Teodoro – Se conseguisses, Sócrates, convencer todo o

mundo da verdade do que disseste como fizeste

comigo, haveria mais paz e menos males entre os

homens.

Sócrates – É certo. Porém não é possível eliminar os males

(…)  Daqui nasce para nós o dever de procurar fugir

quanto antes daqui para o alto. Ora, fugir dessa maneira

é tornar-se o mas possível semelhante a Deus; e tal

semelhança consiste em ficar alguém justo e santo com

sabedoria. [1]

 

Quanto mais investigamos a diversidade de visões existentes acerca do Universo e do Ser Humano, mais nos apercebemos do monumental trabalho implicado na procura genuína da verdade.

São tantas e aparentemente tão diversas as filosofias do mundo e dos séculos, tão variados e aparentemente tão distintos os caminhos propostos para o entendimento humano, que é natural surgir uma certa indecisão – quando não um cepticismo – sobre qual a melhor filosofia e o caminho mais propício a conduzir-nos à meta.

Quer nos debrucemos sobre os Vedas e demais textos filosóficos da Índia, ou nos dediquemos a compreender a mensagem de Buda ou de Jesus, ou estudemos os filósofos ocidentais, tanto clássicos como modernos e contemporâneos, ou até na literatura não-filosófica – de grandes romancistas e poetas a quem também muito devemos considerar na nossa busca – cada vez mais nos parece infindável a tarefa, mais nos parecem infinitos os esforços, e mais dúvidas surgem sobre quem estará mais próximo das verdades cósmicas e humanas.

Ainda que intuamos uma verdade eterna, transcendente a toda a possibilidade do pensamento humano e, portanto, a toda a teoria escrita ou discurso proferido, ainda que acreditemos numa Teosofia ou Sabedoria Divina que paira sobre os mais elevados intelectos dos sábios, ainda nesse caso, a quem recorrer para nos levar à almejada meta?

Plotino deixou nas suas Enéadas um conjunto de ensinamentos que derivam da filosofia de Platão. São comuns as citações a este filósofo, desenvolvendo-as e explicando-as passo a passo, acompanhando o leitor numa reflexão cada vez mais profunda em direção ao Uno. Platão, por sua vez, apoiou-se na filosofia dos pré-socráticos e dos pitagóricos, bem como em Sócrates e em ensinamentos ocultos das Escolas de Mistérios do Egipto – que por sinal também foram adquiridos por Pitágoras.

Depois de Plotino, muitos outros filósofos continuaram esta tradição, com Porfírio, Jâmblico, Hipátia e Proclo, até que o Cristianismo ganhou preponderância, o qual também não foi imune à influência de Plotino. No renascimento, o platonismo foi recuperado e muitos outros filósofos e poetas, entre os quais Luís de Camões, se inspiram no legado desta tradição filosófica.

Nenhum deles pretendeu deixar-nos a Verdade escrita nos seus textos. O próprio Platão se mostrou reticente quanto à utilização da escrita para veicular os conhecimentos superiores. Cada um deles, à sua maneira, deixou-nos apenas formas de pensamento com as quais construirmos a nossa própria escada interior em direção à verdade. A verdade não tem forma, não tem limites, não é um conjunto de palavras nem de pensamentos nem de raciocínios lógicos, por mais válidos que sejam.

Talvez ajude, como nos ensina Platão, considerar que uma verdade maior é acessível quando fugimos “daqui para o alto”, ou seja, que a devemos procurar longe do mundo sensível material e mais perto do mundo inteligível espiritual. Isto significa, até certo ponto, que a verdade não deve ser procurada nos livros, nas tradições ou teorias dos sábios, mas sim no nosso próprio espírito. Não se trata de uma busca solitária, isolada de influências e absente de leituras, muito pelo contrário. Porém, a leitura e a investigação apenas são úteis na medida em que tornam possível uma atividade do intelecto, um movimento da consciência, um tipo de vida interior que direciona a nossa percepção para o alto.

Gravura de Platão nas Crônicas de Nuremberg. Domínio Público

Há, portanto, um método e um trabalho interior que é necessário desenvolver até chegar ao cume. Para chegar ao Bem, o caminho é apontado por Platão quando nos diz que é necessário “fugir daqui para o alto”, onde não mais há mal. Esse é um caminho constituído com um conjunto de degraus. A esses degraus chamamos virtudes.

Primeiramente, tendo olhado para o interior, produzindo um autoconhecimento das diversas dimensões do ser humano, geramos uma espécie de mapa no qual podemos situar a altura do nosso eu em cada experiência que estiver ao nosso alcance. Plotino fala-nos das relações entre cada um dos veículos do eu: entre o corpo e a alma vegetativa e sensitiva; entre a alma animal e a razão; entre a alma racional e a inteligência superior; por último, entre a inteligência e o Uno.

Fica, assim, delineado o caminho ascendente a percorrer, com o corpo material em um dos extremos, e a inteligência divina no outro. Devemos então debruçar-nos sobre os meios que devemos utilizar para percorrer esse caminho, no qual é necessário construirmos os degraus ou virtudes que permitem a subida.

As primeiras virtudes dizem respeito à nossa dimensão inferior, de modo a fortalecê-la, harmonizá-la e discipliná-la num todo coerente e útil ao mundo, ao mesmo tempo que preparado interiormente para poder abrir as asas da alma e começar a voar. São as virtudes cívicas, das quais já nos fala Platão: a coragem, a temperança, a sabedoria e a justiça. Surgem através do controlo dos apetites e emoções do composto animal (corpo e alma sensitiva), bem como da ordenação e disciplina interior.

Consolidados nas virtudes cívicas surgem depois as virtudes que visam purificar-nos, que devem abrir espaço à entrada da luz inteligível nas regiões superiores da consciência, libertando a alma de todas as afeções inferiores. Estas virtudes purificadoras incluem a busca do nosso ser interior, que se atinge conquistando o nosso centro, filtrando de tudo o que lhe seja alheio. Esta centralidade é conseguida evitando ou afastando um conjunto de afeições da nossa alma inferior: os prazeres desnecessários, as dores e sofrimentos, a ira, o medo e o desejo. Todas estas forças nos arrastam para fora, afastando-nos do centro onde podemos aceder ao mundo inteligível e ao ser.

Por fim, tornam-se necessárias as virtudes contemplativas, que geram a iluminação pelas reminiscências da alma. São três as vias contemplativas apontadas por Plotino: o amador (aquele que ama), o músico e o filósofo. Em todos os casos é necessária uma libertação dos sentidos, mergulhando no mundo inteligível dos arquétipos.

Já plenamente assentes no mundo inteligível, purificados de qualquer imagem, sentimento ou pensamento, as virtudes cívicas convertem-se nas forças luminosas da alma para perseverar na sua ascensão, atraída pela Beleza e pelo Bem supremos num Amor inigualável, enfrentando as últimas e misteriosas provas que levam à união com o Uno. Como diz Plotino:

“É mister, portanto, fazer-se inteligência e confiar e submeter

a própria alma à inteligência para que aquela, estando

desperta, receba o que esta vê; e depois, com essa inteligência,

contemplar o Uno sem adicionar sensação alguma nem admitir

nela nada vindo desta, mas contemplar puríssimo com o ápice

da inteligência pura.” – Enéadas VI 9, 3

 

Cabeça de mármore. Ostia Antica, Museo, inv. 68. Cabeça. A identificação como Plotino é plausível, mas não provada. Domínio Público

O desfecho do caminho ascendente é, portanto, a conversão (no duplo significado da palavra latina convertere, que significa “voltar-se” e “transformar-se”) da alma à inteligência capaz de se fundir no Uno. O Amor é a força interior que leva à União final, a uma identificação com o Ser universal, Deus:

“Do mesmo modo que aqui os enamorados se configuram à

semelhança do seu amado (…) e assim é que poderão unir-se a

eles, assim também a alma está prendada do Uno e movida pelo

amor desde o princípio.” – Enéadas VI, 7, 31

Hélio de Orvalho

[1] Platão, Teeteto 176a. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Pará, Brasil.