, o modelo do ser humano, uma cristalização, com os seus direitos, deveres, ideais e valores, da vontade do “Rei dos Reis”. Um modo viril, baseado em ações e não apenas orações, de seguir o caminho de Deus, como na Futuwah islâmica ou nos mistérios de Mitra mil anos antes.

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O livro de Poesia «Movimento Perpétuo», de António Gedeão

Os Físicos e os Químicos tentam nos convencer, desde a lei exata de Lavoiser (nada é criado ou destruído, apenas transformado), que é impossível o movimento perpétuo. No entanto, a vida mostra-nos em todos os momentos o que sim é possível, precisamente na continuidade e dinamismo desta transformação que nunca pára, do infinitamente grande ao infinitamente pequeno (pois a mesma ondulação quântica é incessante).

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Santo Agostinho e a sua Cidade Celeste

O saque de Roma pelos visigodos no ano 410 chocou o mundo antigo. As pessoas atribuíam-no a um castigo divino por terem sucumbido às doutrinas alucinantes, sectárias e excludentes dos cristãos, e por deixarem de render culto aos velhos Deuses. Seja isto certo ou não, a verdade é que a nova religião desfez completamente o tecido social e institucional do Império Romano com as suas fantasias do iminente Fim do Mundo e a rejeição dos antigos valores da Concórdia, do Comprometimento, da Fidelidade, do Culto da Pátria, etc., etc. Que sociedade se pode manter de pé crendo que dentro de alguns anos vamos presenciar o Fim dos Tempos? Como trabalhar assim para o futuro? E é evidente que quem mais vai sofrer esta ausência de futuro são os que vêm depois, os filhos e os netos que se vêm perante o vazio, com as instituições públicas jurídicas, educativas, militares, etc. em ruínas e sem nada para substituí-las.

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Os Limites do Nosso Telemóvel

Há muitos anos atrás fiz o Caminho de Santiago e recordo o vínculo tão especial que criei com o bastão que me ajudava a avançar passo a passo, dia após dia, horizonte a horizonte, sempre na direção do pôr do sol. É como se o bastão estivesse a ganhar, pouco a pouco vida, como se pudesse ter amizade com ele, como se se tornasse um elemento mágico, talismã por si só, sem que a vontade mediara nisso. Lembro-me de ter pensado que se isto acontecia com um bastão de peregrino, que seria com uma espada, que ao cravá-la no chão transformava o seu punho em cruz de oração. E não uma espada de “adorno”, mas uma espada de verdade, como as daqueles tempos em que a vida e a morte dormiam no seu metal. Não é estranho que os ibéricos chamaram as suas falcatas de “Amiga”, e que os almogávares as golpearam nas pedras antes da batalha gritando o seu “desperta ferro”, ou que os cavaleiros gravaram na sua lamina um nome mágico ou um lema. Não eram um objeto simples, elas eram uma aliada, uma presença numinosa na selva do mundo. Idéntica experiência tinham os artesãos com as suas ferramentas, que, como diziam os egípcios, são, para quem trabalha, a “bênção de Deus”.

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Um Ensinamento Mistérico no Salmo 110

José Carlos Fernández 0 952

Um dos momentos musicais mais sublimes da Oratória de Natal de Saint-Säens é quando no oitavo movimento, a voz do tenor se ergue sobre as ondulações musicais e cintilações de prata do órgão e harpa, pronunciando “Tecum Principio”. Ainda desconhecendo o significado destas palavras sentimos que a alma estremece diante delas, e mais quando uma voz feminina (soprano) responde, repetindo o mesmo tema que se entrelaça com a primeira, e com uma terceira de um barítono.

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A Lenda dos Sete Adormecidos de Éfeso

José Carlos Fernández 0 1246

Há algum tempo tive o privilégio de visitar em Éfeso [1], na Turquia, a caverna aludida pela “Lenda dos Sete Adormecidos”. A diferença da magnífica e monumental cidade jónia, percorrida por rios de milhares de turistas, quase não havia ninguém aqui, já que esta lenda é pouco conhecida pelo cidadão comum, a menos que haja um interesse religioso muito definido, pouco valor é dado a ela.

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Sócrates, de Roberto Rossellini

José Carlos Fernández 0 657

É incrível que, apesar do interesse que despertam, não se façam mais filmes desta natureza, sobre personagens ilustres cujo exemplo move a admiração e o desejo de emular as ações nobres e virtuosas; e sim sobre todo tipo de depravados, assassinos e mafiosos, cujo sucesso é garantido quiçá pela mórbida característica da nossa parte bestial. Já dissemos noutro artigo desta série como o filme Confúcio, superprodução chinesa da mais alta qualidade, apenas entrou no circuito comercial de cinemas e vídeos.

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Séneca e a Educação dos Príncipes

José Carlos Fernández 0 1186

Há muitos anos, numa aula com o professor Jorge Ángel Livraga (1930-1991), surgiu uma questão sobre a natureza do programa escolástico que seguíamos na Nova Acrópole, que não é só intelectual, mas também de desenvolvimento de valores morais. E ele respondeu, com toda a naturalidade, “claro, porque vós (…) estão a receber uma educação de príncipes”. Essa afirmação, com a espontaneidade e total convicção com que o disse, impressionou-me vivamente…

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O Ramo Rebelde do Cipreste

José Carlos Fernández 0 535

Se há uma árvore que nos exalta com a sua verticalidade é, sem dúvida, o cipreste. Guardiães nos campos, e dando uma aura e perfume de eternidade nos jardins em que sempre reinam, a sua firmeza fá-los semelhantes a uma chama verde, ou a uma espada no alto. Silenciosos, solenes, amigos e confidentes dos tristes e meditativos, os gregos consagraram-no a Apolo, talvez por causa de sua tendência para o alto e para a unidade, erguidos para o céu fazendo convergir na ponta todo o sereno dinamismo da sua força vegetal, sem tendências laterais. Os seus braços ou galhos não se abrem querendo abraçar o horizonte e a luz. Não. Elevam-se, todos juntos, em apertado abraço, como um feixe de mistério e, raramente, parecem dispor-se em espiral ascendente junto a alguma torre de uma igreja, quase como que desafiando-o com a sua crescente perenidade.

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Os Desenhos de Botticelli da Divina Comédia

José Carlos Fernández 0 1294

Qualquer um que tenha lido a Divina Comédia de Dante sabe que esta é uma Viagem da Alma, da de Dante, ou de cada um de nós, ou seja, de toda a Humanidade. A Alma encontra-se com paisagens de desolação, de negação do mais sagrado no Inferno, e também de esperança e de redenção na Montanha do Purgatório, e com momentos de beatitude e divina compreensão, mesmo que seja sonho nada mais, nos diferentes céus do Paraíso.

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As Ilustrações de William Blake da Divina Comédia de Dante

José Carlos Fernández 0 1076

Todos reconhecemos em Dante (1265-1321) o verdadeiro precursor do Renascimento, com outros autores do chamado Trezentos (século XIV) que o aceitariam como Mestre, Petrarca e Boccaccio, por exemplo, e com Florença como centro de irradiação (apesar das críticas feitas por Dante, um dos seus filhos favoritos, a esta cidade, devido a convulsões políticas e morais).

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Luz de Lisboa

José Carlos Fernández 0 741

Os cineastas vêm a Lisboa para filmar, porque sabem desta luz feiticeira. Assim como os publicitários, sendo usada para publicitar interesses menos sagrados do que ela. Os pintores, e os fotógrafos, querem desvendar os seus mistérios fazendo uso dos seus pincéis e do olho da sua câmara, os poetas dedicam-lhe versos e os escritores não se esquecem de incluí-la nos seus relatos e descrições, porque é uma das características mais distintas desta cidade. Os cientistas investigam os seus diferentes raios e frequências, estudam os ventos que formam e limpam o ar, as mini partículas em suspensão que a refletem e dispersam, o efeito diáfano das águas do Tejo que a devolve na face brilhante da sua linfa.

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Borges e os Kenningar da Poesia da Islândia

O que é a poesia? Quantas vezes se definiu como sinónimo de magia, mistério, encantamento. Se Pitágoras estabeleceu o par de opostos limitado–ilimitado, e o próprio Anaximandro, outro dos chamados filósofos Pré-Socráticos, mostra que o apeiron (o indefinido, o ilimitado) é princípio (arkhé), causa, fim e indefinível essência, bem poderíamos afirmar que só o limitado e racional é o prosaico, e o seu oposto, o poético, seria o maravilhoso, o admirável, o milagre portanto, o mundo da imaginação que sustém e dá sentido ao que chamamos “realidade”, o prosaico e quotidiano.

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A Morada, de Teresa Cubas Lara

São os versos que despertam na minha imaginação ao ler aqueles que palpitam neste livro de Teresa Cubas Lara, intitulado “A Morada”. Não é o seu primeiro livro, mas mais um elo de ouro numa cadeia de beleza que amamos ao sussurrar os ecos da alma da sua autora, uma peregrina nos caminhos da sabedoria. Outros vieram antes: Maternidade, Procurando um Ideal, Palavras com Asas, Nascer da Luz … e certamente outros já escritos aguardam. Sinto-me honrado pela autora, por juntos estudarmos e juntos recebermos ensinamentos sublimes, juntamente com tantos outros privilegiados, os quais nos sentimos irmãos nessas vivências e aprendizagens.

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