Simbolismo e Ideografia

Através do labirinto de ideias com que o filósofo se encontra na busca da Sabedoria, existe um fio de prata que enlaça as verdades eternas. Como Ariana que oferece a Teseu a sua alma para vencer o minotauro, os Mestres estendem para o homem uma escada para subir mais rapidamente ao cume das nossas próprias possibilidades, para ter acesso, ainda que limitado, ao Grande Mistério que subjaz no fundo de todas as coisas e de nós mesmos. Esta escada vertical são os símbolos.

Podemos explicá-los como uma representação que oculta ou vela uma verdade que reside no interior; esta verdade pode ser algo mental, moral ou espiritual. Desta definição, deduz-se que o símbolo é o suporte de um conceito, de uma ideia, a sua alma; quando a ideia o abandona, o símbolo morre, ficando como uma casca vazia e estéril.

Segundo Mario Roso de Luna, o termo símbolo pode traduzir-se como “vestidura” e acrescenta que “um símbolo é uma abstração sintética que nada diz ao profano e tudo revela ao sábio”. Na mesma linha, H.P. Blavatsky comenta: “os relatos explicativos da Doutrina não são senão as suas vestiduras. O ignorante olha só a vestidura e não vê mais além. O sábio penetra mais até descobrir o que aquela vestidura encobre.

O gato solar Mau lutando contra a serpente Apap, símbolo da vitória do espírito sobre os instintos materiais, da luz contra as sombras / Wikipedia

Se entendemos que todas as coisas são símbolos das suas próprias essências, do seu Ser interior, a representação converte-se em símbolo no preciso instante em que aprisiona o Ser do objeto, ou seja, quando transcende as divisões horizontais entre coisa e coisa para descobrir os motores verticais das mesmas. Dito de outra maneira, quando vai mais além do plano material e se conecta ou intui as essências espirituais (a dualidade espírito-matéria costuma ser expressada como o fogo sobre a água, onde o fogo seria símbolo do espírito e a água seria-o da matéria).

Muitas das antigas tradições aparecem na sua maioria veladas em forma de mitos e lendas; a Simbologia adquire então um papel relevante. Mas, para a correta compreensão desta ciência, a simbologia deve ser estudada em cada um dos seus aspetos, tendo em conta que são sete as suas chaves ou divisões e que cada povo tem a sua forma particular de expressão. Portanto, nenhum manuscrito antigo deve ler-se e aceitar-se literalmente. A esse respeito, o poeta e egiptólogo Mr. Gerard Massey afirma: “… a Mitologia é o depósito da ciência mais antiga do homem; quando seja de novo interpretada corretamente, está destinada a ocasionar a morte daquelas falsas teologias a que, sem sabê-lo, deu origem. A Mitologia era um modo primitivo de objetivar o pensamento primitivo e estava fundada em factos naturais. As suas fábulas eram meios de comunicar factos, não eram falsificações nem ficções…”.

As provas que corroboram os antigos ensinamentos, encontram-se espalhadas nos textos das civilizações da Antiguidade. No entanto, estas provas foram registadas simbolicamente em parábolas, o que provocou o escurecimento e a má interpretação das escrituras. Uma parábola é um símbolo falado, ou seja, uma representação alegórica de realidade da vida, de acontecimentos e de factos. E assim como de uma parábola se deduz sempre uma moral, sendo esta moral uma verdade e um facto real da vida humana, do mesmo modo, de certos emblemas e símbolos registados nos antigos arquivos dos templos, se deduzia um facto histórico verdadeiro (que somente podia ser traduzido por aqueles que estavam versados nas ciências hieráticas).

Só o olhar da alma pode penetrar no verdadeiro significado dos símbolos. Detalhe do Olho de um sarcófago egipcio / Wikipedia

A história religiosa e esotérica de todas as nações, encontrava-se embebida nos símbolos; nunca foi literalmente expressada em muitas palavras. Todos os pensamentos e emoções, toda a instrução e conhecimentos adquiridos pela Humanidade primitiva, tinham a sua expressão pictórica (ideografia) na alegoria e na parábola. E se nos perguntarmos porquê, a resposta é clara. Porque as palavras faladas têm uma potência não só desconhecida, mas que não se suspeita sequer. Porque o som e o ritmo estão estreitamente relacionados com os quatro Elementos dos antigos; e porque esta ou aquela vibração no ar, desperta seguramente os Poderes correspondentes a esses Elementos, e a união com os mesmos produz resultados que poderão ser bons ou maus, segundo o caso (segundo a utilização que se faça). E esse Poder há de estar ao resguardo da ignorância e da perfídia humana.

Códice mesoamericano de fejérváy-mayer, dentro do chamado Códice Borgia. Tlahuitzalcantecutli o Senhor da Aurora, símbolo do Logos perante as quatro direções ou elementos do Mundo / Wikipedia

Na antiguidade existia uma linguagem especial que podia estar contida dentro de outra, de um modo oculto, e que não podia ser percebida sem ser com a ajuda de certas instruções especiais; para entender este conceito, ponhamos como exemplo uma qualquer parede de um templo egípcio. Nela estão expressados diferentes conceitos auxiliados mediante representações, letras, números. Cada representação ou signo tem um significado por si mesmo; cada um deles é em si um símbolo. Mas ao mesmo tempo, todos em conjunto dão forma a uma ideia que é a origem do símbolo. Ocorre o mesmo com a linguagem chinesa, onde a expressão simbólica das suas ideias é a própria escritura. Cada uma das milhares de letras que contém é um símbolo; unidos entre si para formar palavras dão lugar a outro símbolo, sem com isso perder o seu significado individual.

Quiçá a isto se refira Mr. Ralston Skinner, místico e kabalista, quando fala de uma antiga linguagem, perdida já nos nossos tempos, mas da qual, segundo a sua opinião, ainda se conservam numerosos vestígios. Uma linguagem de “origem divina”; isto é, comunicado à primeira humanidade por uma humanidade muito mais avançada, tão elevada, que fosse divina aos olhos daquela humanidade infantil; numa palavra, por uma humanidade de outras esferas.

Uma linguagem que na sua expressão escrita tem um significado, mas que ao ser pronunciada manifesta uma série de ideias muito distintas das que se expressam pela leitura dos signos fonéticos. Esta linguagem de ideias pode consistir em símbolos que se encontrem concretizados em termos e signos arbitrários, que tenham um campo muito limitado de conceitos sem importância, ou pode ser uma leitura da Natureza em alguma das suas manifestações, de um valor quase incomensurável para a civilização humana.

Em qualquer caso, a importância da Simbologia é inegável para a compreensão do Universo e das suas causas. É através dos símbolos que nós os homens tratamos de intuir, de forma mais ou menos certeira, as Leis que regem o Cosmos e a nós mesmos. Devemos para isso tratar de ser canais recetivos e elevar a nossa consciência a planos mais subtis, para permitir que a mensagem oculta de cada um dos signos dos Mestres chegue até nós, com todo o conhecimento e a força de que estão impregnados. O Conhecimento e a Força do Eterno.

Manjushri, o Bodhisatva da Sabedoria, representado com uma espada em chamas e um libro que nasce do lotus. Do Rig Sum Gonpo (Senhores das Três Famílias) originalmente no templo de Efi Khalkha, Chakar, na Mongólia interior, atualmente no museu de Etnografia de Estocolmo / Wikipedia

 

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