O lume, de Eça de Queirós

Texto de Eça de Queirós, retirado de Prosas Bárbaras

Agora, no Inverno, no campo, as noites são ásperas e hostis. Toda a Natureza está impassível e entorpecida, esperando a fermentação violenta das seivas. As árvores erguem os braços nus, miseráveis e suplicantes. E as águas, que no Outono estavam quietas e pálidas, e que em Maio faziam claras murmurações, tão melódicas como o ritmo de um idílio latino, têm agora vozes vingativas e más. O vento é rouco e lento como um canto católico de ofícios: as chuvas caem de cima, como escárnios triunfantes e ruidosos.

Às vezes vem a Lua não aquela imaculada Lua cor de opala, donde se exala um nevoeiro magnético que faz a alma docemente doente, mas uma Lua metálica, fria e lívida, como a face dos corpos finados nas legendas católicas.

LUA DE PRATA – Silver Moon | by jonycunha / flickr

Então o homem sente a sua pequenina e inútil alma afundar-se no tédio, silenciosamente, como um navio roto numa calmaria, e vai por instinto dar-se à intimidade consoladora da lareira, das brasas e do fogo. E enquanto a força vital se dissolve numa sonolência fluida, ele sente aos seus pés uma pequena voz, alegre, inquieta, clara, que lhe fala como num êxtase profano:

«Sou eu», diz a voz, «eu, o teu velho camarada, o bom lume. Sou eu, o teu velho Deus misterioso. Eu que te quero bem, e que te dei o que há em ti de grande e justo a família e o trabalho. A minha história é triste, luminosa e terrível, imunda e meiga. Eu fui o teu companheiro das noites da Índia, o consolador e o purificador; eu fui o Moloch das regiões da velha África, ensanguentado e trágico: e sou agora o escravo a quem tu mandas mover as máquinas.

Sempre escondido e silencioso, ocupando a um canto o mais pequeno espaço da casa, eu venho todo jovial e radioso quando tu me chamas, e fico, nas tuas horas negras de dor e de miséria, calado ao pé de ti, lambendo-te os pés como um cão. Na Índia, lembras-te?, durante noites primitivas, eu fui o teu bom Agni que te alumiava, que espantava os chacais e as onças, e protegia, como um templo, os teus amores religiosos e simples. Escondia-me nas pedras e nos paus secos: assim para onde tu fosses, ou solitário ou em bando, encontravas-me sempre aos teus pés, bom e humilde. Foi ao pé de mim que tu criaste a trindade humana da família.

Era ao pé de mim que tu descansavas dos teus bárbaros trabalhos, no princípio, quando a vasta Natureza te combatia. E eu era o amigo único, o aliado radioso. Eu tive a confidência dos teus primeiros beijos. E eu sabia as tuas dores e os teus medos.

Tinhas em redor de ti a hostilidade dispersa: a grande floresta tenebrosa, que depois foi para ti berço, lenha, morada, navio, defesa e forca, era então a tua sepultura iminente. Quando saías de ao pé de mim, da tua cabana ajoelhada ao sol, encontravas-te só, entre os seres implacáveis, o mar que te ladrava, a vegetação espinhosa que te mordia, a chuva que te paralisava, a neve que te dava sudários. Tudo, sob a pressão doentia do Sol, era para ti força inimiga ou forma resplandecente do mal. E só quando voltavas, encontravas o teu bom lume que te enxugava, que te alumiava, que te dava o pão, a força e a fé. Eu e a mulher, a minha companheira celeste e silenciosa, ficávamos em casa, esperando os teus cansaços. Ela fiava, limpava o chão da cabana, tirava a água fresca e adormecia o filho no seio branco como num leito espiritual: eu estava quieto e atento, combatendo a sombra e a noite, vencendo a humidade traiçoeira, fazendo um dossel de vida e de luz para o teu sono, dando à cabana a serenidade tépida, e às tuas fadigas um paraíso de sossego, de silêncio e de calor.

Em volta de mim, criou-se a família. Eu era o purificador da tua natureza. Era o. Deus presente e bom, que fecunda as almas, fortalece os braços e ampara na hora das dores.

Eu tenho ainda por ti aquele amor servil e adulador, que se glorifica quando abdica, que tem um êxtase quando se dá a uma humilhação. Quando te afastas, quando me deixas, fico triste, amorteço-me, toda esta grande alma de chama, que te quer tão bem, se definha, e apenas ficam as brasas, ainda quentes, ainda vermelhas, mas já inertes e cheias de negro justamente como o corpo de um amor abandonado.

‘Mas quando vens para mim, quando me estendes a mão, como para um afago, quando me revolves, desperto, revivo, canto salmos de luz, requebro-me como uma mulher que se abandona, tenho vivacidades que são gritos de fogo, tenho cintilações que são beijos; e como numa rapariga para quem o inconstante bem-amado volta, toda a tristeza se desfaz em rir, eu mais infeliz, que não tenho o riso, aurora sonora dos lábios, toda a minha dor e o meu abatimento se vai somente em fumo!

Por ti tenho feito mal. Fui eu que matei Giordano Bruno, João Huss, tantos santos, e tantos mártires, e tantos alucinados de Deus!

Fui eu que queimei, nas cidades misteriosas de África, as crianças e as virgens no altar de Moloch.

Por ti, eu que sou a paz, fui a devastação. Estou fatigado. Durante os tempos tenho sido o camarada, o amigo, o servo, o vigia, o cão, o confidente, o pão, o calor, a vida não queiras que eu seja o carrasco! Podia ir contigo, insensivelmente, lareira, se era o teu amor que me assoprava, incêndio, se era a tua cólera no tempo em que tu eras uma força inconsciente e fatal. Mas hoje és uma consciência. Contigo só me aliarei para ser fé, consolação e paz. Sendo paz e fé, é que eu te tenho consolado das servidões dolorosas.

No tempo das catedrais, quando tu nada tinhas, nem o amor, nem o pão livre, nem a voz, nem o sono, nem a esperança, eu dei-te o que mais agrada ao escravo o direito de mandar. Em volta de mim, a família ajoelhava à tua voz, rezava ao teu olhar, erguia a hóstia do amor ao teu coração. Eras servo e tinhas estas grandezas: era eu que tas dava: como? Pela fé, pela paz, pela consolação, pela união. Para ti, eu tenho representado a essência humana. Eu tenho advogado a causa da vida.

A minha irradiação lenta e amorosa dissipou o misticismo. Eu sou o bem. A família e o trabalho, a educação, esta trindade misteriosa da vida, tudo está em mim. Toda a felicidade humana canta, ama, ora, no círculo da minha luz. Tudo para além é sombra na parede, e sombra na alma. Procuras o ideal na religião, na conquista, na arte; debalde: trabalhas, adoeces, morres, apodreces: vida inútil! Os únicos momentos verdadeiros e sãos foram aqueles em que estiveste ao pé de mim, olhando castamente a mulher, ensinando a ler a criança. Então realizaste o ideal, o símbolo Deus, que as religiões esboçam e as criticas dissipam.

Casamento hindu, ritual de Saptapadi perante o fogo do Agni Yajna / wikimedia

Lembras-te da Índia?

Ali tinhas uma cabana, a tua mulher, branca e mais doce que a lã dos novilhos, e o filho, encarnação misteriosa do amor das almas, e a minha doce presença. Trabalhavas, aqueciaste, amavas, dormias. A alma vivia em ti no estado de pressentimento. Tinhas apenas do ser interior o bastante para um dia, mais tarde, dirigires a bela e serena educação do teu filho.

Depois disso, tens tido uma vida lengendária de lutas, de criações, de religiões, de conquistas, de descobertas, de ideais.

O que aumentaste em ti? Nada: apenas a tristeza, o desfalecimento, a dor e o mal.

Eras puro e são, estás mórbido e enfraquecido. Eras forte, estás raquítico. Eras sereno, estás torturado. O teu bom riso é uma triste ironia: o teu largo olhar é uma áspera desconfiança.

Tinhas por inimiga a Natureza. Venceste-la? Não. Absorveste-la. E tudo o que ela tinha de terrível e de doloroso, tudo hoje tu tens: a independência desesperada do mar, o mistério doentio da floresta, o choro aflito das águas, a inquietação do vento, a barbaridade das feras, a escuridão supersticiosa dos astros, tudo hoje está em ti, com surdas irritações, com rebeliões formidáveis. Aí está. De cada vez que te afastaste de mim, do sossego do meu calor, voltaste trazendo uma chaga.

Foste criar o misticismo, vieste com a nostalgia incurável. Quiseste criar os Direitos do Homem, trouxeste um mal divino chamado Liberdade, que vai sempre fugindo de ti, e só às vezes se volta de repente, para te borrifar de sangue! Quiseste ir construir a adoração do corpo e da matéria exclusiva, trouxeste o elemento dissolvente da força e o egoísmo brutal. Não tens dado um passo de mais para o bem. As tuas obras ai estão imensas, acumuladas, contraditórias e inúteis. Tens uma complicação infinita de asas que te impede o voo.

A mim, abandonaste-me.

Eu não me apaguei. Durante as revoluções e as lutas, andei errante, miserável, sobrecarregado de infâmias, e, para viver, vendendo-me ao carrasco!

Mas conservei sempre a minha chama, casta e familiar, para o dia em que quisesses vir, tristemente, enxugar-te ao meu calor do sangue dos teus irmãos.

Vem para junto de mim. Eu sou completo. Correspondo a todos os teus instintos luminosos, ou sagrados, ou materiais, ou lascivos. Eu dou-te o pão, o calor, a fortaleza, dou-te as visões que são a poesia do movimento na alma, dou-te a sensualidade sonolenta que exala amor, dou-te a serenidade que dispõe para a contemplação e a força que prepara para o trabalho. Eu sou a cura, inteligente e boa, do mal natural. Eu alumio-te nas vigílias dolorosas. Quando estás entorpecido na doença, eu, pequenino e encolhido, tremo ao pé de ti. Quando morres e a tua alma vai partir, eu alumio-lhe o caminho de Deus. Eu cerco Cristo nos altares, para que tu o vejas bem. Quando andas no mar, eu sou junto das praias o grito de luz que te chama.

E o que fazes tu em paga deste amor que se dá, que cria e que purifica? Esmagas-me. Fazes-me o escravo das máquinas. A mim que embalava as almas, fazes-me mover os aços. Embalo que era amor, movimento que é força: os dois termos da tua vida pureza e putrefacção! Eu que vivia, alumiava, criava em liberdade, estou encadeado e martirizado na tarefa brutal das indústrias. Fazes-me o motor da tua miséria. Nas fábricas, as criaturas doentias, as crianças estioladas, as mulheres definhadas e soluçantes. Fazes-me mover a vapor estas misérias. Sou o colaborador dos teus martírios. Tu, homem, tomas o fogo. o ser sagrado, por ajudante de execuções! Dás-me por salário a infâmia. Fazes de mim explosão. Obrigas-me a devastar na guerra!

Eu que sou a pureza, o trabalho, a família, a paixão casta: levas-me a ser o mal, a viuvez, o pranto e a dor! Tenho um cortejo de ambulâncias e de macas, eu que era o firmamento dos berços! Não! Maldita seja a árvore que consentir em ser forca e o fogo que consentir em ser explosão.

Não quero que na minha vegetação de luz haja um orvalho de sangue. Não quero que o vento, ao embalar-me, faça soltar os gritos e os choros que se tivessem aninhado em mim. Tu, homem, sê piedoso e justo. Eu alumio o mais que posso as igrejas, mas parece-me que tu não vês bem a Cristo. Não, deixa-me ser a pureza, a graça, a família, a intimidade casta e o bem. Peço-te. rojando-me como um mendigo. Oh!, homem. oh!. meu velho camarada das choupanas da Índia!, não me faças ser explosão, morte e devastação, para que eu no dia de pureza e de castidade, quando estiver alumiando e. aquecendo os beijos. as orações e os berços não sinta entre as minhas chamas bailarem espectros!»

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