Projecto Pear: uma ciência do subjetivo

Cerca de um século após a revolução da mecânica quântica, muitos resultados científicos continuam tão incompreensíveis como sempre. As experiências que demonstram a não-localidade do universo, a dualidade onda-partícula, a influência da consciência no mundo físico, todas elas carecem ainda de um enquadramento completo no paradigma científico atual.

Os pressupostos de que partem a generalidade dos cientistas para a elaboração das suas teorias, e a imaginação criativa com que concebem a ideia de matéria, de energia e de força não lhes tem permitido chegar a uma explicação integrada acerca do modo como funciona o universo.

Na década de 1970, Robert Jahn, professor e investigador da Escola de Engenharia da Universidade de Princeton, iniciou um programa para investigar os efeitos da intenção humana em dispositivos mecânicos geradores de eventos aleatórios, de modo a avaliar a existência de fenómenos excluídos das teorias físicas convencionais, como a telecinese, por exemplo. Ao longo de quase três décadas, o projecto PEAR (Princeton Engineering Anomalies Research) levou a cabo uma vasta agenda para o estudo da interação da consciência com dispositivos, sistemas e processos físicos sensíveis. Complementarmente, procederam ao desenvolvimento de modelos teóricos que permitissem uma maior compreensão do papel da consciência no estabelecimento da realidade física.[1]

Quando um operador está presente, desejando que o resultado seja superior ou inferior, os resultados desviam muito ligeiramente da média esperada.

Robert Jahn, o iniciador deste projeto, trabalhava como investigador e professor de Ciências Aeroespaciais, na Escola de Engenharia e Ciência Aplicada da Universidade de Princeton. Esta universidade é uma das mais reconhecidas no mundo pela sua qualidade académica e científica. Jahn é um físico autor de inúmeras publicações na área de sistemas de propulsão, dinâmica de plasmas, mecânica de fluidos e mecânica quântica. Se considerarmos apenas o site da NASA, encontramos 83 publicações do qual Jahn é autor.[2] É, portanto, sob todas as perspectivas e critérios de valorização atual, um cientista competente e com um saber adequado à execução técnica de um projeto desta natureza.

O programa experimental PEAR incidiu principalmente em duas categorias de experiências: Anomalias de interação Homem-Máquina e Percepção Remota. Os resultados acumulados ao longo dos anos apoiam firmemente a conclusão de que a mente humana, através de um processo desconhecido, tem uma pequena mas mensurável influência em sistemas físicos aleatórios. Faremos uma breve descrição daquelas duas categorias, com algumas metodologias e resultados associados.

 

 

Experiências envolvidas

  1. Anomalias de interação Homem-Máquina

Estas experiências baseiam-se em distintas formas de obter resultados tipicamente aleatórios, nas quais existe uma média associada aos seus resultados, média essa que é alterada durante as experiências. Um exemplo típico é o caso da moeda ao ar. Segundo as estatísticas, se atirarmos a moeda ao ar um número de vezes suficiente, obteremos uma média de 50% de caras e outros 50% de coroas. Quanto maior o número de vezes que lançamos a moeda, mais a média fica definida. Se fizermos a experiência 10 vezes e obtivermos 6 para 4, isto não é um resultado suficiente para duvidarmos da aleatoriedade. Mas se em 10 milhões de lançamentos obtivermos 6 milhões de caras e 4 milhões de coroas, então já poderíamos concluir que algum processo está a ter influência no resultado.

Algumas das máquinas utilizadas para gerar eventos aleatórios, como a que está representada na figura 1, simulam cerca de 200 lançamentos por segundo, registando todos os resultados sucessivos.  Ao longo do tempo, deixadas a correr isoladamente, chegam a um resultado que é a média dos lançamentos. A máquina da imagem é calibrada para dar um resultado de 100, em média.

Imagem1
Figura 1 – Exemplo de dispositivo de contagem de lançamentos aleatórios. Este dispositivo está calibrado para ter um resultado de 100 em média, para uma média de 200 lançamentos. O gráfico no ecrã é a forma visual típica dos resultados acumulados.

Os operadores do dispositivo da imagem fazem os lançamentos carregando num botão. Aqui começa a experiência. Quando um operador está presente, desejando que o resultado seja superior ou inferior, os resultados desviam muito ligeiramente da média esperada. Este desvio ocorrido nos dispositivos é realmente muito pequeno, de apenas alguns lançamentos em cada 10 mil levados a cabo pelo operador. Mas mesmo estes poucos lançamentos, já são mais do que aqueles que a física contemporânea consegue explicar. Além disso, o efeito não está limitado a este aparelhos electrónicos. O laboratório PEAR juntou muitos tipos diferentes de dispositivos geradores de eventos aleatórios, desenvolvendo também os seus próprios de modo a reduzir ao máximo os efeitos físicos possíveis ou imagináveis que pudessem causar tais desvios. Todos estes métodos de obter aleatoriedade são baseados em algum processo ou sistema físico, e em alguns casos são passíveis de ser enquadrados num modelo teórico para os seus resultados. Os métodos variam desde mecânicos, electrónicos, ópticos, acústicos, assim como fluídicos, que possam conformar-se a intenções pré-estabelecidas, sem recurso a quaisquer influências físicas conhecidas.[3]

Durante as calibrações extensivas, todos estes dispositivos, por mais sofisticados que sejam, produzem dados estritamente aleatórios, mas nos resultados das experiências mostram um aumento mensurável no conteúdo de informação, que pode apenas ser atribuído à consciência dos operadores humanos.

Analisando os dados com mais pormenor, em várias correlações secundárias são reveladas outras propriedades estruturais anómalas. Em muitos casos, os efeitos parecem sofrer da especificidade do operador, pelos resultados de um operador particular numa variedade de dispositivos aleatórios tendem a ser similares em escala e tipologia das interações. Pares de operadores com intenções partilhadas têm um aumento do efeito nas máquinas, especialmente quando os elementos partilham um laço emocional. Também parece ser importante a disparidade significativa entre operadores masculinos e femininos, assim como as séries consistentes de diferenças entre resultados individuais e coletivos. [4], [5]

Algo ainda mais estranho, aparentemente, é que estes resultados também foram obtidos quando os operadores se encontravam a milhares de quilómetros do laboratório, por vezes exercendo as suas intenções várias horas antes e depois das operações ocorrerem nos dispositivos.

O vasto programa de experiências que estas conclusões necessitam para obterem alguma plausibilidade, foi suficiente para se estenderem os ensaios a questões mais particulares, tradicionalmente associadas a certas crenças ou hábitos considerados mágicos. Em ambientes de ressonância subjetiva relativamente intensa e profunda, como em pequenos grupos íntimos, rituais de grupo, lugares sagrados ou performances musicais e teatrais, os efeitos foram consideravelmente aumentados. Estas alterações aconteceram mesmo que as pessoas envolvidas não estivessem conscientes que a experiência estava a ocorrer. Os desvios não tiveram a mesma escala durante a maioria das conferências académicas, encontros de negócios, ou outros eventos mundanos em que os ensaios foram realizados. Muitas outras circunstâncias foram testadas, das quais destacamos a seguinte, considerada um evento mundial. Na altura do assassinato do Primeiro Ministro de Israel Yitzhak Rabin, em Novembro de 1995,  um dos dispositivos de eventos aleatórios estava a correr no laboratório PEAR, guardando os dados de todos os lançamentos sucessivos. Estes dados puderam então ser analisados retrospectivamente em busca de algum desvio, e demonstraram que nos 5 minutos em torno do anúncio do ocorrido, aconteceu um intenso desvio de muito baixa probabilidade. (figura 2).[6]

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Figura 2 – Desvio acumulado dos dados do dispositivo ContREG em Princeton no momento do assassinato do Primeiro Ministro Rabin. O gráfico mostra o período de 10 minutos centrado no momento do disparo. A linha horizontal indica a espectativa, e a parabólica mostra o locos  de 0.05 de probabilidade para um grande desvio à medida que a base de dados aumenta.

Com esta experiência, entre outras do género que se seguiram, pode especular-se que as influências nos sistemas físicos não terão efeito apenas por consciências individuais ou locais, mas que, em última instância, poderão envolver a consciência da humanidade à escala global.

 

  1. Percepção remota 

O Homem também possui um poder pelo qual pode ver os seus amigos e as circunstâncias que os envolvem, mesmo que essas pessoas estejam a milhares de quilómetros de distância nesse momento.

Paracelso[7]

 

Esta segunda categoria de experiências visou estudar a capacidade dos participantes em adquirir informação de localizações geográficas remotas, tanto espacial como temporalmente. Estes locais, segundo as condições impostas pelos investigadores, não poderiam ser acessíveis por qualquer canal sensorial comum. Segundo os relatórios publicados de várias centenas de ensaios cuidadosamente conduzidos, a possibilidade desta capacidade tem muitos resultados a seu favor.

Os protocolos tipicamente requeriam pelo menos dois participantes: um “agente”, situado numa paisagem específica num dado momento, tinha que observar o local e descrevê-lo, ficando registadas as suas impressões; o outro, chamado de “percipiente”, localizado longe da cena e sem informação prévia acerca do mesmo, tentava sentir a sua composição e características, relatando-as num formato similar ao da descrição do agente. Depois, um avaliador independente ficava responsável por comparar os relatos em busca de semelhanças, de modo a validar a percepção remota.

Um dos problemas relacionados com estas experiências é a dificuldade de reprodução experimental por outros cientistas.[8] Por isso, apesar do programa PEAR ter acumulado várias centenas de ensaios nesta matéria, um dos seus objectivos principais foi o de desenvolver metodologias de análise sofisticados de modo a substituir o processo de julgamento humano, e desta forma facilitar a obtenção de resultados quantitativos mais precisos, assim como a sua correlação com os vários parâmetros experimentais. Foi elaborada uma lista de 30 questões binárias descritivas, que eram aplicadas à paisagem tanto pelo agente como pelo percipiente, permitindo assim uma comparação algorítmica independente da subjetividade do avaliador. Alguns dos descritivos incluíam parâmetros factuais como a presença de água, ser dentro ou fora de portas, etc, até factores mais impressionistas como a cena ser expansiva ou confinada, barulhenta ou calma, etc. [9] Deste modo ficou facilitada não só a replicabilidade dos ensaios mas também o tratamento estatístico dos dados.

Entre os resultados mais interessantes destes estudos está a evidência de que o grau de transmissão de informação não é afectada por separações temporais ou espaciais. Os resultados mostraram-se independentes de distâncias até milhares de quilómetros, e indiferentes às separações temporais tanto positivas como negativas, até intervalos de alguns dias.[10]

 

Modelos teóricos

Após três décadas de acumulação de resultados positivos que sustentam a hipótese da influência dos estados de consciência em processos e sistemas físicos, assim como a possibilidade de percepção remota, é inevitável que os investigadores elaborem modelos teóricos acerca dos mecanismos envolvidos. Vários parâmetros subjetivos foram significativamente correlacionados com os fenómenos físicos, como a intenção, o sentido, a ressonância e a incerteza.

A óbvia discrepância destes resultados com os paradigmas da física e psicologia atuais aumentam consideravelmente o esforço necessário na criação de novos modelos satisfatórios que possam dialogar com os dados experimentais. Uma vez que os aspectos subjetivos são concomitantemente excluídos dos procedimentos  científicos atuais, com a sua abordagem materialista e mecanicista da realidade, é evidente a necessária transformação de paradigma de modo que se possa abarcar estes fenómenos, sob o risco de reduzirmos a ciência a apenas uma parcela da realidade.

Um dos modelos apresentados baseia-se na premissa de que os processos pelos quais a consciência troca, ordena e interpreta a informação do seu ambiente, também permitem alterar probabilisticamente os sistemas e ganhar algum controlo sobre a realidade. Isto vai ao encontro dos modelos da mecânica quântica para a realidade física, nos quais se tem tornado cada vez mais evidente a importância do observador no desenrolar dos processos físicos. Os princípios da incerteza, da complementaridade, da exclusão, da indistinguibilidade, da dualidade onda-partícula, tomados como características da consciência em vez de propriedades intrínsecas da realidade física objectiva, poderão colocar-nos numa perspectiva em que os fenómenos aqui estudados passam a ser bastante normais, expectáveis pela ligação (sobreposição de estados) humano/máquina ou humano/humano.[11]

Torna-se evidente que, havendo interferência da consciência nos processos físicos, a uma escala que ainda não conseguimos conceber, ficam abalados todos os fundamentos e anseios da busca por uma ciência absolutamente objetiva. Torna-se necessária o que podemos chamar de “Ciência do Subjetivo”.

Partindo da premissa de que a realidade é estabelecida pela interação da consciência com o mundo físico, e portanto que qualquer tentativa de criar um modelo da realidade tem que incluir não só o comportamento da matéria mas também os processos subjetivos, poderíamos fazer crescer a ciência até um paradigma completamente distinto do atual que desse um contributo efetivo à busca descomprometida da verdade.

 

Conclusões

Ao longo dos 28 anos de existência do laboratório PEAR, ocorreram milhares experiências envolvendo milhões de ensaios, feitos por centenas de operadores. Os efeitos, mesmo sendo pequenos, acumulam-se em desvios das expectativas altamente significativos. Mais de cinquenta publicações documentam estas experiências e fundamentam conclusões acerca de questões básicas como: Qual é a escala destas influências? Elas mostram propriedades estruturais típicas? Quais são as suas correlações primárias, tanto físicas como subjetivas? Qual a reprodutibilidade empírica?

Também outras questões são endereçadas para a investigação futura nesta área: Como construir os modelos teóricos que dialoguem com as experiências? Poderão estes resultados estar relacionados com outros domínios criativos ou estéticos? Quais as implicações para a metodologia científica? Que aplicações pragmáticas podem ser antevistas? Quais as implicações gerais em termos culturais e metafísicos?

À luz de todos estes resultados, uma resposta parece clara: a mente humana e as máquinas de processamento de informação parecem entrar em alguma espécie de diálogo, que influencia tanto a máquina como a mente envolvidas na interação.

Para os cientistas envolvidos nesta pesquisa, esta é uma área do conhecimento em que facilmente podem cair em descrédito, principalmente quando os resultados que vão sendo obtidos lhes permitem afirmar a existência de meios de ação e de influência no mundo físico completamente inaceitáveis pelos paradigmas científicos atuais. É verdade que muitas pessoas, talvez pelo desejo de adquirir fama, ou movidos por outros interesses do foro pessoal, podem enveredar por caminhos científicos duvidosos, forjando resultados ou extrapolando conclusões. É contra estas imposturas que muitos se insurgem, quando a ciência é feita nos limiares do conhecimento científico. No entanto, também nos críticos pode haver desejo de fama ou interesses instalados, fazendo tudo para que os seus anos de trabalho e produção científica não sejam postos em causa pelo facto de ser necessário modificar as premissas teóricas em que foi baseada. Felizmente, a ciência tem os seus métodos apropriados, tanto para evitar as farsas como para ultrapassar as críticas.

Parece inevitável do progresso científico, que novas descobertas sejam criticadas de forma pouco científica e até, por vezes, irracional. Nunca é demais lembrar casos como o de Galileu ou Giordano Bruno, em que ideias revolucionárias encontram uma resistência desmedida na sua época, mas foram posteriormente validadas. Se bem que na altura foi a igreja a condenar os dois brilhantes pensadores, nos dias de hoje a ciência não está imune a dogmatismos e a acusações irracionais que de científicas nada têm. Temos um desses exemplos numa das críticas feitas ao projeto PEAR: “Eu não acreditaria nas vossas conclusões nem que fossem verdadeiras”.[12]

Felizmente a ciência é uma atividade tão nobre, tão importante para o progresso da humanidade, tanto material como espiritual, que bem podemos continuar a ter fé na Ciência, acreditar que a Verdade, procurada com perseverança e honestidade, vai sempre encontrar o seu caminho.

 

 

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