Sobre a convivência e a cortesia

Em brandos sujeitos governados pelo entendimento, nunca as sem-razões de amor fizeram ofensa às verdadeiras leis da cortesia. – O Pastor Peregrino, Francisco Rodrigues Lobo

A beleza e a profunda riqueza filosófico-moral da obra de Francisco Rodrigues Lobo (1580-1622) contrastam com o injusto esquecimento a que este autor, o maior discípulo de Luís Vaz de Camões(1), se encontra atualmente votado.

Esta breve reflexão incide sobre um episódio particular da novela pastoril O Pastor Peregrino – Jornada Segunda – não sem antes, porém, apresentar uma breve síntese desta narrativa:

O protagonista é Lereno, um pastor que, após ter imprudentemente desvendado o segredo do amor de Sileno (2), terá que cumprir um longo caminho de errância em busca da conquista do Amor ideal. Lereno abandona assim a sua vida pastoril, enverga o traje de peregrino e inicia um longo percurso por lugares incertos, vivendo as suas mágoas, momentos de desespero e de incerteza. A acção desenvolve-se, então, em torno dos encontros e desencontros de Lereno com as personagens que vão cruzando o seu caminho, num cenário de espaços sombrios e invernosos. Através dos seus diálogos e da voz do narrador, o leitor aprecia as mais belas e sábias considerações sobre algumas regras de saudável convivência e hospitalidade, mas também os males, infortúnios e desenganos de amor que sobre todos pesam, estes últimos desembocando por vezes em loucura. Lereno, apesar da sua angústia, desespero e esmorecimento da esperança (secreta) de conquista do amor da sua pastora do bosque desconhecido, a todos recebe com total predisposição para acolher os seus males como se seus fossem, urdindo caminhos de superação e de solução de desenganos.

Perto do final da narrativa, percebemos que Lereno não é o mesmo pastor que partira da sua aldeia e que os espaços geográficos percorridos representam, assim, um movimento de evolução interior do peregrino.

Francisco Rodrigues Lobo apresenta o cognome de “cantor do Lis”, e é considerado o iniciador do Barroco na literatura portuguesa.
Jornada Segunda – sobre a convivência e a cortesia.

Atentemos agora neste episódio em que Lereno encontra um pastor acompanhado de duas serranas, “homem singelo e tão de vidro que se lhe via pelo rosto o coração. E pelo amor com que ele tratava a gente daquela condição, lhe foi de um lanço em outro perguntando da vida e do cuidado que tinha na serra, pois naquela companhia o via tão contente. Ao que o velho respondeu desta maneira:

O maior trabalho que tenho é os pastores com que trato, porque cada um tem ua vontade e um entendimento, e eu me hei-de servir só do meu para com todos. Porém, de tal maneira uso dele que me não dá do sucesso que pode acontecer.

Ao avarento não lhe peço nada, nem lhe aconselho que dê a outrem, nem lhe louvo o não dar nada a ninguém, e assim nem lhe minto nem o molesto. Ao soberbo nem me faço grande por não ficar com ele em contenda, nem aos outros pequenos por que com eles se não alevante mais.

Ao ingrato ou o não sirvo por que me não magoe, ou, quando o sirvo, lembro-me que a sua má natureza não pode tirar o preço à obra que de si é boa. Ao falador calo-me, ao calado descubro-me com tento. Ao doudo não lhe atalho a fúria. Ao néscio não trabalho por lhe dar razão. Ao pobre não lhe devo, ao rico não lhe peço. Ao vão nem o gabo nem o repreendo. Ao lisonjeiro não no creio.

E deste modo com todos estou bem e nenhum me faz mal. Não digo verdades que amarguem nem tenho amizades que me profanem. Não adquiro fazendas que outros me invejem, porque neste tempo das melhores três cousas dele nacem as mais danosas que há no mundo: da verdade, ódio; da conversação, desprezo; da prosperidade, inveja. Sou qual me vês e qual te digo: não quero parecer outro nem ser mais do que pareço.»

O Pastor Peregrino, Francisco Rodrigues Lobo

São as palavras deste pastor que fazem, sem dúvida, jus ao título desta breve reflexão: a sabedoria de vida e a arte de lidar com todos de forma harmoniosa, apesar das diferentes naturezas humanas, na voz de um homem simples e de carácter nobre.

Uma das características desta obra é, aliás, a extrema cortesia no trato entre as personagens que a percorrem, virtude com resultados na resolução dos pesares com os quais Lereno se vai envolvendo. Ações que traduzem, digamos, as “boas maneiras do espírito”. Algo que podemos resgatar da (importante) solidão da leitura para a agitada vida quotidiana, frequentemente agredida com o ruído de palavras excessivas ou com o silêncio de gestos esquecidos.

Rio Lis, Leiria / wikipedia

É para esta dimensão social da vida humana que Francisco Rodrigues Lobo aqui dirige o pensamento do leitor.

Jorge A. Livraga, num belo artigo intitulado A Cortesia (3), refere que a aprendizagem da aceitação da diferença, quer na forma de pensamento, ideias ou acções é uma conquista e, neste sentido, a convivência é uma grande prova pela qual todos passamos diariamente. A cortesia, definida como uma forma de generosidade e de amor, é a regra para a superação desta prova:

“Qualquer palavra ou acção deve estar prudentemente envolvida na nossa capacidade de dar e amar”. Jorge A. Livraga (3).

E esta capacidade de amar e de dar desinteressadamente também é alvo de consideração pelo naturalmente filósofo e pastor da novela em análise: a má natureza de alguém com quem lidamos “não pode tirar o preço à obra que de si é boa” e, neste aspeto, o serrano é assim superiormente fiel ao seu “entendimento”.

E assim se despediu Lereno deste velho pastor, agora com um entendimento maior, claro, e se o seu tão almejado prémio foi alcançado, ficará para o leitor descobrir numa “conversa” com Rodrigues Lobo, sendo que, nas palavras de Descartes, “a leitura de todos os livros bons é como uma conversa com as pessoas mais sérias dos séculos passados que deles foram autores”. (4).

 

Notas e referências bibliográficas:
  • Francisco Rodrigues Lobo nasceu no ano da morte de Luís Vaz de Camões, considerando-se por isso seu natural herdeiro.
  • Este episódio está presente na novela A Primavera da qual O Pastor Peregrino é a continuação.
  • A Cortesia, de Jorge A. Livraga : http://nova-acropole.pt/a_cortesia.html
  • Proust, Marcel (2011). O Prazer da Leitura. Editora Teorema

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Jose Carlos Fernández

El alma de la cortesía es la sinceridad, es ahí donde se convierte en un acto luminoso. La cortesía es la ceremonia que nos permite una recta y bella convivencia, y abre la puerta a su corazón oculto, que es la concordia donde todos, como los instrumentos de una orquesta nos convertimos en parte y ejecutores de una armonía viva, la única que permite el crecimiento del alma humana, como la luz hace crecer las plantas. Bello artículo, también es cortesía no olvidarnos de los que nos han permitido, con sus actos o ensañanzas excelsas, llegar donde hemos llegado como… Read more »

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