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Adam Smith vs. Platão: sobre a Divisão do Trabalho e das Forças de Mercado

No Livro II da República de Platão, Sócrates imagina como uma sociedade típica, pode evoluir de um começo simples para uma entidade mais complexa e organizada. Ele especula que, inicialmente, todos poderiam fazer tudo por si mesmos, como construir as suas casas, confecionar as suas peças de roupa e cultivar os seus próprios alimentos.
Mas em breve, diz ele, as pessoas perceberão que seria muito mais eficiente, se certos membros do grupo se especializassem em determinados negócios. Desta forma, construtores, alfaiates e agricultores surgiriam como mestres de competências especializadas, que poderiam ser trocadas com outros membros do grupo, por bens, serviços ou dinheiro.

Xantipa, Arquétipo da Mulher Filósofa e da Mulher do Filósofo

Era uma vez uma mulher… Seria simples? Seria quem? Seria o quê? Xantipa carrega um nome com um legado pesado. Este trabalho é uma abordagem a esta personagem histórica esquecida, só lembrada para tudo o que é negativo na mulher. Mas quem era? A única fonte aparentemente mais directa seria Platão, que, até há quem especule, teria uma paixão pela mulher do seu Mestre. Muito se especula acerca desta mulher, mas quem é ela realmente para cada um de nós? “Quem é Xantipa para mim?” Esta é uma pergunta que deveremos fazer.

Em Busca do Tempo Perdido

Evidentemente, referir-se a “tempo perdido” não é algo que nos permita fazer uma exposição científica detalhada, ou que nos permita oferecer muitos dados concretos, tal e como agora se usa. Há que estabelecer a diferença, e penso enfocar o tema com singeleza, como se me encontrasse naquelas classes mais reduzidas de discípulos. E como às vezes é difícil falar simplesmente, falar desde o coração, não deveríamos medir tanto os números que devem ser lembrados e, em vez disso, deixar correr um pouco mais essa inspiração interna que todos levamos dentro. Penso que falar do “tempo perdido” é referir-se a um tema que diz respeito, de maneira direta à nossa filosofia prática. Como filósofos, como seres ansiosos de saber um pouco mais, interessa-nos descobrir o valor que se encontra dentro de todas as coisas. Indubitavelmente, o tempo assume um valor muito importante e é sobre isso que devemos falar. Como filósofos não estamos apenas interessados em referirmo-nos aos valores que encerram as coisas, senão que queremos recuperar esses valores. Então, também queremos recuperar esse “tempo” que singelamente sabemos e sentimos que temos perdido…

Valores Filosóficos para os Idosos

Devido ao envelhecimento da população em muitos países, as nossas sociedades têm falado de um fenómeno que pode afetar a convivência e gerar novas formas de exclusão. Tem sido chamado de idadismo, palavra que designa uma maneira de classificar as pessoas por idade. Aplicada aos idosos, gera um tipo de discriminação baseado num sentimento que se está a impregnar nestas sociedades sem alma e materialistas: encurralar os idosos, como algo inútil e irritante, considerá-los inúteis, isolá-los e ignorá-los. Esta atitude causa estragos nos idosos: prejudica a sua autoestima, porque se sentem excluídos, com as suas consequências de depressão, dificuldades em adormecer, sem esquecer os seus efeitos na sua saúde física.

As Formas Mentais

Cada um de nós e o nosso entorno assume uma realidade sensível de acordo com a forma como é pensada. Isto não muda os Arquétipos que nos esperam no final do Caminho, como Platão brilhantemente explicou, mas a nossa intenção neste artigo é nos referir, não ao Logos ou à Ideia Divina que como um timoneiro rege o progresso do Universo de forma inteligente e que se reflete nas estrelas e nos átomos, mas à parte humana que temos que viver, pessoalmente, nos limites do nosso espaço-tempo. Não devemos ser egoístas, mas não podemos deixar de ser egocêntricos. Protágoras dizia que “O Homem é a medida de todas as coisas”, e com isso ele referia-se não apenas à consciência humana e ao Universo, mas até mesmo o seu corpo físico, que lhe dá uma noção do pequeno e do grande, do próximo e do longe. O Homem-microcosmo é em si mesmo uma imagem viva desse Deus-macrocosmo no qual É e Está.

A Inevitabilidade da Luz Astral

Muitas vezes, ouvimos e lemos sobre os conceitos mais diversos, havendo alguns que nos perseguem, na busca do seu mais profundo entendimento. A escolha deste título parece complicar ainda mais as coisas, mas é a nossa proposta para iniciarmos uma pequena viagem filosófica, em redor de um conceito, nem sempre devidamente assimilado, no quadro da nossa condição evolutiva. As dinâmicas da nossa natureza septenária são tão intensas, enredadas e complexas, que nos impelem de focalizar grandes estados de discernimento, para contemplarmos de facto a conquista do Céu. Encontramos imensos obstáculos no caminho para alcançar esse desiderato, reconhecendo que vivemos mergulhados numa corrente cármica de múltiplas existências, cujos registos interferem, sem nos darmos conta, com a existência atual. Confrontamo-nos então, com o conceito de Luz Astral (purificada ou corrompida), conscientes por um lado, de que não nos podemos evadir da sua presença, humildemente sagazes, por outro, quanto à necessidade de afastar a sua idolatria. Segundo o dicionário teosófico, a Luz Astral é uma região invisível que rodeia o nosso globo, e que corresponde ao Linga Sharira ou ao Duplo Astral no Ser Humano, no qual as emanações repugnantes da Terra, das quais a Luz Astral se alimenta, são todas convertidas numa essência mais subtil, que irradiam de volta uma energia congruente com a geração de epidemias, morais, psíquicas e físicas.

Magos, Profetas e Videntes

Estamos no ano de 1986. O século XX caminha inexoravelmente para o seu ápice e, com ele, as eternas questões do homem… porquê a vida? porquê a dor? Neste século, o homem tornou-se um autómato valorizado pela sua capacidade produtiva, onde nem sequer manobra a qualidade do produto, já que esta foi previamente definida pelo programador da cadeia produtora. A juventude está presa entre as suas manipuladas «reivindicações» e o colapso produzido pelas suas permanentes «crises»; os jovens são presa fácil do desespero e do falso incentivo das drogas. Eclodem por toda a parte, uma multitude de lutas facciosas, protegidas por esta ou aquela bandeira, defendendo diferentes ideologias políticas ou proclamando diferentes credos religiosos à humanidade. Contudo, à medida que se aproxima o fim dum milénio, surge uma nova doença: o medo do desconhecido, do que está por vir…. Pode sentir-se no ar e adivinha-se sob a falsa racionalidade. As mesmas profecias e teorias que os homens têm difamado e ridicularizado são as que agora olham com olhos temerosos e cheios de suspeita. Basta dizer que, por exemplo, sob o impulso da religião católica há um massivo retorno ao exorcismo com a finalidade de salvar as almas dos fiéis «demonizados», e até mesmo algum futebolista declara vítima de um feitiço ou encantamento que o impede de realizar o seu habitual nível de jogo: o cúmulo!

Heitor, em Busca da Felicidade: um Filme para Refletir

Heitor, cujo nome nos lembra o grande herói troiano, é um psiquiatra com uma vida «sonhada», mas monótona; não tem grandes complicações financeiras, no trabalho ou nos seus relacionamentos. Oprimido por essa rotina, reconhece um dia que precisa de alguma mudança e em consulta com os seus pacientes percebe algo fundamental: poderia prescrever-lhes todos os medicamentos existentes, mas não poderia deixar os seus pacientes felizes e realizados, principalmente porque ele não o era. Lembrando-se do antigo ensinamento de que não se pode transmitir o que não se aprendeu, decide iniciar uma viagem de «estudo» para experimentar a felicidade de acordo com distintas culturas.

O Mito, a Profecia, a Ciência e a Linguagem Simbólica

A sociedade do nosso tempo, confronta-se sistematicamente com a natureza das fontes para credibilização do conhecimento. As fontes do conhecimento são frequentemente confundidas com as fontes de opinião e de informação, que tendem a causar, ainda mais desordem no seio da Humanidade, pela conflitualidade da avalanche dos fluxos informativos, geradores de múltiplos focos de tensão entre essas próprias fontes. A civilização atual parece incapaz de criar novos mitos, sobretudo aqueles que teriam a capacidade de construir as pontes entre os diversos ramos do conhecimento. É cada vez mais necessário olhar o Todo, sem perder de vista o particular, e exercitar a visualização dos elos mediadores, para capacitar gradualmente a Humanidade, com a compreensão dos fundamentos para a sua existência. Foram os mitos que chegaram até nós, que impulsionaram o ímpeto científico, pois ambos têm a mesma origem, sendo duas faces da mesma moeda.

Miracolous, as Aventuras de Ladybug e o Triunfo do Esoterismo

No final do século XIX, a grande H. P. Blavatsky, autora de A Doutrina Secreta e Ísis Sem Véu, comentou que no século seguinte o Ocultismo triunfaria e que este encheria, para o bem ou para o mal, todas as facetas da vida. Entendemos por Ocultismo os ensinamentos das Escolas de Mistérios, dados como tesouros, um a um, segundo o despertar moral e intelectual da humanidade, como sucedeu com as obras desta autora. No entanto, ao sair do Santuário e até descerem mais abaixo da mente filosófica, são ensinamentos geralmente pervertidos, manipulados pelo vulgo, adulterados, prostituídos por interesses egoístas e sectários, fragmentados contranatura, etc. Mas, no final, os ensinamentos são ensinamentos, mais além do que entendemos deles e o que façamos, que abrirá mais e mais ou fechará mais e mais a nossa mente e o coração. Que estes ensinamentos entrem no quotidiano e no imaginário popular pode ser uma grande inspiração ou pelo contrário, nefasto às vezes. Como tudo, depende de quem, o quê, quando e como.

O Movimento dos Astros e das Ideias, entre o Céu e a Convicção, na Busca pela Verdade

A Ciência é uma construção humana que tem como propósito explicar o funcionamento do mundo. A vaidade e o ego humanos criam a ilusão de que estamos a desvendar, aos poucos, as leis da Natureza. No entanto, todas as leis descobertas, mesmo que sejam extraordinárias, tais como as Leis de Newton ou a Teoria da Relatividade de Einstein são válidas dentro de determinados limites. Haverá sempre algo sem resposta com as nossas teorias e que levará a outras teorias.
A visão que temos do mundo depende daquilo que podemos ver e/ou medir. A teoria geocêntrica é prova disso. Na verdade, devemos admitir que existirão sempre aspetos da Natureza inalcançáveis com os nossos instrumentos. Basta pensar que estando nós dentro da Natureza, haverá sempre algo no seu exterior que será desconhecido.
A história da Ciência está repleta de avanços significativos, contudo registaram-se atrasos provocados por equívocos, preconceitos, abordagens inadequadas, ideias fixas, resistência à mudança ou ainda pela influência social e cultural. De facto, as crenças culturais ou religiosas, quando profundamente enraizadas, são difíceis de erradicar. Também um número de evidências insuficiente ou pouco convincentes pode conduzir a uma estagnação das ideias. Na verdade, vencer a inércia das ideias é um desafio.

Mãe e Filho: Um só Corpo.

Michelangelo e os Mistérios da Maternidade Divina

É uma discussão que atravessa três milênios, aquela sobre a real natureza da concepção virginal de Maria de Nazaré, e em até que ponto a existência carnal de Jesus a deva o mérito da genética. Uma das mais aceitas visões cristãs sobre o fenômeno entende que coubera apenas à Maria a transmissão do elemento corpóreo a seu filho, Jesus. Em sendo assim, ele seria, cromossomicamente, a versão biologicamente masculina de sua mãe. Sobre esta questão, eu cheguei a desenvolver em 2021 um projeto envolvendo inteligência artificial a reproduzir como seria o rosto da Virgem a partir da reconstrução do de seu filho, segundo as marcas do Santo Sudário de Turim.

Retrocausalidade: O Futuro Vindo na nossa Direcção

Este mundo é cheio de paradoxos. Entre muitos, um deles foi até há pouco tempo remetido para as catacumbas do desconhecido e do indecifrável. Refiro-me ao paradoxo EPR ou paradoxo de Einstein-Podolsky-Rosen, base do abismo profundo que tem separado até aos nossos dias a Relatividade Geral da Mecânica Quântica.

No seu âmago residem duas concepções do mundo: uma ligada ao macrocosmo, a outra inerente ao microcosmo, ambas mantendo razões, pontos de vista e instrumentos de análise irredutivelmente próprios que não permitem conciliações teóricas e práticas, cada uma descrevendo o seu mundo à sua maneira. E ambas funcionando correctamente dadas as circunstâncias certas. Aliás a mecânica newtoniana continua a singrar nos domínios do aeroespacial e dos jogos de guerra.

Um dos pressupostos que as manteve afastadas era a ideia da existência do fenómeno de emaranhamento quântico que implicava a transferência de informação a velocidades instantâneas, supralumínicas, que colidiam com o limite imposto pela velocidade da luz de 299.792.458 metros/segundo. A interpretação da mecânica quântica da Escola de Copenhaga no que dizia respeito ao fenómeno do colapso da onda em partícula, implicava a existência de um “entanglement” ou emaranhamento instantâneo em todo o espaço.

Os Dólmenes de Antequera

A região de Antequera, no centro da Andaluzia, encruzilhada entre a Andaluzia atlântica e a mediterrânica, entre as populações do vale do Guadalquivir e os das montanhas béticas, é muito rica em sítios pré-históricos, a maioria deles muito desconhecidos. O mais impressionante é o complexo dolménico de Antequera, localizado na entrada da cidade (vindo de Málaga), constituído por três edifícios: os dólmenes de Menga e Viera, que estão localizados um ao lado do outro (recinto 1), e os tholos del Romeral, separados dos anteriores por 4 km (recinto 2), na direção à Peña de los Enamorados. Realmente, o Conjunto Arqueológico dos Dólmens de Antequera, reconhecido como Património Mundial da UNESCO em 2016, inclui, além dos três dólmens, dois elementos da paisagem que estão intimamente ligados a eles, que são a Peña de los Enamorados e o Torcal de Antequera. Também inclui o Cerro de Marimacho (recinto 1), local ainda por escavar e estudar minuciosamente, mas onde foram encontrados restos que nos fazem pensar no povoado dos construtores dos dólmens.

O Eterno Mistério: os Templários

Voltemos no tempo, imersos no nostálgico sonho, para despertar na sagrada terra de Jerusalém, ao ponto de extasiarmos na contemplação de como o sol dá vida com a sua luz às igrejas cristãs, às mesquitas árabes e às sinagogas judaicas, testemunho todas elas de um verdadeiro Céu Universal.

O rei Balduíno II está sentado no seu trono olhando com gesto complacente para o cavaleiro que, no meio dos sons de ferro e clarins, fez ranger as lajes de pedra ao cravar o seu joelho na terra. É uma manhã de primavera no ano da graça de 1118 e o cavaleiro que está de cabeça inclinada chama-se Hugh de Payns. Atrás dele, brilham os olhos acerados de Godofredo de Saint Omer, e alguns passos mais atrás estão outros sete cavaleiros que levam os seus nomes escritos nas laminas das suas espadas: Godfredo Bisoi, Godfredo Roval, Pagano de Mont Didier, Archembaldo de St. Amaud, Andrés de Montbard, Fulco d’Angers e Hugo I, Conde de Champagne

A Intuição

Além do pensamento racional que trabalha com as ideias, do qual falamos como estruturando a mente, existe no homem outra forma de pensamento mais subtil, que é a intuição. A primeira forma estende os seus fios para conhecer: o raciocínio; a segunda capta diretamente: é a intuição. Esta segunda possibilidade de conhecimento relacionamos diretamente com a inteligência. Maya, uma vez mais, trocou os fios do seu jogo, e faz-nos crer que inteligência é uma certa habilidade e destreza que vai desde o físico até ao espiritual. Ser “inteligente” é ser “desperto”, rápido, ágil nas reações e, portanto, os homens esforçam-se em desenvolver a inteligência como se se tratasse de uma competição atlética mental. Contudo, a inteligência é um dom de maior penetração; é mais que pensar e raciocinar; é muito mais que responder rapidamente aos estímulos; é poder captar a vida para além da superficialidade com que se nos apresenta. É reconhecer os factos e discernir sobre eles. Inteligência é saber escolher e, ainda mais importante: selecionar entre muitas outras oportunidades, separar o bom do mau, o útil do inútil. Tudo isso é inteligência, tudo isso é trabalhar com a intuição.

Unidade na Diversidade – Lições do Reino Animal

Venho do mundo limitado dos negócios, governado por regras financeiras e de gestão em constante mudança. Portanto, não tenho qualificação formal para escrever um artigo científico sobre o mundo natural ilimitado do Reino Animal. O meu estudo de filosofia, entretanto, levou-me a investigar vários aspetos da ecologia e da sustentabilidade e este artigo é o resultado das minhas observações e reflexões. Ninguém planta sementes, ninguém fornece água, ninguém dá nutrientes, ninguém gera resíduos, ninguém cura doenças. Mas mesmo na ausência de alguém para gerir ou controlar, os ecossistemas das florestas, constituídos por flora e fauna diversas, funcionam como um sistema autossustentável e autoequilibrado. Isto ilustra uma das mais importantes leis eternas da Natureza, descrita pelas tradições em todo o mundo como uma lei da própria Vida: o princípio da Unidade. Tudo parece estar interligado, interrelacionado, tudo é resultado de uma causa e tem efeito no todo, tudo é Um.

Pinceladas de Estética na obra de Wagner: Os Mestres de Nuremberga (I)

Numa das cenas mais engraçadas deste drama musical de Wagner, Beckmesser, um dos mestres cantores que aspira ao prémio humano do concurso, a jovem e bela Eva, começa na sua canção a alterar e dizer incoerências, uma sequência de estupidezes, um ato de loucura. E é lógico que assim seja, porque ele está possuído pela paixão de conseguir a mão de Eva a qualquer preço, ele roubou a letra da dita canção na casa de Hans Sachs (o poeta, sapateiro e protagonista desta ópera), ele não a sabe bem de memória, não entende o sublime das suas imagens, porque a sua mente é estreita, o seu temperamento não é artístico, e o seu caráter é vil e egoísta, ganancioso e mesquinho… e não tem o menor direito moral de aspirar sequer ao prémio, que é o futuro, a felicidade e o dote de Eva. No final, todas as pessoas riem e zombam dele, porque o que fez, embora temporário, não passou de um ato de loucura.

Profecias sobre o Fim do Mundo. Primeira Parte

Gostaria de começar esta palestra lembrando que esta questão das profecias é uma espécie de necessidade humana. Os homens de todos os tempos, dentro do que conhecemos, – e mesmo no que poderíamos chamar de proto-história, isto é, a parte não suficientemente conhecida do passado humano -, quiseram saber o que iria acontecer no futuro. É algo humano, é algo que todos precisamos saber: o que vai acontecer? Este facto está enraizado no problema do tempo. É muito difícil definir o que é o tempo; ainda hoje sabemos que o tempo não é igual em todos os lugares do espaço, nem é igual para todas as pessoas. Haverá um tempo físico, um tempo psicológico e um tempo mental. Quantos de nós já estivemos, talvez, um dia muito felizes, muito confortáveis, e dizemos que aquele dia voou, que parece que aquele dia não teve 24 horas, mas muito menos? E quantas vezes, por outro lado, quando estamos doentes ou quando temos um problema, ou quando um familiar está moribundo, sentimos que esses dias são longos, infinitamente longos, que depois lembramos não como se fosse um dia, mas como se fossem muitos dias?

Uma Arqueologia da Noite. Segunda Parte

O nosso laboratório, ou melhor, o nosso museu interior deve ser um museu tendencialmente vazio de peças, que se aprofunda na noite e se engrandece para o dia, mas vazio, digno da presença de Deus apenas. Mas para isso, temos de aproveitar este tempo nocturno e não ter medo de fazer perguntas ao seu interior, não temer cair pela frágil escada do crescimento hipócrita, e não temer arrancar a mais identitária das máscaras. Mais vale espreitar-se timidamente por uma cara de pecador que se deseja arrancar do que fechar os olhos dentro de uma máscara de virtudes que se quer manter, por maiores que sejam estas virtudes, porque, por não serem nossas, quando se forem, arrancar-nos-ão a insubstituível face, e o peso que sentiremos depois não desaparece. Com a experiência, a noite interior há-de converter-se numa metodologia, num conjunto de técnicas para a prospecção, escavação e análise, no mais real e brutal dos métodos invasivos, doloroso, é certo, porque pressupõe sempre a destruição do sítio arqueológico. O próprio frio da noite congela-nos, endurece-nos, só para nos estilhaçar depois, mas faz parte do processo de identificação e de levantamento de dados, se somos feitos disto ou daquilo, quantos pisos temos, o que o habita, onde e há quanto tempo, o que é passivo, organizado, perturbado, resoluto e até divino.

Fundamentos Filosóficos da Ecologia

A cada 22 de abril celebra-se o Dia Internacional da Mãe Terra. Este ano fará quase meio século que se comemora, no entanto, são poucas as mudanças conseguidas para tornar a nossa relação com o nosso planeta sustentável. Algumas destas mudanças deverão ser tão profundas que poderemos não estar dispostos a adotá-las, indo contra a nossa vontade de manter uma forma de vida e um ideal de felicidade e de desenvolvimento baseados no consumo, no conforto, na ganância, na necessidade de ter cada vez mais e mais de tudo, em lugar de explorar outras formas de ser e de estar na Terra.
Neste artigo pretendo compartilhar algumas reflexões em torno do pensamento dominante fundamentalmente nos séculos XIX e XX, e nas ideias emergentes que vão ao encontro de muitas das abordagens às necessidades tradicionais de grande parte dos povos da Terra.
A ecologia, como ramo da biologia que estuda as relações dos seres vivos entre si e com o meio envolvente, é relativamente jovem como ciência. Nasceu em 1869, no entanto, o termo engloba algo de crucial importância: as relações do ser humano com a natureza, das ideias e atitudes que deram origem a essa relação e as consequências que decorrem do nosso comportamento face aos outros seres vivos e ao próprio planeta. Esta é a proposta filosófica: proporcionar diferentes formas de compreender e de nos relacionar com a Terra, tanto nas culturas ancestrais como atuais.

O Herói de Mil Faces. Primeira Parte

Este é o título de uma obra publicada em 1949 pelo mitólogo, escritor e professor americano Joseph Campbell, onde analisa a partir da mitologia comparada a estrutura mitológica da jornada do herói arquetípico que podemos encontrar nos mitos de diferentes povos ao longo da história da humanidade. O professor Campbell constata que as narrativas mitológicas geralmente compartilham uma estrutura fundamental, o que ele chamará de monomito ou jornada do herói, que poderia ser resumida da seguinte forma: “O herói começa a sua aventura a partir do mundo conhecido, recebe o chamado à aventura que o leva a uma região de maravilhas sobrenaturais, ele enfrenta forças fabulosas num caminho de provações, onde evidentemente será testado e em algumas ocasiões receberá a ajuda de um aliado, e obtém uma vitória decisiva. Então o herói retorna da sua misteriosa aventura com a capacidade de conceder dons a seus irmãos.” Este processo tem fundamentalmente três etapas: a partida ou separação, que é quando o herói parte perante o chamado à aventura (ou à desventura conforme o caso); a iniciação, isto é, as aventuras que o testarão ao longo do caminho; e o regresso, a volta a casa e ao mundo quotidiano, transformado pela experiência.

Uma Arqueologia da Noite. Primeira Parte

Quando a noite cai, é como uma tempestade sobre as águas, é como as aves do rio Estinfalo, que, com as suas grandes asas, ocultam a luz quando se poem a voar. Ela oculta todos os mistérios e dá a todas as coisas a melancolia de uma vida que foi interrompida, aos rios e aos mares, aos montes e aos vales, e até aos Homens. E, por vezes, esta melancolia nocturna penetra-nos tão profundamente, que a preservamos em plena luz do sol. A memória da noite torna-se em nós rainha, impede-nos de ver o dia e só traz consigo a constatação dessa mesma melancolia. É verdade, vivemos tempos nocturnos, mesmo de dia. É como se tivéssemos sido cobertos pelo pó de mil ventos ou pelo fumo de algum grande incêndio, vindo de tão longe, que nos parece vir de todo o lugar.

Do que é feito o Espaço?

O firmamento noturno tem sido uma fonte inesgotável de inspiração para artistas, filósofos e cientistas ao longo da história. A observação e o estudo do céu transcendem tempos e culturas. Não só determinou tradições, influenciando até mesmo o desenvolvimento da vida quotidiana, mas também levantou questões fundamentais para a humanidade: onde estamos neste vasto universo? O que está além do que os nossos olhos podem ver, tanto ao longe quanto no mais profundo?