O Feitiço da Índia – crónica de uma viagem

Aquele que viaja sem encontrar o outro não viaja, simplesmente desloca-se.
Alexandra David Neel

 

Peregrino em Omkareshwar
Peregrino em Omkareshwar

É difícil traduzir por palavras dezassete dias de aventura no coração da Índia, pois esta terra transforma qualquer viajante em peregrino, aquele que caminha em busca de si mesmo. Por mais que tentemos olhar à nossa volta com olhos de simples espectadores a Índia obriga-nos a rasgar o véu entre a aparência e a realidade.

A Índia abala os nossos preconceitos, as nossas comodidades, os nossos confortáveis apegos e bem-estar, tão caros à nossa civilização ocidental. Nesta abençoada terra dos nossos antepassados indo-europeus tudo se reveste de sagrado, mesmo se das relíquias do seu grandioso passado só resta o esqueleto daquilo que foi a Aryavartha. É verdade que hoje a Índia padece de muita pobreza e sujidade e as doenças que resultam da falta de infraestruturas de higiene chocam os nossos hábitos ocidentais, mas mesmo assim este país, que é um dos mais populosos do mundo, consegue seduzir-nos talvez por ainda não estar tão contaminada na sua alma, naturalmente devota e educada no aceitar a dor como um meio de redenção de velhas dívidas contraídas em vidas passadas.

A sua história é a história do mundo, das sucessivas renovações que ocorreram num tempo sem tempo, mito vivo da criação e da destruição, do devir em suspenso na dança cósmica de Shiva Nataraja, o Shiva de quatro braços que dança na roda de fogo, calcando o demónio vencido da matéria caótica. Com a sua mão direita ele segura um tambor que marca o ritmo incessante do impulso criador, com a sua outra mão levantada anuncia a paz protegendo aquilo que foi criado, com outra mão indica o pé que se levanta do chão em sinal de libertação, na esquerda ele segura a chama que irá incendiar o mundo velho.

Shiva Nataraja, sul da Índia, c. 1400 dC, bronze - Östasiatiska museet, Estocolmo / Wikimedia Commons
Shiva Nataraja, sul da Índia, c. 1400 dC, bronze – Östasiatiska museet, Estocolmo / Wikimedia Commons

Dos Rishis védicos ao bramanismo, do budismo ao jainismo, do sikismo, islamismo e cristianismo, todas as religiões coabitam multiplicando-se em milhares de seitas alimentadas pelo mesmo propósito de ascender à realidade absoluta. Cada Divindade constitui um caminho, uma via de acesso à Verdade, e pouco importa o meio de lá chegar porque o importante é aquilo que está por detrás dos véus de Maya, a ilusão da separatividade criada pela matéria. O politeísmo da Índia revela-se como um símbolo de liberdade de expressão e de tolerância, a imagem serve de suporte e de comunicação com o poder que está por detrás. Para além das Divindades importantes, na Índia veneram-se os rios, as montanhas, o sol e a lua, os astros, as pedras, as plantas, os animais porque tudo está em tudo.

Na filosofia hindu, o espírito, Purusha, é o Princípio elementar, primordial, puro, consciente, eterno, não criado, inativo, e como não pode tocar a terra é imaginado paralítico; por outo lado a matéria, Prakriti, quando tocada por Purusha, entra em atividade e dá origem a todas as mudanças que ocorrem na manifestação, diz-se que é cega porque não possui consciência. Deste modo a Divindade, projeção de Purusha, exprime-se através da sua Shakti, emanação de Prakriti, e daí resulta uma hierogamia mística personificada pela união do princípio masculino abraçado ao seu princípio feminino. Desta união entre o Céu e a Terra nasce o mundo na sua diversidade de planos, por isso os templos hindus são constituídos por sobreposições de terraços que representam os diversos planos de existência ou linhas de água que se elevam como uma montanha. Nas fundações do templo, no quadrado mágico da terra, encontra-se encarcerado o embrião de ouro, símbolo da presença oculta do homem eterno. No átrio do Sancto sanctorum que só a luz nascente vem beijar, o peregrino descalço pode depositar as suas oferendas e comungar com a Divindade. O coração do templo é exclusivamente reservado aos brâmanes, sacerdotes responsáveis pela organização dos ritos e sacrifícios em honra da Divindade.

Culto das pedras e árvores (Mandu)
Culto das pedras e árvores (Mandu)

As Shaktis dos principais deuses do Hinduísmo são: para Vishnu é Lakshmi, a Vénus hindu, símbolo de prosperidade, do amor e da beleza; as shaktis do deus Shiva são Parvati, Durga, Rudra e Kali, estas representam a manifestação dos poderes que purificam e libertam a energia de vida; Sarasvati, deusa da linguagem, das artes, do sacrifício e do conhecimento sagrado é a Shakti do deus Brahma. Os três deuses formam a Trimurti: Brahma, a criação; Vishnu, a construção; Shiva a destruição.

A Índia possui tesouros artísticos de uma grandeza sobre-humana, montanhas esculpidas, grutas ornamentadas de pinturas deslumbrantes de graça e delicadeza, mesquitas, mausoléus de mármores brancos incrustadas de pedras preciosas, palácios sumptuosos, fortalezas que desafiam o céu, santuários animistas, ghats ou escadarias monumentais que se encontram nas margens dos rios sagrados, lugares de cremação, purificação e oferendas, pedras meteoríticas que assinalam os 12 grandes centros de peregrinações ao deus Shiva sob a forma do Shiva-linga (pedra com forma de falo). Sobre esta terra que foi o berço da nossa civilização cruzaram-se tantas influências e conhecimentos que qualquer ser humano sente-se de regresso à casa mãe, aqui sentimos que a nossa essência humana está para além das nossas diferenças multiculturais e raciais.

Altares de oferenda deixados por peregrinos na cidade sagrada de Muchkund
Altares de oferenda deixados por peregrinos na cidade sagrada de Muchkund

Houve várias imagens que me marcaram nesta travessia pela Índia profunda, uma delas surgiu quando atravessando uma pequena cidade do Interior, cruzamo-nos com dois digambaras, ascetas jainistas totalmente nus, caminhavam no meio da multidão agitada, como recém-nascidos vestidos de espaço etérico parecendo deslizar como vultos transparentes. Uma outra imagem cheia de frescura é sem dúvida a das crianças que estão em todo o lado como bando de pardais. Que lindo espetáculo estes jovens felizes, de farda a rigor, regressando a casa após o seu dia escolar e que estranhando a nossa presença por estas paragens, tão pouco frequentadas por turistas, pediam fotos, fotos com um sorriso do tamanho do mundo. Surpreendeu-me o número de escolas que cruzamos no nosso caminho, já que o Estado Hindu proporciona a gratuitidade da escola pública oferecendo para todas as crianças uma farda limpa, uma refeição diária e os livros escolares gratuitos.

Templos em forma de montanha de Khajuraho
Templos em forma de montanha de Khajuraho

A luz nascente vindo beijar o Sacto Sanctorum (Khajuraho)
A luz nascente vindo beijar o Sacto Sanctorum (Khajuraho)

Belíssima recordação de fim de tarde, quando os búfalos, as cabras e as vacas com os seus chifres pintados e os seus colares de pequenos sinos regressam tranquilamente à sua família humana. Frente às casas de adobe pintadas de mandalas auspiciosos, mulheres vestidas de saris coloridos olham-nos com curiosidade e convidam-nos a parar para fotografá-las. As suas singelas casas de portas abertas deixam entrever o fogo do lar alimentado dos excrementos das vacas e búfalos prensados e secos ao sol. Felizmente a Índia ainda continua a utilizar adubo orgânico, este fertilizante natural muito abundante que contribui para a prosperidade da sua agricultura. Nas proximidades das casas sempre se pode ver uma pedra pintada de laranja vivo, envolvida em oferenda florida, representação do Shiva-linga, símbolo de fecundidade.

O Shiva-linga é uma pedra em forma de falo que se encontra frequentemente colocada no centro do yoni, recetáculo de forma ovoide, símbolo muito explícito da vagina. O lingam-yoni representa a união Pai e Mãe, geradora de vida. Este símbolo que se encontra em todo o lado é visto com a maior das naturalidades, já que para os hindus tudo é expressão da vida.

A geografia sagrada e a localização de certos santuários são determinadas através do Vastu Sastra, tratado de arquitetura e antepassado do Feng Shui chinês. A geografia deste subcontinente é uma narração cosmogónica e mítica. Nos vários sítios que visitamos encontravam-se sempre as pegadas dos seus deuses e heróis. Em Bopal passou Krishna, guia e pastor das almas. Ganesha, o deus com cabeça de elefante, símbolo de prosperidade, encontra-se em todos os lugares comerciais, deus popular sempre presente para dar sabedoria e ajudar a vencer os obstáculos. Kama, filho de Lakshmi, é o deus do amor e dos desejos. Os muito visitados templos de Khajuraho, no Estado de Madhya, famosos pelas esculturas eróticas provavelmente inspirado no yoga tântrico da dinastia dos Chandela, mostram-nos sem pudor e com grande virtuosidade de plasticidade, corpos entrelaçados em múltiplas posições sensuais. Esta orgia dos sentidos, que recobre as fachadas dos templos, é reflexo da vida mundana que surge como uma chamada para uma catarse assinalada pela presença de Makara, o monstro aquático devorador das paixões terrenas e guardião do pórtico que separa o exterior do interior do templo. No interior dos templos Agni, o fogo sagrado, está sempre presente, ele ilumina o Shikhara, onde se encontra o deus do lugar. Com o seu poder purificador ele devora a substância e liberta a essência luminosa da oferenda. Soma, o sémen lunar, é o combustível do sacrifício.

Durante a nossa estadia em Ujjain, lugar sagrado dedicado a Shiva, presenciamos o delírio do fervor religioso, por toda a parte vendem-se flores, pequenos bolos de oferenda, incenso, lucernas, cruzam-se yoguis de rostos pintados e cobertos de cinza, peregrinos tão numerosos misturando-se com cabras, vacas e “tuk-tuk’s” numa turbulência de sons de buzina e de tambor que deixam qualquer pessoa totalmente embriagada. Nos Ghats de Ujjain, assistimos aos ritos de purificação nas águas tingidas de flores e lamparinas. É um espetáculo comovente e de grande intensidade porque ali cada um despe-se da sua identidade invocando a renovação pelas águas da Mãe Ganga.

Em Sanshi, um dos mais importantes lugares de peregrinação budista, visitamos o grande Stupa que contém as relíquias dos primeiros discípulos de Buda. Aqui tive a oportunidade de viver um momento mágico que ficará gravado para sempre na minha memória. Encostado à cúpula do Stupa, encontrava-se um monge budista vestido com a sua túnica de açafrão, inclinei-me e tocando os seus pés pedi-lhe a sua bênção, com um gesto pediu-me que me descalçasse e junto dele, com a minha fronte encostada à pedra, deixei-me ficar em silêncio até que, como se algo dentro de mim fosse engolido por uma força subterrânea, sentia as lágrimas saírem como uma torrente que não conseguia controlar. Com a sua mão, o monge batia de forma cadenciada no chão que repercutia na minha cabeça como o som de um tambor. Este momento trouxe-me uma paz profunda, como se tivesse aberto alguma porta fechada do meu coração.

No Estado de Maharashtra, no coração da Índia, encontram-se os famosos templos-gruta Budistas de Ajanta e de Ellora. Estas extraordinárias construções esculpidas em basalto datam do século II a.C. e estendem-se até ao século VIII d.C. Formando um gigantesco arco no meio de uma vegetação deslumbrante com cascatas que deslisam entre as rochas, Ajanta é a capela Sistina da Índia, com as suas trinta grutas escavadas e pintadas com temas budistas. Na gruta nº1, onde se encontrou o fresco pintado do famoso Bodhisattva Padmapani, não me pude conter de chorar outra vez, mas agora de comoção pela beleza deslumbrante desta imagem emergente da obscuridade e que emitia uma suave luz verde azulada muito tranquilizante. O sorriso ligeiramente esboçado e os olhos semicerrados, ligeiramente inclinados para baixo, pareciam olhar dentro de nós. Quanta compaixão emanava do seu rosto inclinado e que desde o alto da sua montanha de luz aguarda o sinal da sua última descida para oferecer-se em sacrifício no altar do mundo. Nos seus dedos delicados segura um lótus azulado, símbolo da entrega do seu coração devoto por amor à humanidade.

A autora junto da pintura do Bodhisattva Padmapani (Ajanta)
A autora junto da pintura do Bodhisattva Padmapani (Ajanta)

Ajanta trouxe-me um ensinamento profundo. Aqui no Ocidente vivemos fechados sobre o nosso ego, a nossa postura defensiva e de desconfiança em relação ao outro, o medo de nos entregar e de perder algo. Vivemos prisoneiros da nossa opaca individualidade e olhamos o mundo com indiferença e constante suspeição de conspiração. Somos uma grande família humana que necessita urgentemente de abrir o seu coração, porque sem os outros nunca saberemos quem somos de verdade, a conquista espiritual passa pelo resgate da fraternidade e da saudável convivência humana, porque somos todos filhos do mesmo Pai, independentemente do nome que cada um lhe queira atribuir.

Aqui em Ajanta e Ellora, fechamos com chave de ouro o nosso périplo. Foram dias maravilhosos e o feitiço da Índia trouxe-me uma oportunidade de reencontro com algo que a minha mente conhecia mas que o meu coração ainda não tinha escutado. Não sei se voltarei novamente à Índia, mas também pouco importa a distância física que nos separa de certos lugares, estes não são só lugares geográficos, são estados de alma que ficarão sempre gravados na nossa memória.

Para ti viajante que buscas o mistério, quis partilhar algo mais que palavras, estados de alma que talvez um dia te transportem até ao mais profundo do teu templo-gruta. Nunca desesperes porque tal como os monges tibetanos afirmam, “pedra sobre pedra, o espirito vence sempre!”

Viagem realizada em novembro de 2016
Fotografias de José Ramos (exceto a de Shiva Nataraja e do Bodhisattva Padmapani)
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