O Monge

Fotografia de Pierre Poulain / www.photos-art.org
Este texto de José Carlos Fernández foi inspirado na fotografia acima de Pierre Poulain, fazendo parte de um projeto intitulado FiloFoto.

As nossas vidas estão vazias porque a nossa alma deixou de procurar a perfeição. E no vazio dessa necessidade calada lançamo-nos para fora procurando qualquer tipo de estímulo ou de sensação que a preencha. E no entanto, a busca da perfeição, seguindo a verdadeira natureza, o verdadeiro instinto da alma, é um caminho de felicidade cada vez maior, e, como na parábola de Cristo, é o único manancial que pode saciar a sede que a devora. Mas a busca da perfeição é cega sem Ideal, e ao Ideal não se acede sem libertar a mente e o sentimento das suas ataduras, sem um fogo interior que as corte, libertando a alma prisioneira: convertendo os pensamentos em flechas que vão em direção à Verdade, e aos sentimentos em lótus que se abrem ao Grande Amor. Esse fogo interior é o da verdadeira Filosofia, a única que nos pode libertar das limitações internas, como das externas nos liberta temporariamente a morte.

A verdadeira medida dos nossos atos não é o seu fruto ou resultado imediato. A verdadeira medida é a perfeição, é o Dever Ser — a filosofia indiana chama-o Dharma — e esta perfeição é-o em cada passo. Ou seja, a perfeição agora não é subir a escadaria inteira, cujo fim se perde em abstrações impensáveis e irrealizáveis, mas chegar ao seguinte degrau. E se bem que o que chama e espera no alto seja uma estrela interior, ou um sol de vontade, amor e inteligência, banhando com os seus raios a escadaria inteira, o seu poder manifesta-se no passo, na marcha, no horizonte conquistado hoje, não naquele que amanhã espera.

Por isso a vida do que busca a perfeição é uma vida de dor, como a da serpente que cresce e se vê oprimida e sujeita pela pele antiga da qual se deve despojar. A dor é veículo de consciência, diz o Buda, faz-nos entender e reagir, há que aceitá-lo, diz-nos que estamos vivos, traz a sua mensagem, a verdade do que nos falta. O amor, dizia Platão, é filho de Poros, a Abundância, e Penia, a pobreza ou fome, é o impulso que nos move a não nos contentarmos com simplesmente estar no caminho, mas em também chegar à meta. Pois o caminho no qual se está, mas não se avança, deixa de sê-lo, converte-se simplesmente num lamaçal.

H.P.Blavatsky no seu livro maravilhoso, Ísis sem Véu, legou-nos um maravilhoso ensinamento:

“A própria filosofia ensina-nos que a natureza nunca deixa nada imperfeito, e se fracassa na primeira tentativa, reitera-o até triunfar. Quando se desenvolve um embrião humano, o plano da natureza é que produza um homem físico, intelectual e espiritualmente perfeito. O corpo há de nascer, crescer e morrer; a mente há de eduzir-se (sair de dentro para fora) robustecer-se e equilibrar-se; o espírito há de iluminar mente e corpo de modo que com ele se identifiquem. Todo o ser humano há de percorrer o “círculo de necessidade” para chegar ao término da sua perfeição. Assim como os atrasados numa corrida se esforçam só no início, enquanto o vencedor não pára até alcançar a meta, assim também na corrida do aperfeiçoamento há espíritos que se adiantam e chegam à meta quando os demais ficam detidos pelos obstáculos que lhe opõe a matéria. Alguns infelizes caem para não se voltarem a levantar e perdem toda a esperança de vencer, mas outros levantam-se e começam de novo a corrida”.

Ver quem está perfeitamente concentrado na tarefa que executa, como se nesse momento não lhe importasse morrer ou repetir eternamente a dita ação, é ver quem avança na senda, e é sentir a felicidade de que por muito duros que sejam os tempos, nem tudo cai, e há quem se mantenha erguido, desafiando a adversidade e o hálito envenenado do dragão do quotidiano sem alma, como uma bandeira no alto, a meio da batalha. Mas concentrado de verdade, humanamente, com uma reta atenção que nada cobiça, mas que percebe o sentido, ou seja que vê em profundidade, que banha de luz interior aquilo que faz. Não “concentrado” como o tigre na sua presa, ou como o cão que vê a carne vermelha que lhe oferece o dono e desaparece assim o universo ao seu redor. Ou seja, concentrado e vestido de humana dignidade, concentrado e tenso como a estrela no alto, bela, serena, majestosa; não com a concentração fatal do abismo que tudo devora, e que os egípcios chamaram “necessidade-de-alimento”. Ou seja, pleno na concentração e não vazio nela. Os gestos que nascem desde esta plenitude da alma que chamamos verdadeira concentração, são como uma dança de beleza e imortalidade, que a todos nos convida, uma e outra vez, para que não percamos tempo e encontremos o sentido da vida.

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