Os Princípios da Criação

Uma das grandes questões da Humanidade, e fonte de reflexão para muitos sábios, prende-se com a Origem do Universo e consequente Origem do Homem. Hoje, as principais ideologias atribuem ao acto da Criação explicações puramente científicas cujas respostas não convencem os mais inquietos. Assim, tentaremos levantar um pequeno véu sobre os Princípios da Criação à luz de uma filosofia milenar, mas pouco citada por estudiosos e investigadores, na tentativa de mergulhar numa outra perspectiva acerca da nossa Origem.

O FOGO

“O Universo inteiro é fogo e espírito embrulhados na matéria.”

Desde as antigas civilizações, a começar pela grande mãe Aryavarta, o fogo foi sempre considerado como o princípio criador do Universo e instrumento de ação dos Deuses. Enquanto regente criador, o fogo adquiriu uma importância valiosa que, segundo Edward Shuré, “é o caminho ardente por onde o espírito desce à matéria, a senda luminosa por onde a matéria volta a subir ao espírito”. Para os antigos rishis da Índia e os próprios filósofos gregos como Heráclito de Efeso (séc. VI a.C), todo o mundo manifestado e visível procede deste elemento poderoso representando por Agni. Este fogo, princípio vivificador, pode estar associado ao Aether que a grande Mestra HPB refere como o “principio intelectual que tudo vivifica”, ao qual os teurgistas chamavam “Fogo Vivo” ou “Espírito de Luz”, a única força capaz de abrir a obscuridade do Caos. O Fogo citado pelos antigos sábios é o princípio superior de onde partem inúmeras manifestações numa estrutura hierárquica complexa até atingir o seu ponto mais básico, ou seja, o fogo como conhecemos. Heráclito afirmava que o Universo foi engendrado pelo fogo e que pelo fogo se dissolverá. Do espírito à matéria e da matéria ao espírito. Para as antigas civilizações, o Fogo era o elemento base na origem do Homem e do Universo, sendo por isso um elemento superior pois penetra os demais elementos de todo o mundo manifestado. Pela sua importância, o Homem, nas suas diversas manifestações espirituais, consagrou uma entidade Divina para o representar, associando-o sempre ao elemento espiritual, essa Luz que sem vermos tudo Vivifica.

Busto de Plotino, filósofo neoplatónico
TRÊS ENTIDADES

Existem alguns princípios inerentes à natureza que constituem o conhecimento básico de quem dedica a sua vida à procura do conhecimento. Um desses princípios é a simbólica do número três e suas múltiplas chaves, como a interpretação da Criação pelo fundador da corrente Neoplatónica, Plotino, retratadas de forma sintetizada. São elas: Ser, Inteligência e Criação.

SER

Muitos filósofos e estudiosos referem o SER como uma entidade superior, a primeira manifestação do movimento no espaço e no tempo, Narayana que movimenta as águas primordiais. Podemos dizer que o SER é a primeira manifestação do Absoluto numa perspectiva extremamente subtil e transcendente, é o primeiro movimento do Uno que se dirige para a dualidade, o “Ser Amovível” de Aristóteles, magnificamente expresso na lenda de Shiva.

Ao contemplar o Absoluto, absorto e imóvel, Shiva faz com que tudo fique estático não realizando nenhum movimento que finde com esta contemplação. Mas para terminar com esta absorção os Deuses criaram uma bela dançarina para se movimentar ante Shiva. Com o seu doce bailar, Shiva ficou encantado e esta, sentindo-se observada e admirada, aperfeiçoou a sua dança extasiando Shiva. Este acaba por sair da sua contemplação estática seguindo o movimento da dançarina gerando em si o Amor. Com este Amor Shiva gira a roda da vida e da manifestação dando origem à Criação. Shiva, que representa o SER, tem uma postura móvel, mas não mutável, ou seja, o seu interior é inalterável e inamovível, apenas o seu exterior se movimenta, mas nunca o seu interior.

Este Amor que Shiva sente pela dançarina representa o Amor Celeste, o Amor Superior necessário à Criação pois é o Amor que liga o Homem a Deus, é o Amor que levou Shiva a passar da contemplação à ação. O mesmo Amor que leva o Homem a subir a Escada Divina rumo ao Uno, ao Absoluto.

INTELIGÊNCIA e CRIAÇÃO

A inteligência representa os intermediários que estabelecem pontes entre os princípios inferiores e superiores, estando mais perto do Ser do que do homem, da Criação, A inteligência não desce ao abismo da matéria mas guarda o equilíbrio de todo o sistema triplo. Aqui encontramos os Devas Hindus, os arquitectos da Criação e responsáveis por organizar os desígnios do Ser e assim transitar para o estado da Criação, a manifestação e a materialização da Lei Cósmica. Com a Criação entramos no mundo das formas e da matéria, um estado denso e carente de luz. Segundo os antigos filósofos, a partir deste ponto, o Homem deve realizar por si mesmo o último percurso deste triângulo, ou seja, Criação-Ser, utilizando este fogo interior e divino que tudo vivifica. Esta é a escada retratada inúmeras vezes ao longo da nossa história, ou seja, a subida para o Ser, o último estado a percorrer e cujo caminho apenas pode ser transitado pela consciência do fogo interior.

Não podemos esquecer que apesar das diferenças geográficas e temporais, e suas inúmeras terminologias, existe sempre um sentido único para a Origem do Homem acente nesta trindade. No final… apesar das diferentes denominações, falamos sempre do mesmo.

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