A Outra Face de Isaac Newton: O Alquimista

“Não sei como posso parecer ao mundo, mas para mim mesmo tenho a impressão de ter sido uma criança brincando à beira-mar, divertindo-me a descobrir uma pedrinha mais lisa ou uma concha mais bonita que as outras, enquanto o imenso oceano da verdade continua misterioso diante de meus olhos.”
Isaac Newton

Introdução

Nos dias de hoje, ainda que alguns de nós já sintam os alvores do fim do positivismo, ainda é estranho aos olhos e aos ouvidos da maioria das mentes científicas deste século XXI chamar-se Isaac Newton de Filósofo, quanto mais afirmar-se que teve uma face oculta, uma vida dedicada à Alquimia. Como é que estas áreas aparentemente contraditórias ao espírito científico podem surgir conciliadas em alguém e mais ainda como é que podem surgir num homem de ciência?

Penso ser importante, antes de avançarmos na exploração da vida de Newton, fazermos uma breve reflexão sobre as questões anteriores, de forma a não avançarmos nesta leitura com o espírito de crítica e de julgamento de quem assume a defesa de uma das partes.

Comecemos com outra questão: o que é ser-se filósofo? Ser-se filósofo não é somente um estilo de vida, ou pensar sobre um problema, ou explorar-se os conceitos mentais da realidade, etc., é tudo isso e muito mais; ser-se filósofo é parte da natureza humana, é o nome que se dá a um momento do estado evolutivo da consciência. Assim como a consciência de uma criança perante a vida e as suas situações não é a mesma consciência que um adulto apresenta, assim diferem a consciência filosófica em comparação com a consciência comum, ou o senso comum. Nesta perspectiva de filosofia, como modo de consciência, podemos dizer que todos os seres humanos são potencialmente filósofos, mas somente alguns o são em acto. Assim sendo, o ser-se filósofo é um estado que se desperta, que se alcança e que se caracteriza pela atitude consciente de procura, vivência e transmissão das verdades inerentes à condição humana. Estas são encabeçadas por três questões já muito antigas: quem sou? De onde venho? Para onde vou? Ser-se filósofo não é ser-se especulativo, é ser-se operativo, é fazer-se da vida o campo de aperfeiçoamento, é melhorar e melhorar-se, transmutando as dificuldades pessoais em virtudes, pondo em prática as qualidades inerentes à natureza essencial de cada um, é afirmar os hábitos que proporcionam uma vida feliz. Não se pretende uma felicidade de minutos, horas, dias, anos, etc., interrompida por vazios, mas visa-se alcançar uma felicidade, um bem-estar de alma, constante, mesmo nos momentos em que a envolvente é tempestuosa. Este é o ser-se filósofo, aquele que procura unir-se à sabedoria. A sabedoria aqui não é um conhecimento mas a forma de viver esse conhecimento, a forma de se viver de acordo com a verdade.

Tal como agrupámos as verdades do mundo externo em várias ciências, às quais demos o nome de, por exemplo, matemática, química, biologia, geometria, etc. e através destas ciências procuramos operar na matéria que as envolve, assim, sob o nome de Alquimia se agrupou o conjunto de saberes que leva ao conhecimento e à operação sobre a matéria pessoal que envolve as verdades dos mundos internos do Homem. A alquimia, utilizando o simbolismo químico, pela analogia de leis universais comuns a todos os Reinos da Natureza, velou o conhecimento do processo de transmutação humana. Este processo leva-nos da ignorância à filosofia e da filosofia à sabedoria, do material à alma e da alma a Deus, do homem imperfeito ao homem perfeito, do chumbo ao ouro, esta é a Grande Obra Alquímica.

Newton não se preocupou somente em querer conhecer as leis do mundo externo. Ele também procurou conhecer as leis do seu mundo interno, não limitou o seu campo de saber apenas àquilo que imprime os sentidos físicos; assim sendo, ele foi o cientista pleno e a ele se poderia atribuir o título que foi atribuído a tantos que, tal como ele, exerceram este magistério de unir o Céu e a Terra, um Mago.

Sir Isaac Newton. Dominio Público
Isaac Newton

Newton nasceu no dia de natal de 1642 no seio de uma família conturbada e no seio dum período histórico conturbado. O seu pai morrera alguns meses antes e, no ano do seu nascimento, iniciara-se a guerra civil inglesa que viria a durar dez anos. Para piorar as coisas, a mãe abandonou-o quando tinha três anos, deixando-o ao cuidado da avó. Estes períodos, o da infância e da juventude, envoltos de instabilidade e incertezas, devem tê-lo marcado profundamente para o resto da sua vida. Possivelmente foram a semente da personalidade reservada, introspectiva e difícil com que Newton se mostrava ao mundo e talvez também desses períodos tenha nascido a sua necessidade intrínseca de encontrar certezas, a estabilidade, as Leis inalteráveis da Natureza.

Aprendendo a olhar para a essência das coisas, desde cedo foi sendo conduzido à certeza de que existe uma força criadora, uma inteligência que mantêm e destrói todo o universo, Deus.

“A maravilhosa disposição e a harmonia do cosmo só podiam ter tido origem no plano de um Ser omnisciente e omnipotente. Esta é e continua a ser a minha maior compreensão.”
Isaac Newton

Newton foi um homem profundamente espiritual, no verdadeiro sentido da palavra espiritualidade. Esta espiritualidade não é o acto de prestar culto a um Deus, mas sim, o acto de procurar e manifestar o fogo misterioso de Deus que arde no interior de cada coisa e de cada homem. Embora alguns dos seus hábitos possam parecer estranhos quando analisados sob o ponto de vista racionalista e materialista dos nossos dias, se forem vistos pelo prisma de um discípulo que tenta procurar a sua própria essência de ser, combatendo aquilo que é baixo para se conseguir elevar às mansões superiores da alma humana, ao altar onde arde esse fogo sagrado, o que doutra forma poderia ser classificado por paranóia social ou dificuldades de relacionamento, pode ser entendido como a contínua luta discipular contra os vícios e a eleição de uma vida superior, longe das tentações dos desejos.

“O meu melhor amigo é a verdade.”
Isaac Newton

Com o fim da guerra, o ambiente académico em Cambridge tornou-se muito decadente. Mulheres e álcool eram o entretenimento dos estudantes. Newton abominava todo este comportamento e por isso isolou-se ainda mais. Passava horas a fio no seu quarto dedicando-se ao estudo e à reflexão. Desde então instituiu uma prática que cumpriu para o resto da vida, quando era atacado por pensamentos impróprios meditava ou então lia acerca de outros assuntos.

“Aqueles que estiverem a pensar em castidade estarão sempre a pensar em mulheres.”
Isaac Newton

Por causa da peste, no ano de 1666, Newton deixa temporariamente Cambridge e regressa a casa. E foi nesta altura que intuiu a lei da gravidade; este momento ficou associada à famosa história da maçã que cai da macieira.

Sir Isaac Newton sentado embaixo da macieira, onde ele supostamente descobriu a gravidade, perto de uma maçã caindo em sua cabeça. Wikimedia Commons

Anos antes, Galileu tinha demonstrado que todos os objectos, independentemente da sua massa, demoravam o mesmo tempo a cair se fossem lançados com a mesma velocidade inicial. Por esta altura, sabia-se calcular a velocidade média dos corpos, mas como saber a velocidade em qualquer ponto do espaço por mais infinitesimal que fosse? Para alcançar estes resultados, Newton desenvolveu um novo método matemático que ficou conhecido por Cálculo Diferencial ou simplesmente Cálculo. Newton, sem o saber, tornara-se o maior matemático do mundo, inventando um método que permitiria no futuro medir todas as taxas de variação de quantidades.

Newton foi mais longe e conseguiu também perceber que a natureza da força que atrai a maçã para o chão deve ser a mesma que mantém os planetas em órbita. Até então, a hipótese vigente que explicava a órbita dos planetas era a de Descartes; esta propunha que os planetas orbitavam em consequência dum mecanismo que assim os mantinha.

Também foi por esta altura que Newton se dedicou ao estudo da natureza da luz. Até então, a luz era considerada a forma mais pura de energia, um sinal do poder de Deus e, sobre as cores, dizia-se que eram o resultado da modificação da luz branca quando esta incidia nos objectos.

São também muito conhecidas as experiências que Newton realizou neste campo, utilizando o seu corpo como cobaia, para perceber como o olho capta a luz. Desde pressionar o nervo ocular com uma agulha, observado as figuras de cor e sombra que se formavam a olhar directamente o sol, Newton arriscou a própria cegueira, chegando a passar 3 dias na escuridão para sanar o efeito de cegueira temporária provocado por uma longa exposição a olhar o sol.

Para compreender a natureza da luz, Newton colocou o seu quarto na escuridão total. Numa das janelas, existia um pequeno orifício por onde entrava um feixe de luz. Este incidia num prisma. Como era de esperar, o feixe dividiu-se nas sete cores do arco-íris. O que não tinha sido feito até então; a inovação de Newton foi colocar no percurso do raio vermelho outro prisma. Se a cor resultasse do efeito que os objectos provocam na luz era esperado que o raio vermelho quando atravessasse o prisma mudasse de cor; tal não aconteceu e Newton comprovou, o que na altura foi também um choque, que a luz não era pura mas sim a soma de várias frequências.

Destes estudos de óptica, também resultou o aperfeiçoamento do telescópio que 50 anos antes tinha sido inventado por Galileu. Newton descobriu que as lentes utilizadas no desenho deste telescópio provocavam aberrações cromáticas nas imagens captadas, devido a refracções nos extremos das lentes. Para evitar isto, Newton criou algo novo, um sistema de espelhos que concentravam a luz: isto fez com que o telescópio ficasse mais potente e mais pequeno. As bases ópticas deste tipo de telescópio ainda são utilizadas na construção dos telescópios actuais. Foi este seu redesenhar do telescópio que o lançou para as luzes da ribalta.

Finalmente, em 1687 Newton publica a sua Grande Obra Prima Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, Princípios Matemáticos da Filosofia Natural. Esta é tida como uma das maiores obras na história da ciência. Nela constam os fundamentos da mecânica clássica, ou seja, as famosas três leis de Newton:

1ª Lei – Todo corpo continua no seu estado de repouso ou de movimento uniforme numa linha recta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças aplicadas sobre ele.

2ª Lei – A mudança de movimento é proporcional à força motora imprimida, e é produzida na direcção da linha recta na qual aquela força é aplicada.

3ª Lei – A toda acção há sempre uma reacção oposta e de igual intensidade: as acções mútuas de dois corpos um sobre o outro são sempre iguais e dirigidas em sentidos opostos.

A Lei da Gravitação Universal:

   
 

F é a força entre as massas, medida em newtons;
G é a constante gravitacional (6,67428(67) x 10-11 m3 kg-1 s-2);
m1 e m2 são as massas dos corpos, medidas em quilogramas;
d é a distância entre os centros de massas, medida em metros.

 

E a demonstração das Leis de Kepler para o movimento dos planetas que Kepler tinha deixado de forma empírica.

Mas Newton não era somente o Filósofo Natural, ele era o Filósofo Pleno. A ciência para Newton era feita quer no mundo visível quer nos mundos invisíveis e era através da Alquimia que Newton investigava a essência das coisas e de si mesmo; era através da Alquimia que Newton mais se aproximava de Deus. Não lhe bastava saber o como das coisas, era fundamental saber o porquê. Por exemplo, a lei da gravidade é um facto, consegue medir-se, mas quem a criou, qual é o seu propósito? Estes são exemplos das outras questões que o acompanhavam.

“A gravidade explica os movimentos dos planetas, mas não pode explicar quem colocou os planetas em movimento. Deus governa todas as coisas e sabe tudo o que é ou que pode ser feito.”
Isaac Newton

É impossível estudá-lo se não for tido em conta essas duas facetas, O Alquimista e o Cientista, que não são contraditórias mas complementares e em verdade possivelmente são apenas uma e uma só.

Alegoria da Alquimia em Notre-Dame. Segundo Fulcanelli, representa a Filosofia. Wikimedia Commons

Ainda falta estudar Newton, o Alquimista, e as suas obras exploradas. Até há pouco tempo, todo o seu trabalho alquímico encontrava-se fechado num baú, esquecido, até ser resgatado num leilão por John Maynard Keynes. Mesmo em vida, Newton sempre ocultou esta sua faceta, pelo risco que a sua vida corria se fosse descoberto. A alquimia era considerada um crime em Inglaterra, pois os governantes tinham medo que a moeda desvalorizasse devido à possível produção de ouro levada a cabo por estes misteriosos processos.

abe-se que possuiu uma das bibliotecas mais importantes sobre alquimia e, pelo número de tratados alquímicos que escreveu, facilmente se conclui que escreveu mais sobre alquimia do que escreveu sobre ciências naturais. Em vida, publicou pelo menos oito trabalhos sobre ciências ao passo que, até à data, já são conhecidos setenta trabalhos alquímicos, grande parte escritos em latim e encontrando-se a maioria por traduzir.

Apresentamos alguns trechos de um dos seus escritos alquímicos. O mesmo foi traduzido pelo autor desta monografia do inglês para o português e por isso alerta-se para a possível existência de erros de tradução, devido à dificuldade da própria linguagem alquímica. Estes trechos foram retirados de um trabalho que tem o nome de: Várias perguntas relativas à Pedra Filosofal.

Pergunta 1. De que tipo é a verdadeira e única matéria filosofal?

Ela é adequadamente chamada de mineral, mas por causa da sua crescente virtude um vegetal, por uma certa razão pode ser chamada de um animal, numa palavra é denominada universal.

É uma terra pesada e a luz estando na sua natureza é uma terra aguada ou uma água terrestre. No que respeita à cor é agradável e abominável, fedorenta e cheirando aceitavelmente, encontra-se entreaberta e profundamente escondida, encontra-se em montes e vales em campos e ruas em jardins e pastagens em caves e lojas e no entanto, não é encontrada ou conhecida por ninguém que não seja muito sábio.

Enquanto que Deus dividiu este mundo em quatro elementos, os filósofos também inventaram quatro Reinos: o astral, o animal, o vegetal e o mineral. Entre os animais distingue-se o homem, entre os vegetais o vinho e entre os minerais o Ouro. E é maravilhoso que Deus tenha confiado este mistério ao homem que carrega, em privado tão grande segredo no seu próprio corpo.

A Arte não consiste em muitas coisas. Nem é Ouro derretido ou completamente purificado pelo fogo, a matéria Filosofal, mas esse ouro é necessário que nunca conheceu o fogo. O ouro comum já obteu a sua perfeição e de uma coisa perfeita nada podemos fazer. Assim as fundações da Arte estão no adquirir da terra solar virgem que não tenha mistura de outros metais, nunca tendo provado o fogo. Pois tão depressa passe pelo mesmo é roubada da sua virtude vegetativa, mas tem de ser reduzida na primeira matéria.

(…)

Pergunta 11. É o labor deste trabalho difícil?

De forma alguma. Enquanto a natureza operar o Artista é sereno. E quando a natureza descansar o Artista trabalha destilando separando, purificando e reduzindo o assunto na matéria prima, que é feito em quatro, cinco ou seis horas. O resto da operação ele sujeita a um calor subtil e gentil. Fervendo-o o tempo necessário até alcançar uma fixação perfeita. Se for usado carvão devem ser colocados novos a cada 5 ou 6 horas, mas se for utilizada uma vela não se deve ter menos cuidado ao usá-la, até mesmo um rapaz o pode fazer se ele for de boa compreensão pois nada pode ser mais facilmente feito que a Pedra Filosofal.

Pergunta 12. Não existem mais mentiras dos sofistas?

Tudo o que está escrito, excepto o que eu tenho discursado aqui são mentiras e seduções e tinha sido melhor que tivessem mantido a paz. Eles podem injuriar-me e amaldiçoar-me por ter escrito tão abertamente. Em nada estimo as suas maldições elas podem cair sobre as suas próprias cabeças, porque eu escrevi para a honra de Deus e pelo amor aos meus vizinhos. Pois Cristo disse não faças aos outros o que não queres que te façam a ti. Se esta lei tivesse uma maior influência, a caridade cristã não seria tão pouca.

Os Filósofos mantiveram em silêncio a multiplicação. Portanto, errei várias vezes até que, finalmente, pela minha experiência, aprendi e descobri que o brilhante é o verdadeiro método na multiplicação. Se eles não tivessem sido tão invejosos, eu teria colhido muito mais cedo os frutos dos meus trabalhos e usei o mesmo para o louvor de Deus e ajuda aos pobres: Mas a sua inveja ofereceu grande obstáculo ao meu trabalho.

Os Filósofos mantiveram em silêncio a multiplicação. Portanto, errei várias vezes até que, finalmente, pela minha experiência, aprendi e descobri que o brilhante é o verdadeiro método na multiplicação. Se eles não tivessem sido tão invejosos, eu teria colhido muito mais cedo os frutos dos meus trabalhos e usei o mesmo para o louvor de Deus e ajuda aos pobres: Mas a sua inveja ofereceu grande obstáculo ao meu trabalho.

Adeus
Isaac Newton

Em Newton terminou um ciclo, em Newton iniciou-se um ciclo. Newton o último dos grandes alquimistas, Newton o primeiro dos grandes cientistas.

Passaram quase trezentos anos desde o falecimento de Isaac Newton e ao jeito daquelas curiosidades da vida, aquele que ficou conhecido como o século das luzes levou consigo aquele que a revelou.

“Se vi mais longe foi por estar de pé sobre ombros de gigantes.”
Isaac Newton

João António Ramos Ferro
Diretor da Nova Acrópole Aveiro.

João António Ramos Ferro

Diretor da Nova Acrópole Aveiro.

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