A exaltação da aretê em Aristóteles e o sentido de contemplação através de nous

As origens constituem um grande mistério. Como teve origem a primeira célula? A primeira árvore? Pergunta-se o povo: que surgiu primeiro o ovo ou a galinha? E um dos símbolos mais espectaculares desse mistério é a semente. A semente que pode durar milénios, mas quando se cruza com a terra, morre para ressurgir como árvore, flor e fruto. Entra no ciclo de vida de onde surgirão novas sementes. Sementes que contêm em si o programa-de-vida-a-desenvolver. Esse é um dos grandes mistérios das origens, na origem a semente já tem em potência todo o programa-de-vida-a-desenvolver, a sua identidade. Cruza-se com a terra e começa o processo de manifestação, a passagem da potência ao acto, como diria genialmente Aristóteles.

Se fizermos a analogia com o ciclo de manifestação de uma civilização, veremos o mesmo processo, primeiro surgem as sementes, os arquétipos históricos moldados inicialmente por uns misteriosos pioneiros que actuam nos bastidores do palco da história, essas sementes são cruzadas com a terra da história e dão início ao grande ciclo dessa civilização que, normalmente, integrará uma série de ciclos menores. Assim, poderemos olhar a nossa civilização ocidental como um ciclo menor do grande ciclo do mistério grego. Quando surgem as charneiras na curva do tempo histórico, deixa-se de observar directamente o sol arquetípico, e abre-se uma fenda no tempo histórico propício a uma nova leitura das origens, dessas origens onde está o programa-de-vida-a-desenvolver desse ciclo de civilização. Essa fenda está hoje aberta, um kairós de reencontrar as raízes e delas extrair a inspiração para cruzá-la com os novos tempos. Essas raízes são gregas. O laboratório grego de que falava Jorge Angel Livraga. Naturalmente, esse laboratório recebeu influência do arco indo-europeu e dos grandes Mistérios do Egipto, mas criou a sua identidade peculiar.

Kairós. Creative Commons

Aristóteles estava imerso nesse fogo grego. Naquela mítica visão heroica da vida que já inspirara os fundadores de Atenas no tempo de Cécrope, lutando corajosamente contra os povos do mar há cerca de onze mil e quinhentos anos. Esse culto do valor, do raio de Zeus, da força interior é transversal a toda a história da cultura grega. Aí estão os épicos heróis de Homero, a Íliada que modelou o espírito de Alexandre. No Templo das Ninfas, em Mieza, Aristóteles ministrava uma educação global ao filho de Filipe, não o deixando de inspirar com a epopeia homérica, da qual lhe ofereceu um exemplar. Assim Alexandre tomou como modelo Aquiles.

Estava claro, sem heroicidade não havia acesso à sabedoria. Sem aretê não há teoria, sem virtude ou poder interno, não há contemplação da verdade. Em geral, hoje perdeu-se o verdadeiro sentido de teoria, thea+horo, acto de ver, através da visão, filosoficamente, «contemplação». Esta é uma das colunas essenciais do génio grego. O culto do herói que possui a aretê e a procura da contemplação.

Héracles que vence todas as provas e tem acesso aos pomos da imortalidade. Orfeu mestre da harmonia, também ele argonauta na demanda do velocino de ouro, avatar dos divinos brinquedos de Dionísio. Com toda a sua singularidade, Aristóteles não deixa de ser um representante desta tradição.

Como é sabido Aristóteles deveu a sua formação estrutural àquela especial confraria criada em honra de Apolo e das Musas imortalizada pelo nome de Academia. Um verdadeiro campus transdisciplinar de educação e estudos filosóficos fundado por Platão, depois de este regressar de uma estância de doze anos no Egipto, se seguirmos o relato de Diógenes de Laércio. Após a morte de Platão, Aristóteles e outros platónicos encontram em Hérmias um singular protector. Este soberano grego de Atarneu concede a cidade de Assos aos platónicos Erasto e Corisco, onde Aristóteles e Xenócrates também vêm a ocupar um lugar de destaque na sua direcção. Dois anos depois, conhece Teofrastro e encontramo-lo na escola de Mitilene onde se casa com a filha de Hérmias. Este mesmo Hérmias que intercede junto a Filipe da Macedónia para que venha a ser o educador do seu filho. Anos mais tarde fundaria a sua própria escola num local em Atenas dedicado a Apolo Lykeios, daí o seu Liceu – o mesmo Apolo de tão profunda ligação a Platão. E assim no Laboratório Grego lança-se à terra a semente do que se tornaria a ciência moderna. Por que razão a Academia pós-platónica não soube integrar o génio de Aristóteles? Será porque o pensamento de Aristóteles se desviou dos princípios fundamentais propostos pelo mestre fundador, ou porque os sucessores de Platão não têm a capacidade de integração das novas pesquisas do fundador do Liceu? O certo é que a Academia viria a tornar-se um centro de cepticismo totalmente anti-platónico e o neoplatonismo de Alexandria integraria Aristóteles nas suas escolas, um exemplo disso foi a escola do divino Próclo em que o neófito dedicava os seus dois primeiros anos a estudar a filosofia de Aristóteles, como preâmbulo do estudo aos altos níveis do platonismo sintetizado com a teurgia oriental.

A escola de Atenas, Rafael. Wikipedia

Regressando a Hérmias, este fora preso pelos persas e forçado pela tortura a divulgar os projectos secretos de Filipe da Macedónia, o que nunca o fez, resistindo heroicamente. Antes de ser executado pediu aos persas que transmitissem aos seus que tudo fez para não trair a filosofia. Veja-se a força da filosofia na época, que levava um político a tal acto heróico. E como a filosofia estava fundada numa aretê viva, poder interno que permitiu aos gregos continuarem com o progresso da sua civilização apesar das várias tentativas de conquista do imenso império persa. É notável a heroicidade e inteligência dos gregos que lhes permitiu a vitória nas Guerras Médicas.

Aristóteles comoveu-se com a grandeza de Hérmias e dedicou-lhe um belo hino a aretê:

Hino a aretê, em honra de Hermias, filho de Atarneu

Ó Aretê, laboriosa de conseguir para os mortais,
nobilíssima parte da vida,
por tua formosura, ó Virgem,
é morrer na Hélade um glorioso destino,
e toleram-se cruéis e incessantes trabalhos.
Semelhante é o fruto que tu gravas nas mentes,
imortal, preferível ao ouro,
mais querido que os pais,
e o dócil raio do sono.
Por tua causa, o filho de Zeus, Héracles, e os filhos de Leda,
muitos trabalhos sofreram,
alcançando o teu poder.
Com o mesmo escopo Aquiles
e Ajax rumaram ao Hades.
Pelo amor à tua formosura, o filho de Atarneu
deixou viúva à luz do sol;
por isso as suas façanhas serão cantadas e as imortais Musas,
filhas de Mnemósine, a memória, aumentarão a majestade de Zeus Hospitalário,
em homenagem à firme amizade.

Arete, Éfeso. Flickr

Aristóteles, verdadeiro heleno, formador do quase-divino Alexandre, grato e verdadeiro fiel da amizade, como o mostra outro poema por si gizado em honra de Platão:

De caminho à ilustre terra de Cecropia
Piedoso edificou um altar à venerável amizade
Ao homem a quem aos miseráveis não está permitido louvar
Só entre os primeiros mostrou claramente
Com a sua vida e discursos racionais
Como o homem alcança o bem e a felicidade conjuntamente;
Agora ninguém pode deixar de conseguir estes feitos.

Atingir o bem é atingir e banhar-se na felicidade que não depende da circunstância (eudaimonia). Bem (agathón) como sol espiritual, felicidade como acto da potência interna.

Evidentemente, em Aristóteles nota-se a fragmentação do fio de Ariana que pode unir os diferentes níveis do ser, por exemplo entre a contemplação noética, a mais alta vivência acessível ao Homem segundo Aristóteles, e o saber fronético (de phronésis), que permite conhecer a medida, ter o discernimento para a realização poética, a praxis da conduta, em plena harmonia. Fronética, a sabedoria aplicada.

Com a sua mente prodigiosa, Aristóteles vai radiografar o mundo em diferentes dimensões, do que chama a physis (natureza), anima (alma), política, condução da pólis, etc. Nessa análise portentosa, germe da indução científica, o Uno espraia-se na multiplicidade e esquece-se aristotelicamente de si próprio. Terão de vir os neoplatónicos recuperar o Uno e o sentido das grandes leis cósmicas que regem todo o universo. Mas a sua marca e suas aporias, causaram um forte impacto na história do pensamento ocidental, que ainda não chegou a um terceiro incluído, onde as melhores inspirações de Aristóteles fiquem integradas num sistema aberto que, como a história o tem provado, terá de ser platónico. Veja-se um exemplo magnífico da abertura e flexibilidade do platonismo: Platão considerava a pintura como a sombra da sombra, a caverna da caverna, mas nem por isso os grandes génios neoplatónicos da Renascença o deixaram de ser e de assim dar um forte contributo à odisseia do pensamento platónico, apesar de considerarem a arte da pintura como um meio de atingir os divinos arquétipos. O aristotelismo tem criado ao longo da história sistemas fechados, que não resistem à natural necessidade de renovação.

Platão e Aristóteles, Florença. Wikimedia Commons

Vale a pena, no entanto, recordar alguns dos seus textos sobre nous, o intelecto. Mais uma vez aqui a responder à tradição grega de raiz órfica, segundo a qual Zeus era considerado como símbolo de nous. Conceito que depois seria divulgado por Anaxágoras. Para Aristóteles nous está separado de qualquer mescla e é imortal, podendo assim ser autónomo e independente de qualquer circunstância. Muito interessante é também a comparação de nous com a luz – nous usualmente traduzido em português por «intelecto».

«(…) nous está isento de qualquer mescla (…). Têm razão os que dizem que a alma é o lugar das formas ideais, só que tal não se diz de toda a alma, mas só da alma pensante [nous na alma].»
De anima, I, IV

«De facto, de um lado, está o intelecto que tem a potencialidade de ser todos os objectos, do outro, o intelecto que produz a todos, como se fosse um estado semelhante à luz, já que, desde uma certa perspectiva, a luz converte em cores em acto as que só o são em potência. E esse intelecto [nous] está separado, é impassível e carece de toda a mescla, pois na sua essência é acto. O agente é sempre superior ao paciente e o princípio à matéria. A ciência em acto é idêntica ao seu objecto; a ciência em potência é – relativamente ao tempo – anterior no individuo; (…) Separado do corpo só é o que cabalmente é, a saber, imortal e eterno.»
De anima, I, 5

Temos, assim, duas dimensões de nous: nous como toda a potencialidade, o kaos dos antigos, e o nous que recorda o fiat lux e tem a capacidade poética de converter em acto o que está em potência no kaos.

Neste sentido, é tanto feliz como amado dos deuses quem exercita a sua capacidade noética:

«Aquele que exercita o seu nous e o cultiva parece ser o melhor constituído e o mais amado dos deuses. Com efeito, se como se crê os deuses têm algum cuidado com as coisas humanas, será também razoável que se comprazam com o melhor e o que lhes é mais afim, e isto tem de ser o nous, e que correspondam com os seus benefícios àqueles que mais os amam e honram por se ocuparem do que os deuses apreciam e obrarem recta e belamente. Que tudo isto acontece com o sábio é bem claro. Por conseguinte, ele será o mais amado dos deuses, e sendo-o, será com verosimilhança o mais feliz.»
Ética a Nicómaco, 1179a

Praticar a aretê, desenvolver a capacidade noética, estar na companhia do divino, eis uma bela perspectiva do legado grego, fonte ainda viva de ideias-semente a lançar nos sulcos da nova história.

Paulo Alexandre Loução

Paulo Alexandre Loução

Diretor da Nova Acrópole em Oeiras-Cascais

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