A Saúde e Justiça em Platão

Numa filosofia tão ampla e tão completa como a de Platão, sobre a qual se atreveu a dizer Alfred Whitehead (1929) que a filosofia depois de Platão “não passa de uma sucessão de notas de rodapé da obra de Platão”, torna-se pois uma difícil proeza pegar em duas “páginas arrancadas” do seu pensamento, a Justiça e Saúde, para conseguir abarcar toda a dimensão que ambas tiveram na filosofia platónica; no entanto, considero-as realmente das mais importantes entre os raios de luz que Platão irá traçar como caminhos para a verdadeira harmonia e plenitude da alma humana.

Os finais do séc. V e séc. IV a.C. tornam-se um momento grande da medicina grega, não apenas pelo avanço dos seus conhecimentos e técnicas, mas porque o seu novo pensamento e ampla visão da saúde vão trazer um forte contributo no plano social e espiritual. Torna-se um saber edificador da vida humana e modelo da ética socrática através dos diálogos de Platão.

Nesta época, a medicina ultrapassa a dimensão de profissão e torna-se uma força cultural e filosófica basilar da vida do povo grego. Esta visão da saúde vai ser muito distinta da medicina dos nossos dias que, apesar de todo o seu avanço de conhecimentos, se tornou totalmente profissional. Segundo Werner Jaeger na sua magistral obra “Paidéia”, esta postura grega relativamente à saúde “ficou a dever-se em primeiro lugar à feliz circunstância de ter pela primeira vez, naquela época, representantes com um horizonte espiritual universal, que a colocaram ao nível que havia de ocupar em todas as épocas subsequentes.”

Prova desta implicação filosófica da saúde na vida moral e espiritual grega, é a própria literatura médica que surgirá neste período, sendo de dois tipos: por um lado, uma profissional e por outro lado, uma dirigida ao grande público e cujo âmbito de interesse e conhecimento caracterizavam aquilo que era um homem culto. Estas obras destinadas ao público leigo não versavam simplesmente a instrução sobre questões básicas médicas, mas sim uma abordagem de questões de fundo como o carácter geral da natureza do ser humano, as suas relações com o entorno e as causas da doença, como é exemplo a obra “Da natureza do Homem” (pertencente aos Tratados Hipocráticos, sécs. V-III a.C.).

Algo importante do ideal grego de “mente sã em corpo são” contribuiu preponderantemente, pois para uma autêntica saúde não bastava um corpo em boas condições, mas simultaneamente o desenvolvimento e harmonia moral e espiritual. Esta visão tão ampla e praticamente cosmológica da saúde que se tornará transversal a todos os aspectos da vida já tinha levado Homero a louvar a arte médica na Ilíada, afirmando que o médico “vale por muitos outros homens” e também Sólon sobre as crises políticas afirmava que estas tinham como causa as perturbações da saúde na colectividade.

Sendo a “mistura” e “harmonia” conceitos que se ligam entre a medicina e a vida da cidade, para se obter a saúde por um lado e a justiça de um Estado saudável por outro, terão ambas que actuar com “isomoiria” (ἰσομοιρία), a ideia de uma proporção equilibrada entre os elementos fundamentais de um organismo (os diferentes órgãos no homem e os diferentes indivíduos na sociedade) e da natureza no seu conjunto (o corpo como um todo e a sociedade como uma unidade), ideia que surgirá na obra hipocrática “Dos ventos, águas e regiões” do séc. IV a.C.

Agathon enquanto recebia Alcibíades bêbado na sua casa. Wikipedia

Um outro conceito igualmente de grande importância que vai surgir na Filosofia da Saúde é o de “natureza” e que estará presente em muitas expressões da vida, começando pelo próprio conceito de “natureza humana”, ou seja, o que é próprio do ser humano, e assim ligando-se esta ideia à educação e à política. Tucídides inclusive aplicá-lo-á à própria história, fazendo-a derivar da existência de uma “natureza humana” que nos seus componentes fundamentais permanece idêntica em todos os tempos.

A relação da teoria médica com a filosofia e a vida moral não se baseia simplesmente numa forma de analogia, mas sim, fundindo-se a forma terapêutica médica para o corpo com a filosofia socrática do cuidado e correcta terapêutica da alma, para que constituam uma unidade superior: ambas e unidas levarão o ser humano ao “Aretê” (ἀρετή), à excelência da realização da essência da natureza do homem, expresso na felicidade, e que englobará, em Platão, conceitos como justiça e moderação.

Assim como o médico é chamado a restaurar a “medida oculta”, quando a doença vem alterá-la, assim o filósofo-político é chamado a restaurar a justiça, pois tanto esta quanto a saúde são essa “medida oculta” que ambos devem conhecer.

A medicina na Grécia vai ser uma forma de melhor entender a natureza humana e o que é próprio à sua harmonia, proporcionando assim uma mais perfeita formação do ser humano.

“A medicina dos séculos V e IV a.C. traz para o grande processo espiritual da formação do homem helénico uma contribuição directa cuja importância a ciência médica moderna só de há pouco tempo a esta parte reconheceu e explorou: a doutrina referente à conservação da saúde no homem.”1

Platão no Górgias afirma muito claramente esta relação entre a medicina e a política:

“Afirmo que há duas artes: em relação à alma, eu chamo política, ao passo que, em relação ao corpo não posso chamá-la igualmente por um sinónimo, no entanto, visto que há um único cuidado para com o corpo, duas partes dele distingo, a ginástica e a medicina; quanto à política, em contraposição à ginástica há a legislação, enquanto a justiça é a contraparte da medicina. Cada par possui algo em comum, por concernir a mesma coisa, a medicina e a ginástica de um lado, e a justiça e a legislação, de outro, embora haja algo em que se difira.”2

Desde o primeiro instante que, para Platão, a medicina se liga à filosofia e desta à política. No Górgias, Platão vai estabelecer a essência da “techné” (τέχνη), ou seja a natureza do objecto destinado a servir o homem, e vai fazê-lo recorrendo à ideia médica. Para Platão, o médico tem que ser aquele que sabe sobre a natureza do homem são, conhecendo também o contrário deste, o homem enfermo, e por isso sabe quais os meios para restituir o estado de saúde ou equilíbrio. Esta é, para Platão, também a natureza do político-filósofo para com a sociedade e o seu cuidado para com a alma humana, sendo o cuidado do corpo para com o médico, o cuidado da alma para o filósofo ou o cuidado ético e moral para o político, todos necessitam do conhecimento da natureza humana para lhe proporcionarem o seu estado de equilíbrio natural: a saúde.

A morte de Sócrates. Creative Commons

No Fedro, Platão afirma que a medicina devia constituir o modelo para uma autêntica retórica, entendendo sobre esta a arte de encaminhar a alma do ser humano para o que é verdadeiramente melhor para ele, e esta seria a verdadeira arte política. Refere ainda nesta obra que não é possível penetrar na alma humana e conhecê-la verdadeiramente “sem a totalidade da natureza”, constituindo esta uma visão comum à medicina, à filosofia e à política: nunca separar a parte do todo, mas sempre a encarando nas suas relações e interdependências com o todo. Refere que em todos os campos é necessário primeiro entender a função da parte com o todo, determinando assim qual o tratamento ou acção mais adequada ao bom estado de saúde da parte.

Considera ainda que a medicina ajuda o filósofo na sua função política a resolver o problema de levar o homem a encontrar a verdadeira pauta da sua conduta, ensinando-o a descobrir o comportamento moral adequado ao justo meio entre o excesso e o defeito, estabelecendo a analogia com a dieta física saudável, equilibrada e adequada à natureza da vida de cada homem.

Como já vimos anteriormente, o conceito de “mistura” torna-se de suma importância também em Platão, pois tal como a saúde representa o justo equilíbrio entre as diversas forças do organismo, para a política é a justiça que estabelece o justo equilíbrio de todas as polaridades sociais. Para Platão, a justiça dentro de um estado baseia-se no princípio no qual cada membro do organismo social deve “ocupar-se de uma função na cidade, aquela para a qual a sua natureza é mais adequada”3 já que “cada um de nós não nasceu igual a outro, mas com naturezas diferentes, cada um para a execução da sua tarefa”4 . Para Platão, a justiça é pois a saúde do corpo social, onde cada um cumpre o que lhe é dado fazer segundo a sua natureza e o todo beneficia-se desta complementaridade. Assim como não é a função do médico interferir contra a natureza no tratamento dos doentes, assim o político por meio da justiça não pode ir contra a natureza do Homem. O médico limita-se a averiguar onde pode intervir para ajudar o processo natural encaminhando para a cura; postura idêntica deverá ter o político encaminhando naturalmente o homem para o seu estado harmónico de justiça. A arte médica, tal como a arte política, no entanto deve ser preventiva em relação aos perigos que espreitam e velar pelo estado natural ou harmónico, cuidado este que foi atribuído pelos gregos à deusa Hygeia (higiene). Assim como na medicina se fazia incidir esses cuidados sobre a “dieta”, que para o gregos não se referia apenas aos alimentos mas a todo o regime de vida do Homem, atribuindo ao médico uma missão educativa, o mesmo se esperava Platão do político, uma missão educativa no sentido da justiça e velar por todo o “alimento” da alma de modo a não adoecer moralmente.

Estátua de Temis. Wikipedia

Sócrates, através de Platão, afirmará que a justiça é o resultado da saúde da alma, sendo a alma saudável aquela que é capaz de discernir o que é bom para ela, ou seja, o estado de saúde da alma é o poder de alcançar o discernimento e obter o bem, mas um bem real e não meramente aparente. O grau de saúde da alma depende assim da magnitude dos bens que ela pode discernir e alcançar. A alma que apenas procura como bens os que são relativos aos desejos do corpo ou de si próprio é débil em comparação com uma alma capaz de valorizar como bens os ideais e necessidades de uma comunidade. Esta ideia é verdadeiramente extraordinária, pois diagnostica claramente a causa de tantos problemas de saúde no individual e de problemas de justiça no colectivo: ignorância e egoísmo.

No Teeteto expressa este mesmo raciocínio no seguinte diálogo:

ESTRANGEIRO – A ginástica para a fealdade, e a medicina para a enfermidade.
TEETETO – É o que parece.
ESTRANGEIRO – Assim, a correção para a falta de medida, para a injustiça e a covardia é, dentre todas as técnicas, a que melhor se aproxima da Justiça.
TEETETO – É o que parece, pelo menos se quisermos falar conforme à opinião humana.
ESTRANGEIRO – E ainda: para toda a ignorância haverá uma arte mais apropriada que o ensino?
TEETETO – Nenhuma.

Platão desenvolverá esta ideia na “República”, uma obra que constitui toda uma metáfora dos problemas morais da alma humana, é toda uma visão ética e política da Saúde. Nela afirma que a temperança da alma no indivíduo é o que leva a que não prolifere o aumento de tribunais na cidade, tal como a saúde do corpo gera que na cidade não aumentem as “clínicas”. Em relação ao seu tempo afirma (o mesmo diria de certeza em relação ao nosso), que a necessidade de cada vez mais médicos na cidade é vergonhosa, proliferando “clinicas” devido ao estilo de vida sedentário e nada saudável, aplicando a mesma ideia em relação ao aumento da quantidade de tribunais. O aumento de “tribunais” e “hospitais” não é para Platão sinal de uma evolução civilizatória, mas antes um forte indício de vício e de uma vergonhosa educação na cidade, pois é precisamente quando não há educação na cidade que proliferam estas duas instituições e adianta que a frouxidão moral de um povo pode atrair novas doenças, vendo-se a cidade diante de doenças que são causadas pelo abuso dos prazeres alimentares e de uma total falta de contenção.

Em síntese, gostaríamos de realçar a ideia de que, para Platão, Saúde e Justiça são duas expressões do que poderíamos chamar o estado natural ou verdadeira natureza da alma humana, quer na união dos diferentes aspectos que unem o individuo, quer nos que o unem com os outros seres humanos e que, para manter esse estado de harmonia, há que conhecer realmente a sua verdadeira natureza, o que lhe permitirá identificar o que fortalece esse estado natural e o que o corrompe. Só assim poderá zelar por essa “medida oculta”, já que a sua ignorância infelizmente é parte da caminhada de todo o ser humano, estaria então o sábio por um lado como médico-filósofo e por outro como político-filósofo. No entanto, considerava Platão que a sabedoria não deveria estar apenas em saber cuidar dos estados de enfermidade tanto no corpo como na cidade, mas sim desenvolver uma boa pedagogia de prevenção, a qual seria atributo da filosofia, desenvolver o conhecimento e a fortaleza moral para que uma alma forte e saudável sustentada nas quatro virtudes platónicas (sabedoria, coragem, temperança e justiça) seriam promotoras de um estado de saúde da alma que se reflectia numa vida individual em saúde e numa vida social em justiça.

Platão na Escola de Atenas, de Rafael. Wikimedia Commons
José Ramos
Anotações

1. Paideia, Werner Jaeger

2. Górgias, Platão, 464b-c

3. Républica, Platão

4. Républica, Platão

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José Ramos

Director da Nova Acrópole em Coimbra

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