Seguindo as abelhas, cruzei o caminho das estrelas

“Sê como a flor, desabrocha lentamente, e deixa as abelhas esvaziarem o teu coração.” – Ramakrishna

Enquanto procurava conhecer a origem das abelhas, um alento quente conduziu-me até à gruta das Ninfas Hydriades. Nesse lugar mítico, portal dos dois mundos, estavam elas, fazedoras de enlaces, e sem dizer uma palavra mostraram-me nas águas prateadas a onda serpentina do enxame que se desprendeu do véu estrelado, entoando o seu zumbir para despertar as almas sonolentas.

Há 60 milhões de anos que a abelha ocupa um lugar de destaque na vida do nosso planeta. Juntamente com o trigo e a vinha, o mel constituí uma dádiva dos Deuses. Todas as culturas e civilizações o veneraram como um elixir e uma panaceia para o bem-estar da nossa humanidade, tornando-se as abelhas ainda um modelo do estado ideal, símbolo das almas fiéis e laboriosas que reproduzem na terra o modelo da ordem cósmica. 

Tetradracma de Éfeso em prata, com o símbolo da abelha / wikimedia

 

OS MITOS

“Os versos que nos mitos escondem a verdade, tornou-os mais belos e desejáveis.”

Maxima de Tyr

No antigo Egipto a abelha BIT ou BIA é considerada como uma das representações de NUT, a Mãe dos Deus e do espaço estrelado, que através do seu abraço protetor amamenta as almas com o seu orvalho celeste. Do mesmo modo, a abelha com o seu mel possui o poder de embriagar os deuses com o seu suco solar da cor do âmbar. No Egipto faraónico o mel salvagem era colhido pelos “Sementiu” ou “gente da abelha” que faziam parte do corpo de elite da armada real, este mel era exclusivamente reservado para os ritos e oferendas e estava sob a proteção da deusa da Justiça Maat. 

No ritual de fundação do templo de Nut, uma sacerdotisa tocava flauta para chamar as abelhas, recordando assim o acto primordial da Deusa do céu que teria utilizado um junco cheio de abelhas para traçar os limites do Témeno (lugar sagrado). Nos Textos das Pirâmides menciona-se que Nut teria saído do ventre da sua Mãe Tefnu sobre a forma de uma abelha. Também associava-se a abelha às lágrimas do deus Ra quando estas caíram sobre a terra. Em Heliópolis o templo de Nut chama-se o castelo da abelha. Diz-se que outrora na cripta do templo encontrava-se o olho sempre vivo de Ra e que este seria representado sobre a forma de uma abelha, símbolo protetor das dinastias divinas. Ainda no Egipto ptolemaico, as sacerdotisas do templo de Neith em Sais portavam o nome de abelha, símbolo de virgindade e de dedicação ao culto divino. Aqueles que levavam o simbolo da abelha eram considerados iniciados nos Mistérios e comunicavam através de sons parecido à linguagem das abelhas. Nos ritos funerários, as múmias eram comparadas às larvas das abelhas e a cera e o mel eram utilizados nos ritos de mumificação. Nalguns rituais de Hathor-Sekmet, os oficiantes não falavam mas imitavam o zumbir da abelha porque na oitava hora da Douat, livro que relata a viagem da alma no além, a alma pelegrina é conduzido através de sons. Existiam ainda relatos antigos na Península Ibérica que contam que as mulheres que velavam os seus mortos entoavam em uníssono o zumbir das abelhas para ajudar através da vibração sonora a saída da alma do corpo do defunto.

Existia também uma relação entre a abelha e o som, já que na tradição hebraica a palavra abelha escrevia-se DBURE e tem por raiz DBR que significa palavra, a abelha é então o símbolo do conhecimento, da eloquência e sabedoria. Por esta razão dizia-se que o sábio matemático Pitágoras alimentou-se de mel durante toda a sua vida e que uma abelha se teria pousado nos lábios de Platão quando ainda criança dormia no seu berço. A abelha inspirou a Grécia antiga em numerosos cultos, em Creta muitos ornamentos, peitorais e joias tinham a configuração da abelha.

A criação do Homem por Prometeu, museu do Louvre, MR 838. Prometeu modela a alma humana mas é a Deusa Atena quem lhe infunde a consciencia em forma de abelha / wikimedia 

Os túmulos funerários ou Tholos de Micenas foram modelados à imagem da colmeia e a forma de cone invertido do Omphalos de Delfos possui a mesma configuração. No santuário de Apolo em Delfos, as virgens pitonisas eram de mesmo modo chamadas abelhas e na cidade de Éfeso, na Ásia Menor, as sacerdotisas de Artemis e Deméter são chamadas de “Melissai”  palavra extraída de Meli (Mel) e do latim Mellis, Mellitus. Diz a lenda que uma Mellisa, sacerdotisa de Deméter, foi condenada à morte por se ter negado a revelar os mistérios da Deusa e que Esta terá feito nascer abelhas do seu corpo martirizado. No Vestido de Artemis Polymastro de Éfeso, podemos ver várias abelhas esculpidas e no seu cinto um circulo de abelhas separa a parte inferior e superior do corpo esculpido da deusa, o cinto representava um sinal de castidade e de domínio das paixões para todos aqueles que se entregavam ao ofício divino.

Apis melifera, a abelha do mel / wikimedia 
O MEL

Os antigos associavam o mel a muitas virtudes e por isso era utilizado nas libações, dizia-se que o mel purificava a língua de toda a falsidade. Chamado o néctar solar, serviu de alimento ao Deus do Olimpo Zeus durante a sua infância. As abelhas salvagens constroem as suas colmeias em cavidades das montanhas, ou em orifícios tais como crateras ou troncos de árvores. Também os mitos falam de abelhas alojadas em ânforas nas proximidades de fontes subterrâneas onde as ninfas magnetizavam as águas de poder vital. As águas efervescentes das ninfas permitiam a regeneração e renovação de novas vidas enquanto que as abelhas representavam a sobrevivência e a ressurreição das almas puras e secas depois da consumação do invólucro físico.

O MITO DE ARISTEU
Aristeus a segurar uma colmeia. Gravura de Hieronymus Cock, 1565 / British Museum

Segundo Virgílio, Aristeu, filho de Cirene e de Apolo, era possuidor de uma colmeia. Um dia o jovem viu passar Eurídice, a bela noiva de Orfeu, e não resistiu ao desejo de a possuir, perseguida e desesperada a jovem Eurídice foi então picada por uma serpente que provocou a sua morta súbita. Cheio de dor Orfeu e as Ninfas castigaram Aristeu destruído as suas colmeia. Para se redimir de ter ofendido os Deuses Aristeu ofereceu em sacrifício quatros bovinos virgens, machos e fêmeas. Diz a lenda que das vísceras dos animais imolados surgiram enxames de abelhas e assim Aristeu pode reconstruir a sua colmeia e ensinar aos homens os segredos da apicultura. É interessante constatar que a palavra apicultura tem no seu prefixo “Api” de Apis, cujo significado no Egipto antigo é “o morto- vivo” ou seja a imagem do Deus Osiris encarnado no touro branco sagrado que deve morrer para poder renascer para a dimensão espiritual.

Os mitos associados ao nacimento da abelha parecem conduzir-nos para a dupla relação entre o touro e a abelha. O sacrifício do touro ou boi sagrado estaria relacionado com o culto solar como no caso do culto de Mitra em Roma, na astrologia tradicional o signo solar primaveril do touro é regido pelo planeta Vénus em domicilio noturno e com a lua em exaltação. Este signo na sua origem seria representado por uma vaca mansa e os seus chifres em forma de meia-lua ou barca representavam o poder receptivo da mãe natureza para a fecundação de um novo ciclo de vida manifestada. Existe um fator astronómico interessante, bem conhecido na antiguidade, relacionado com a estrela Sírio, chamada Sothis no Egipto,  que alinhava-se com o sol durante a canícula de verão  e intensificava o período de calor  que também representava o momento mais alto da produtividade das abelhas. Sabemos que o ciclo de polinização é fundamental para a reprodução das espeças vegetais. Oitenta porcento da polinização do reino vegetal do nosso planeta depende do trabalho dos insetos, sendo a abelha um dos mais importantes. Einstein tinha razão ao afirmar que o desaparecimento das abelhas seria o fim da nossa humanidade.

A abelha nascida de um touro morto assinalava nos antigos ritos a passagem da morte para a vida da natureza e que se refletia no domínio dos mistérios da alma humana, que como o zumbir do enxame, se libertava da sua prisão de carne. Em muitas culturas antigas a morte do touro representava a vitória sobre as paixões animais primitivas e a conquista da paz duradoura só alcançável na dimensão de um espirito livre das suas ataduras terrenas. Diz-nos um antigo texto jurídico Gaelico que a abelha é o único animal que seguiu Adam no seu exilio do Paraíso perdido. Mas voltando ao mito de Aristeu, podemos deduzir que o símbolo da abelha realça o valor da castidade, da devoção e da organização inteligente inspirada na supremacia de uma realeza teocrática. Aristeu pode representar um estado primitivo da nossa humanidade quando ainda prevalecia o poder do instinto sobre o governação da razão. A morta de Euridice, símbolo da alma encarnada e da sua descida para os infernos pode assinalar a perda temporária do estado de graça e de inocência, tornando-se o sofrimento um incentivo para a redenção dos erros cometido pela humanidade cega e egoísta. A consciência é considerada a mestra-guia da evolução do homem para alcançar o seu centro solar. O amor ferido e sofrido, o sentimento de perda, recorda à alma a importância do amor que perdura para além da morte. No mito de Eros, ferido de morte pelas abelhas, recorda-nos a morte do zangão que, depois de depositar o seu dardo para fecundar a abelha rainha, morre dando a vida a milhares de futuras abelhas.

Abelhas figuradas na estátua da deusa Atemisa de Efeso / wikimedia

O planeta Vénus é considerado o mensageiro do sol, anunciando o seu nascer e o seu poente em diversos períodos do ano. Símbolo da beleza que inspira os homens a olhar para além do tempo construtor de formas ilusórias, Vénus foi desde sempre venerada como sinal do amor que faz a ponte entre o Céu e a terra, o divino e o material, filha da necessidade ora assome a forma da Vénus Urania, a amante fiel da luz verdadeira, ora apresenta-se como Vénus Pandemos, amante infiel seduzida pelas aparências do mundo manifestado. Foi chamada de “mil nomes”, Isis, Astarte. Afrodite, Vénus, mas o seu verdadeiro nome é o Amor que une e enlaça para sempre as almas afins. Semelhante a Vénus as abelhas são o símbolo na Terra da harmonia e do amor que temos que restabelecer na terra. Filhas imaculadas do Céu, as abelhas alimentam-se de perfumes e afastam-se de tudo quanto é vil e imundo. A sua rainha, a única fémea fértil e detentor da feromona, substância que permite à rainha comunicar com o seu povo, é fecundada no mais puro éter e só o zangão mais veloz consegue alcançá-la, impulsionando assim com o sacrifico da sua vida um ciclo de prosperidade a milhares de futuras abelhas. Tudo é matemático na sua existência piramidal, são os únicos insectos a produzirem o seu próprio sustento, consagrando o seu trabalho e a sua vida ao seu império. Filhas da obediência, as Ninfas (nome dado ao estado pós larva) nas suas fases de metamorfose transformam-se em Imago (palavra grega que significa semelhante ao original) nome dado à abelha no seu estado adulto. A colmeia com os seus alvéolos hexagonais responde ao modelo ideal de organização do espaço, minimizando qualquer desperdiço, o encastramento dos alvéolos proporciona às larvas o aconchego do calor interno. As abelhas são sensíveis ao frio e à humidade e por isso mantêm o seu lar sempre quente com a ajuda dos zangões. A geleia real é o alimento exclusivo da rainha que lutará até à morte para salvar a colmeia de qualquer adversidade ou concorrência porque só pode existir uma rainha por colmeia. Nos seus voos para encontrar o pólen as abelhas orientam-se pelo sol e as suas danças indicam caminhos fecundos para a sua cozinha celeste. O mel é a oferenda doce para venerar os deuses, amarga e mortal para os intrusos. O mel é ouro solar, na verdade as abelhas são as guardiãs do grande segredo da vida civilizada e neste pensamento do filósofo Jorge Angel Livraga encontraremos talvez uma lição útil para o Homem de hoje: “Devemos aprender a engolir o amargo e a cuspir o doce”.

Que esta homenagem à rainha dos insectos possa proporcionar-nos um modelo de civilização que nascerá após a dissolução do velho minotauro do materialismo e assim, tal como no mito de Aristeu, voltará o enxame das almas virtuosas para reconstruir um mundo de paz, ordem, verdade e fraternidade.

 

Bibliografia:
– “La vida de las abejas” de Maria Coello in Revista Esfinge nº 26 de 2002
– “Le Mythed’Homére et la pensée grecque” de Felix Buffiere
– “La ruche de Aristotele” de Jean Pierre Albert
– “L´homme et l’abeille” de Marchenay
– “L’abeille et le taureau” – Pierre Somville
– “Les Mythes et les Religions” – www.mythes-religions.com
– “Artémission: Prêtes et prétresses” – www.cnd.fr
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