O Anjo: perfil do guardião dentro da pirâmide do Museu do Louvre, Paris

Fotografia de Pierre Poulain / www.photos-art.org
Fotografia de Pierre Poulain / www.photos-art.org
Este texto de José Carlos Fernández foi inspirado na fotografia acima de Pierre Poulain, fazendo parte de um projeto intitulado FiloFoto. 

Quantas vezes já vi esta fotografia e a primeira imagem que se forma na minha mente é a de um anjo! Só, fixando a atenção, e evitando que o pensamento se acelere à perceção, dou-me conta que é uma pessoa lendo no alto, desfocado o seu corpo pelos vítreos reflexos do parapeito de cristal que evita que caia no vazio, e enquadrada a sua figura pelos desenhos geométricos da pirâmide, que hoje permite o acesso ao palácio e Museu do Louvre.

Mas, então, porque vê a mente, ao descuidar-se, um anjo? Terá sido que ao ler o título da fotografia, tenha sido influenciado, sem chegar a ser consciente disso? Quiçá porque o que está no alto é o anjo e o rei, e a intuição sabe que o rei deve estar, ainda que no alto, firmemente assente na terra e só o anjo suspenso no ar, pois a sua raiz e fonte mística está no céu e só como mensageiro (este é o significado de “anjo” em grego) desce à terra angustiada dos mortais? Será porque a sua forma perde os seus perfis nítidos e neste aspeto fantasmagórico e sereno a única coisa que a imaginação pode forjar é a figura de um anjo? Ou será devido ao facto de sentirmos que quando alguém está erguido e com a sua alma mergulhada em contemplação, assume uma natureza angelical? Já nos disse o grande filósofo Ortega y Gasset que somos anjo e besta, e além do mais com problemas, puramente humanos, já que no problema existe sempre um desafio ou uma rede mental que está mais além do alcance da besta e ao qual é indiferente o anjo, que sempre cumpre a Lei de Deus, e deste modo carece de problemas, tal como nós entendemos o que é um problema.

Ao ver esta fotografia, e comprovando depois que não era o que parecia, chegamos a compreender o Quixote, com a sua alma cheia de imagens e valores de um mundo cavaleiresco, que vê na nuvem de pó o anúncio de uma gloriosa batalha, a aproximação de um exército, e só depois Sancho o recorda que era produzida, na realidade, por um rebanho de ovelhas; ou quando vê surgir no horizonte um gigante descomunal que não teme enfrentar, e Sancho, mais sensato, lhe diz que era só um moinho. Pois assim como a nossa mente mecânica e quotidiana se encontra cómoda num mundo utilitário formado de imagens dos sentidos, a nossa mente idealista vive de sonhos divinos, de símbolos e reminiscências que a fazem não só não perder a sua memória de imortalidade, mas que são o vínculo com a alma da natureza, e com a aspiração para o alto, sem a qual nos precipitamos no abismo da matéria que mata a alma.

Um mundo sem arte e poesia é um mundo sem beleza, ainda precisamos delas para sentir a poesia e arte da natureza. E a arte e a poesia estão povoadas de símbolos vivos, angélicas janelas que nos arrancam da prisão em que vivemos, e que nos permitem fazer na terra segundo a medida do céu, ou seja, criar verdadeiramente. É a questão de ser ou não ser, como nos disse Cícero, ou trazemos o céu à terra ou o céu nos é arrebatado, pois ficamos debaixo da terra e esta, como o sarcófago devora o corpo, vai consumindo os nossos mais vivos ideais e apagando a chama que os permite encarnar.

Que importa se o que vimos é anjo ou humano? Não são ambos (o verso e reverso) de uma mesma natureza? Não estão destinados, como figuram as cerâmicas gregas, a abraçar-se na eternidade? Os anjos — novo nome dos velhos deuses — existem e se nesta vida os nossos olhos não os veem, os da alma, através da imaginação, sim, e ainda a sensibilidade vibra como as harpas eólicas da Antiga Grécia, face à sua natural presença e mistério.

Comentários

Relacionados

Ashtavakra Gita, o sonho de uma alma livre e perfe... “Uma vez, no entanto, as formas conquistadas, sê-lo-ão pela essência, e tudo se resumirá nela. Onde estarão então as lutas fratricidas dos homens? Em ...
A Mulher de Branco Os filósofos herméticos diziam que tudo aquilo que possamos encontrar fora, com os sentidos, vive como ideia dentro de nós, somos o microcosmos de um ...
Era uma vez um rio Era uma vez um rio – diz uma velha tradição oriental – que corria mansamente no seu cómodo leito de barro. As suas águas eram turvas e nelas viviam pe...
Problemas pessoais no caminho do conhecimento de s... Porque temos estes problemas pessoais, basicamente emocionais? Por falta de conhecimento dos próprios mecanismos emocionais e, por conseguinte, pela i...