O Principezinho, 75 anos depois

Esta é para mim, a paisagem mais bela e mais triste do mundo (…) Aqui foi onde o principezinho apareceu na terra e depois desapareceu.

Que belo presente, Saint Exupéry, deste ao mundo! Entregaste-lhe o teu principezinho. É difícil saber como se gerou, onde nasceu, antes de o lermos impresso no papel e o conhecermos nas tuas aguarelas, tão simples mas tão cheias de vida.

Quem sabe, não se terá criado nas solidões infinitas e no silêncio do deserto do Sahara, em finais do ano 1935, quando uma avaria te obrigou a comungar com as suas extensões e luz ofuscadora, com o vislumbre da morte que transforma.

Ou quiças foi nos primeiros esboços que dele fizeste, quando esse menino de cabelos de ouro começou a rir e a dançar no teu coração, querendo aparecer no mundo, filho de uma estrela, procurando amigos.

O Principezinho / Pixabay

Quantos leitores ávidos dos teus livros ficaram no inicio defraudados, pois estavam acostumados aos teus romances de aventuras e reflexões filosóficas: Correio do Sul, Piloto de Guerra, Voo Nocturno, Terra de Homens… Mas em pouco tempo o mundo se rendeu perante o seu encanto e é hoje um dos livros mais lidos de toda a História, o primeiro em língua francesa. Não é, na verdade, um livro para ser lido por crianças, mas está dirigido à criança interior que se esconde na nossa vida, como um poço de água num deserto.

Enamorámo-nos do teu Principezinho, sempre fiel a uma rosa na sua longínqua estrela, sempre puro, sem renunciar nunca a uma pergunta, uma vez formulada, sem medo a nada e buscando sempre amigos.

O Principezinho e a rosa / flickr

Ensinaste-nos a importância de criar vínculos, alma com alma, pois a vida carece de sentido sem eles, é o compromisso que faz com que não sejamos simples fantasmas deambulando pelo espaço e tempo. E também o perigo de não ter imaginação, de ser como o eco que repete o que os outros dizem. Advertiste-nos contra as sociedades que não se adaptam ao novo e escravizam os seus, como o faroleiro, obrigado a repetir ordens  já antigas e obsoletas.  Fizeste-nos ver como está absolutamente só o vaidoso, com suas graças de palhaço. E a vida insípida, como a do geógrafo, que chama “efémero” precisamente ao único que deixa uma marca na alma. E se Buda dizia no Dhammapada, que é insensato aquele que conta as vacas do outro como se fossem suas, ou a sabedoria do outro como sua (simplesmente por repetir as suas palavras), vimos essa estupidez no homem de negócios, ao contar como suas as estrelas inacessíveis, das quais nada extrai, e às quais não serve de arauto. No antigo castelhano dizemos que “tem valor quem serve, servir é uma honra”, quem a ninguém nem a nada serve, com lealdade, nada tem e nada vale.

Os embondeiros não paravam de crescer / flickr

Ensinaste-nos que entre as rosas, é a tua a que te chama ao céu, é lá que ela te leva, e que “O essencial é invisível aos olhos”. A importância de limpar diariamente  nossos pequenos vulcões, e de arrancar as ervas daninhas que se convertem em embondeiros, de cuidar o pequeno mundo em que vivemos, nossa casa, a terra emocional e mental que nos serve de suporte.

Um homem letrado e um herói na guerra e na paz te conduziu até nós, e agora aprendemos a ouvir o teu riso no tilintar prateado das estrelas e a tua alegria e dança no vento e na água que corre… Não estamos sós, não somos órfãos, simplesmente nos esquecemos e tu despertaste-nos e seguiste o teu caminho de retorno ao abismo celeste que te trouxe.

Que estranho, sabes? Passaram 75 anos? Ou apenas um piscar de olhos, um sorriso desde a tua alegre eternidade?

O Principezinho / Wikimedia Commons
Artigo escrito em 20 de abril de 2018
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