Recreio

Fotografia de Pierre Poulain / www.photos-art.org
Este texto de José Carlos Fernández foi inspirado na fotografia acima de Pierre Poulain, fazendo parte de um projeto intitulado FiloFoto.

 

Esta fotografia, realizada em Curitiba, Brasil, no ano de 2009, deixa-nos perplexos. Desconcerta-nos pelos seus jogos de perspetivas e reflexos, como sucede no quadro das Meninas de Velásquez. Por detrás dos cristais as crianças estão absortas nos seus jogos, mas não chegamos a saber muito bem o que está dentro e o que está fora. Como na vida interior, adivinhamos, embora ainda sem conquistar, mais beleza e alegrias dentro do que fora. Mas fora os objetos têm um volume, um poder que dependendo de como estejam dispostos frente ao Sol da Verdade, projetam umas ou outras sombras: a isto a filosofia oriental chama Karma.

Mas nesta foto o labirinto de imagens confunde-nos: pois o que está fora não é mais que uma imagem refletida, e o que está dentro é real, mas só vemos bem o que está próximo pois os vidros não nos deixam ir mais adentro.

E não é este um símbolo da alma humana?

Não há labirinto para quem vive sempre fora, fora nasce, vive e morre. É, como dizem os textos místicos (Voz do Silêncio) ao referir-se à ignorância: “É a sala na qual vives e na qual morrerás, nela risse a tua alma enquanto se banha na luz do sol da tua vida, e chora no seu castelo de ilusões, e pugna por romper o fio de prata que a une ao Mestre”.

Tão pouco há labirinto para quem encontrou a Verdade, para quem se conquistou a si mesmo. O labirinto cujas fauces multiformes querem devorar a alma, converteu-se numa espiral de luz e vida uma vez vencido o Minotauro, a mente egoísta, destruidora do real. O labirinto é onde vive aquele em cuja vida se entrelaçam o externo e o interno, esses jogos de imagens e vivências, onde não se sabe o que está dentro e o que está fora, o que é imagem do real e o que é reflexo. Ou seja, o labirinto é para o que desperta a consciência humana mas ainda não banhou de luz todos os seus ocultos recintos internos, ainda nem tudo está em ordem.

O que está dentro e o que está fora? Quiçá, como dizem os filósofos Zen nos seus paradoxos ou koan, quando o que está dentro for exatamente igual ao que está fora, deixemos de estar limitados por alguma forma e sejamos o próprio espaço, puro, imutável: o Nirvana ao qual não era preciso chegar, mas simplesmente abrir a porta, do mesmo modo que não nasce o mundo quando abrimos os olhos, simplesmente agora vemo-lo, tal como é.

O estudo das profundidades do átomo e dos raios cósmicos, a descoberta da radioatividade e as formulações teóricas da Física Quântica quebraram a nossa ideia do mundo-objeto, e da separação radical entre sujeito e objeto. Os científicos deixaram para trás a ideia material do dentro e do fora para repetir, com os antigos alquimistas, que tudo está em tudo. Abriram a sua consciência (e com ela a da humanidade inteira) ao mistério do permeável, fundamento íntimo do valor das metáforas e dos vínculos. A grande sábia russa Helena Petrovna Blavatsky já o tinha profetizado, magistralmente, na sua obra A Doutrina Secreta. E frente ao mistério do permeável, nada está definitivamente dentro, e nada está definitivamente fora. Quando o poeta espanhol Antonio Machado escreve “Por trás dos cristais, chove e chove”, não se deu conta, talvez, que onde chovia era na sua alma triste e profunda, pois senão, para quê escrever num verso o óbvio e repetitivo, se não porque isto encontra eco na alma e se converte assim nela, em eterna canção da água?

Os poetas e os místicos advertiram-nos, com o seu olhar de águia, sobre o mistério do permeável, e ensinaram-nos, por exemplo, que nesta fotografia somos, na verdade:

As crianças que jogam no seu protegido recinto, como jogava Dionísio no seu Universo, alentando-o e fazendo que girasse; o gigante antediluviano e gemebundo; a rua empedrada, o muro de barro cozido e a grade de ferro que zela a passagem e não os olhares nem as vontades, permeável, enfim; e somos os mirones abúlicos parados na rua, sem fazer nem querer fazer nada. Também somos o fotógrafo, ou seja, o filósofo, que se pergunta pelo sentido de tudo isto e quer decifrar o que há por trás do jogo de espelhos e quer registar na sua câmara, ou seja, na sua consciência, o enigma do real.

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