O Amor e o Barqueiro

Chegando, afinal, à margem do grande rio, o Amor avistou três barqueiros que se achavam, indolentes, recostados às pedras.

Dirigiu-se ao primeiro:

– Queres, meu bom amigo, levar-me para a outra margem do rio?

Respondeu o interpelado, com voz triste, cheio de angústia:

– Não posso, menino! É impossível para mim.

O Amor recorreu, então, ao segundo barqueiro, que se divertia em atirar pedrinhas ao seio tumultuoso da correnteza.

– Não. Não posso – respondeu secamente.

O terceiro e último barqueiro, que parecia o mais velho, não esperou que o Amor viesse pedir-lhe auxílio. Levantou-se, tranquilo, e estendendo-lhe bondosamente a larga mão, disse-lhe:

– Vem comigo, menino! Levo-te sem demora para o outro lado.

Our Mutual Friend by Charles Dickens
Our Mutual Friend de Charles Dickens

Em meio da travessia, notando o Amor a segurança com que o velho barqueiro navegava, perguntou-lhe:

– Quem és tu? Quem são aqueles dois que se recusaram a atender ao meu pedido?

– Menino – respondeu, paciente, o bom remador – o primeiro é o Sofrimento; o segundo é o Desprezo. Bem sabes que o Sofrimento e o Desprezo não fazem passar o Amor.

– E tu, quem és, afinal?…

– Eu sou o Tempo, meu filho – atalhou o velho barqueiro. – Aprende para sempre a generosa verdade. Só o Tempo é que faz passar o Amor!

E continuou a remar, numa cadência certa, como se o movimento de seus braços possantes fosse regulado por um pêndulo invisível e eterno.

Sofrimento, Desprezo… Que importa tudo isso ao coração apaixonado? O Tempo, e só o Tempo, é que faz passar o Amor.

 

Malba Tahan, in Os Melhores Contos

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