Padre Fernando Oliveira – arte e método na construção naval

O Padre Fernando Oliveira (nasc. 1507) constitui-se como uma personalidade pouco divulgada no quadro da História da Expansão e dos Descobrimentos Portugueses, com especial incidência para os contributos que doou ao desenvolvimento dos estudos sobre a arquitetura naval. O primeiro autor que dedicou o estudo sobre Fernando Oliveira foi Henriques Lopes de Mendonça, em 1898, e já em finais do século XX, Richard Barker e Francisco Contente Domingos, dedicaram igual esforço. Fernando Oliveira nasceu em Santa Comba Dão, no ano de 1507, sendo um homem multifacetado e dotado de um conhecimento universal. As suas obras mais conhecidas são a «Arte da Guerra e do Mar» (1555), considerado o único tratado de estratégia naval escrito em Portugal, a «Gramática da Linguagem Portuguesa» (1536), a «Ars nautica» (1570) e o «Livro da Fabrica das Naos» (1578 a 1581).

Segundo Contente Domingues, a sua obra «Ars nautica», não deve ser considerada como o primeiro tratado científico de construção naval, mas adianta que existe inovação nos desenhos apresentados nesta obra, facto que não era testemunhado nas obras congéneres da época. A existência desta obra somente foi revelada em Portugal, em 1960, por Luís de Matos, no Boletim Internacional de Bibliografia Luso-Brasileira, o que é denunciativo de uma divulgação tardia.

Fernando Oliveira valorizou a divulgação dos domínios da arquitetura e da construção naval, manifestando um dos princípios fundamentais da produção do conhecimento, que consiste na sua difusão. Esta abordagem está sinalizada no prólogo do seu «Livro da Fabrica das Naos», mas releva-se também a sua focalização no estabelecimento de uma metodologia: «E por quanto os nauios são necessarios para a arte de nauegação e a nauegação pera a gente desta terra de Portugal… Por tanto considerado eu quanto releua a este reyno ter bos navios e carpenteyros que os fação determiney escreuer este liuro da fabrica das naos: no qual ponho esta arte em regras e perceptos ordenados e claros: de maneyra que os possa entender e usar toda pessoa: por que ate gora andou isto escondido em poder dos homes auarentos que não querião ensinar e se ensinauão alguem era imperfeytamete.».

Na obra de Fernando Oliveira manifesta-se uma centralidade em torno dos conceitos de proporção e de simetria, critérios essenciais para o sucesso do projeto da construção naval, veja-se a este propósito, outra passagem do seu «Livro da Fabrica das Naos»:

…mas hua nao ainda que tenha boa madeyra, e bem pregada, e seja forte, se não teuer boa symmetria, não prestara para nada. Se for mays baixa do que deue ser, afogala ha o mar; se for mays alta emborcala ha o uento; se for munto estreyta, não sofreraa uela; se for munto larga, não governaraa; se teuer hum costado mayor que outro, penderaa com grande prejuízo dos que forem dentro nella». A ideia da proporcionalidade e de simetria tornou-se tão fulcral no seu método, que evocou Vitrúvio, nessa mesma obra, quando comparou a proporção das partes do corpo humano, em relação à cabeça, e acrescenta que «esta correspondência de partes em qualquer todo, chamão os gregos symmetria, que quer dizer em latim commensuração, e na nossa língua, concórdia de medidas».

Naus no Renascimento / www.tribop.pt

Este método, de alguma forma inédito, constituiu a base para a conceção de uma nau de 18 rumos de quilha, cuja «largura da nao teraa seis atee oito, e a altura quasi outro tanto, pouco menos que a largura», o que convertido em linguagem matemática, permitia também, traçar navios de qualquer capacidade, incluindo as grande naus da Carreira da Índia. Para complementar o tratamento deste método, dedicou na sua obra, a explicação do sistema de unidades utilizado nos desenhos da construção naval, onde se destacam os conceitos de rumo, palmo e goa.

Um princípio deveras interessante na obra de Fernando Oliveira, relaciona-se com a introdução do conceito de conformidade, primordial nos sistemas de qualidade que começaram a vigorar com o advento da revolução industrial. E neste âmbito recorre novamente a Vitrúvio: «sempre deue guardar a conformidade, e proporção das partes de cada genero: por que diz Vitruuio, que não pode fabrica algua ter boa composição, sem conformidade, e concerto proporcionado per arte… sempre a arte depende de doutrina aprendida, e posta em experiência, sem as quaes cousas não he arte o que sabemos, ou fazemos… claro estaa, que as cousas que imaginamos, ainda que nos pareção certas, e o sejão no entendimento, se as não esprementamos sempre estamos sospensos no effeyto dellas».

“A Arte da Guerra do Mar”, do Pedro Fernando Oliveira

Mas Fernando Oliveira não se fica por aqui, no aprofundamento dos princípios do projeto da construção naval, denotando um rigoroso domínio da seleção dos materiais, em função das mais diversas aplicações, no contexto do navio. Certamente que as madeiras constituíram o maior foco de estudo, no capítulo das matérias-primas, mas o que torna peculiar, são as noções qualitativas do comportamento mecânico dos materiais. Por um lado, a dureza e resistência necessárias para uns componentes do navio, e por outro, a ductilidade para outros constituintes, que se elucida com o seguinte trecho: «Para a fabrica das naos são necessareas duas maneyras de madeyra, hua dura, e outra branda: por que tem as naos duas partes de mesteres deferentes, cuja diferença o requer assy… o liame ha mester madeyra forte e dura, por que ha de sostentar todo o peso da nao e sofrer os ímpetos do mar, e dos uentos; mas o taboado requere brandura, por que se possa brandir e ajuntar com o liame nas uoltas do costado da nao». No desenvolvimento dos procedimentos para os achegos do navio, para além da minúcia da qualidade e aplicação dos diversos materiais responsáveis pelo isolamen- to das fendas (breu, alcatrão, sebo e resina), Fernando Oliveira aprofundou o comportamento dos materiais utilizados na pregação. Neste capítulo, procedeu à comparação entre os materiais de ferro, cobre e madeiras duras, na perspectiva do custo e da resistência aos fenómenos de corrosão a que estavam sujeitos, argumentando em defesa da utilização dos pregos de madeira, para os navios mais pequenos: «a força do ferro he mays segura, e mays ryja, que de todolos outros metays; e o preço he o mays barato: que soo de cobre se podem fazer, o qual custa mays que o ferro. Verdade he que Vegecio diz, que a munta dura do cobre recompensa a sua carestia: por que se conserua mays na humidade que o ferro, e não se corrompe tão asinha, nem a sua ferrugem o gasta tão asinha… Nem zombem de pregos de pao: … podião os nossos carpenteyros usar dellas em vez de pregos, nas terras onde ha falta de ferro: por que ainda que não são tão ryjas como os pregos de ferro, durão tanto como a outra madeyra em que estão pregadas, e não apodrecem na humidade, nem crião ferrugem».

Um outro aspeto relevante na obra de Fernando Oliveira, está associado à necessidade de gerir bem os recursos florestais, e particularmente a exploração que era feita à madeira de sobreiro, isto porque, sendo fundamental para a construção naval, a sua produção leva tempo, por isso, «deuiasse poupar, e não permitir, que se gastem as sobreyras em caruão, nem casca de cortidores, nem outra cousa algua menos necessaria que a nossa fabrica naual… E mays se deuem poupar estas aruores, por que crecem de uagar, tanto, que em uinte anos se não acaba de fazer hua souereyra aruore formada, para dar madeyra que se aproueyte.»

O domínio da linguagem técnica naval foi também um dos enfoques da obra de Fernando Oliveira, como desenvolvimento basilar para o cumprimento dos princípios de conformidade. Nela descreve os componentes do navio, num autêntico glossário técnico, implicitamente focalizado em critérios de uniformização. Esta riqueza de termos, merece ser particularizada, dado que a sua maioria transitou para os tempos atuais: «quilha, boca, altura, roda, cadaste, gio, corais, sobrequilha, fundo e cavernas, cavernas mestras, compartida do levantamento, almogamas, regel, recolhimento do fundo, braços, hastes, buçardas, reversados, convés, latas, cobertas, grade, costado, sobrecostado, cintas, escoas e dragas, obras mortas, tolda, castelo de popa, castelo de proa, governalho».

A obra do Padre Fernando de Oliveira denota um pensamento próprio de um interveniente no movimento Renascentista, e na condição de autor do primeiro tratado de arquitetura naval, demonstrou uma genuína e pioneira sagacidade, na sistematização da arte, do método, da inovação, da experimentação e da eficácia, nos domínios da construção naval.

 

NOTA SOBRE A IMAGEM DE CAPA:
Muitos dos desenhos de Fernando Oliveira são similares aos representados no Fragmentos de Construção Naval Inglesa, de Matthew Baker, um manuscrito contemporâneo que dá informação sobre a construção naval inglesa durante os séculos XVI e XVII. Um exemplo desta similaridade inclui a analogia entre um casco de navio e o corpo de um peixe. Esta morfologia de casco, de acordo com os autores, é aquilo a que se atribui as capacidades de navegação suaves das naus.
Bibliografia
Domingues, Francisco Contente, “Os Navios do Mar Oceano – Teoria e empiria na arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII”, Lisboa: Centro de História da Universidade de Lisboa, 2004.
Domingues, Francisco Contente, “Os Navios da Expansão. O Livro da Fabrica das Naos de Fernando Oliveira e a arquitectura naval portuguesa dos séculos XVI e XVII”, vol. I e II, Dissertação de Doutoramento em História dos Descobrimentos e da Expansão Portuguesa, Universidade de Lisboa, 2000.
Loureiro, Vanessa, “O Padre Fernando Oliveira e o Liuro da Fabrica das Naos”, Lisboa: Revista Portuguesa de Arqueologia, vol. 9, nº 2, 2006, pp. 353-367.
Oliveira, Fernando, “Livro da Fabrica das Naos”, ca. 1580.
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