Fundamentação científica dos costumes

“O sumo bem consiste em viver de acordo com a natureza.” – Zenão de Cítio (336-264 a. C.)

A ciência relaciona-se com a ética de variadas maneiras. Além da ética deontológica que regula as profissões em ciência, existem normas que balizam a atividade científica no que diz respeito aos ensaios biomédicos, em adultos ou embriões, à manipulação genética, ao uso de tecnologia que modifique a vida humana, à poluição e ao impacto ambiental, entre muitas outras. A ética, frequentemente veiculada pelas leis, permeia todos os campos da ação humana.

Mas existe outra relação entre ética e as ciências da natureza. Se é habitual que para uma ciência ética se recorra ao pensamento de filósofos e políticos, é também possível conceber uma ética científica que proceda no sentido oposto: chegando a conclusões sobre a ética através da observação empírica. É hoje notável como os Estóicos – como Zenão de Cítio – viam no ideal do homem sábio algo bastante semelhante ao que muitos cientistas concluem após as suas experiências: que da compreensão da natureza podem ser derivados os princípios éticos para a nossa vida.

As descobertas científicas do último século – tanto na mecânica quântica como na biologia e nas neurociências, por exemplo – têm transformado a maneira como encaramos conceitos fundamentais da nossa visão do mundo, entre os quais matéria, mente, informação e realidade. As experiências em mecânica quântica que evidenciam a não-localidade, o entrelaçamento, a incerteza e a dualidade onda-partícula continuam a desafiar cientistas e filósofos para uma compreensão coerente e satisfatória do mundo físico.

As implicações éticas da mecânica quântica é ainda uma área de estudos cujo desenvolvimento é embrionário. Isto deve-se em parte à relativa juventude de muita da teoria de informação quântica, e por outro lado à dificuldade de saber concretamente que transformações à visão clássica do mundo estão a acontecer. Comparativamente, a fundamentação biológica da ética leva já mais de 150 anos de intensa produção intelectual.

Desde Darwin que inúmeras questões têm sido levantadas sobre como a evolução deu origem aos valores morais e como conciliar uma concepção materialista da vida com os princípios éticos. A este propósito escreve o próprio Darwin, numa carta a Cobbe, comentando a obra de Kant (Fundamentação da Metafísica dos Costumes): “It has interested me much to see how differently two men may look at the same points … the one man a great philosopher looking exclusively into his own mind, the other a degraded wretch looking from the outside thro’ apes & savages at the moral sense of mankind.”[1] 

Fotografia de ambos os lados de uma medalha que faz parte do Prêmio Darwin concedido a James E Bagnall / Wikimedia

Uma ética biologicamente evolutiva

É hoje comum considerar-se – fundamentando-se com experiências de genética, bioquímica e neurologia – que verdades morais extrassomáticas são crenças erradas e desnecessárias. Que as premissas morais se relacionam apenas com a nossa natureza física e são o resultado de uma idiossincrática história genética – uma história que é, ainda assim, poderosa e completa o suficiente para gerar códigos funcionais dentro da espécie humana.

Os cientistas da biologia evolutiva conseguem conceber que todos os códigos morais foram inteiramente produzidos pelos acidentes da história: “No abstract moral principles exist outside the particular nature of individual species. It is thus entirely correct to say that ethical laws can be changed, at the deepest level, by genetic evolution. This is obviously quite inconsistent with the notion of morality as a set of objective, eternal verities. Morality is rooted in contingent human nature, through and through.”[2]

Muitas experiências científicas foram assim conduzidas de modo a esclarecer a natureza das nossas ações, intenções e pensamentos morais. Mas, segundo Ruse e Wilson citados atrás, tem sido pouco utilizado o conhecimento sobre o cérebro e a sua evolução. Eles apontam a insuficiência de estudos e experiências direcionados às nossas capacidades consideradas mais positivas, que incluem o altruísmo e a criatividade. Enquadrando esta insuficiência no paradigma metafísico da moral, eles sugerem que a referida insuficiência possa ser causada por um inconsciente tabu que tenta proteger os assuntos do “espírito”, demasiado sagrados para serem alvo de análise.[3] Implicitamente, propõem que o conhecimento da natureza biológica pode dar-nos pistas sobre como melhorar os nossos códigos morais.

No seu livro The Altruism Equation (2006), Lee Alan Dugatkin percorre a vida e a obra de sete cientistas que tentaram encontrar a resposta a uma grandiosa questão: num mundo supostamente governado pela impiedosa sobrevivência do mais apto, porque assistimos a atos de bondade em humanos e animais? Dugatkin relata a história deste debate desde Darwin até ao presente. Faz isto através de personalidades como o príncipe russo Petr Kropotkin que queria basear a sociedade no altruísmo, o brilhante biólogo George Price que viveu obcecado pelo problema, ou William Hamilton que com uma equação reduziu o altruísmo à fria linguagem da seleção natural. Dugatkin circunscreve o seu excelente trabalho no cruzamento entre a biologia e as ciências sociais, deixando de fora, por isso, as considerações que poderiam resultar das teorias da mecânica quântica.[4]

 

A moral cerebral e a mente quântica

Passando às neurociências, podemos ver como o seu cruzamento com filosofia e psicologia tem sido levado ao encontro de respostas sobre a vida e os valores. Mais uma vez demarcando-se de ideias tradicionais como alma, livre arbítrio e imortalidade, Paul Thagard mostra no seu livro The Brain and the Meaning of Life que os assuntos do cérebro são fundamentais na compreensão da realidade, da moralidade e do sentido da vida.

Defendendo a superioridade do pensamento baseado na evidência em vez de na fé religiosa ou nas experiências de pensamento filosóficas, Thagard sustenta que o cérebro é a mente e que a realidade é limitada àquilo que a ciência pode descobrir. As nossas capacidades cognitivas e emocionais permitem-nos perceber a realidade, decidir eficazmente, agir moralmente e perseguir as necessidades vitais do amor, do trabalho e do divertimento.[5]

Desenho do cérebro humano / Wikipedia

O mesmo autor defende que o simples estudo (científico) da realidade física é suficiente para alterarmos a nossa visão do mundo e, consequentemente, as nossas crenças e os pressupostos em que nos baseamos para agir moralmente.[6]

Há uma afirmação de Einstein, frequentemente citada, para adjetivar a relação que temos com o universo, segundo a qual a coisa mais incompreensível é que ele seja compreensível. Com Planck e Einstein começou uma revolução conceptual que poderá conduzir a um novo sistema de valores para reger a nossa vida. Esta revolução, ao desestruturar alguns dos pilares do pensamento dos séculos precedentes, abriu espaço para que se tentasse introduzir características espirituais ou divinas nos fenómenos aparentemente inexplicáveis pela racionalidade normal. Pretendeu-se reencontrar – e continuam a publicar-se trabalhos nesse sentido – a sabedoria perdida e negligenciada pelo positivismo materialista, numa tentativa de restaurar o pensamento tradicional, harmonizando-o com a ciência.

O universo físico da teoria quântica, universo de interconexão, de não-separabilidade, implica uma participação do sujeito. Esta participação indica em alguma medida que talvez não possamos falar seriamente de uma objetividade absoluta ou de uma subjetividade absoluta da ciência. Poderemos por isso chegar à conclusão extrema de uma construção social das leis científicas, variável com a evolução dos sujeitos (homens-cientistas), tal como acontecia com os princípios éticos no pensamento de Ruse e Wilson, citados atrás. Através da mecânica quântica pode ver-se um mundo interconectado, interdependente, unificado num Grande Todo do qual somos parte. O cérebro, nesta perspetiva, participa na construção da realidade e produz leis morais para se enquadrar com sentido de harmonia a essa mesma realidade.

Abriu-se espaço a uma certa moda, talvez legítima, de querer aproximar a física contemporânea da tradição, muitas vezes na sua forma extremo-oriental. Assim, surgem algumas confusões numa área por vezes considerada esotérica devido à complexidade das descrições matemáticas da teoria quântica. Isto é alimentado pela nossa sociedade de consumo, onde tudo passa a produto de mercado – até mesmo o sagrado, até mesmo a ciência. E é claro que apesar do nosso modelo civilizacional porventura necessitar de alguns valores que lhe estejam em falta, de modo a reequilibrá-lo, os sistemas vigentes tentam sempre fagocitar tudo o que o pode pôr em questão.

 

Aproximando paradigmas

Reconhecendo o valor da convergência possível entre ciência e tradição, podemos ao mesmo tempo assinalar as diferenças fundamentais entre a aplicação de um pensamento científico ou de um pensamento tradicional: um marcado pela tentativa de objetividade, fundamentada nas evidências, à luz dos conhecimentos do passado (filosóficos, morais ou religiosos) e o outro vinculado com algumas concepções prévias que se procuram apoiar em resultados científicos.

São abordagens que sob algum risco poderão ser empreendidas conjuntamente, ficando a ciência tanto mais dependente da subjetividade do cientista quanto o seu envolvimento com as tradições que pretende cientificamente fundamentar.

Desde Einstein, Heisenberg e Bohr que conclusões acerca da moral se relacionam, pelo menos em analogia, com os resultados das experiências no mundo microfísico. Os trabalhos de David Bohm, Hans-Peter Dürr e, mais recentemente, Basarab Nicolescu e Lothar Schafer são alguns dos que tentam fazer a ponte entre a mecânica quântica e as consequências filosóficas de uma teoria física.

No seu livro Einstein and Religion, Max Jammer relata a influências recíprocas entre as convicções religiosas de Einstein e os resultados e experiências da sua atividade científica.[7] Um exemplo paradigmático é a famosa rejeição das conclusões iniciais do princípio de incerteza de Heisenberg, pilar fundamental da mecânica quântica, pelo argumento de que “Deus não joga aos dados.” Afinal, se até Deus joga aos dados, também os humanos podem fazer da sua vida um jogo de azar. Isto não impediu que Einstein fosse hoje considerado dos maiores cientistas de todos os tempos.

Albert Einstein / Pixabay

Mundo quântico – o mundo espiritual?

O princípio da complementaridade em física afirma que a natureza da matéria e da energia é dual em seus aspectos de onda e partícula, e que estes aspectos não são contraditórios, mas complementares. Quando Niels Bohr apresentou este princípio na mecânica quântica, apresentou conjuntamente o seu correspondente na bioética. A complementaridade em bioética ocorre quando duas perspectivas diferentes explicam propriedades igualmente importantes de uma situação, mas são mutuamente exclusivas. Ao contrário de outras abordagens, a complementaridade pode aceitar as duas perspectivas aparentemente contrárias. Como resultado, a complementaridade resulta numa tensão dinâmica que abarca o todo, em vez de um que resulte num julgamento moral singular e final.[8]

Lothar Schafer, ao jeito de Zenão, sugere que a ética surge de uma vivência de acordo com a natureza, de uma certa coerência entre os estados cerebrais (mentais) e o campo subjacente à realidade molecular dos neurónios – campo onde reside o que ele chama de ordem cósmica – através do qual a natureza está unificada, interconectada.[9] A informação é uma propriedade ativa deste campo, característica partilhada pela mente. Muito sinteticamente, a hipótese de Schafer é que a mente, respondendo à propriedade de unificação que subjaz na matéria, fá-lo através de pensamentos morais, os quais vão no sentido de nos unirmos e aproximarmos mutuamente, e não de entrarmos em conflito e de nos separarmos dos outros. A ordem cósmica determina desta maneira a ordem humana. Isto tem incontornáveis semelhanças com a teoria das ideias de Platão, o pensamento social de Confúcio, ou o culto a Maat no antigo Egito.

Refletindo sobre as hipóteses de Schafer, poderíamos aventar que a biologia seria, então, um meio evolutivo intermediário para o acesso a tal campo.

As evidências para a existência deste campo unificado são retiradas das experiências de comunicação de informação quântica, a uma velocidade maior do que a da luz, ou mais precisamente, de forma instantânea. Se dois pontos do universo, por mais distantes que eles sejam, podem estar em interação instantânea, isso quer dizer que esta ação à distância é equivalente àquela que existiria se os dois pontos estivessem absolutamente próximos, ou mesmo sobrepostos, unidos. Daí que as explicações para estes fenómenos recorram a uma dimensão através da qual estas interações pudessem acontecer, como que por dentro do espaço-tempo; um campo de interconectividade que está, no limite, simultaneamente em contacto com todos os pontos do universo. É fácil perceber como reflexões deste tipo podem comparar-se com noções como omnipresença, atributo tradicionalmente atribuído a um ser superior. Não é de admirar que o artigo citado tenha sido publicado no Zygon – Journal of Religion and Science.

Por isso que muitos autores afirmam a necessidade de aperfeiçoar o rigor da linguagem com que se comunica ciência a este nível. A imprecisão dos termos e expressões, normal em áreas de investigação recentes, é inclusivamente apontada como fonte de incompreensão e de conflitos. Como afirma Nicolescu, “a compreensão entre os homens reclama a formulação de uma linguagem exata. A linguagem científica é um dos modelos possíveis de uma tal linguagem exata”.[10]

Um dos modelos de linguagem científica aqui referida é o da linguagem matemática, capaz de, segundo este físico teórico, evitar as incoerências e ambiguidades da linguagem natural. Desde a Revolução Científica que é confiada à matemática a função de intermediária entre a razão e o mundo natural, de modo a atingir uma compreensão das leis do Universo. Pode ser esta compreensão das leis da natureza, intermediada pela mente e pelo cérebro (com a ação concordante correspondente), a origem da coerência que Lothar Schafer prescreve para uma vida ética, chegando-se assim, mais uma vez, a uma fundamentação científica dos costumes.

O poder do cérebro / flickr

 

[1] Ver: Letter 7145: Darwin to Cobbe, F. P. 23 March [1870?]): acedido em http://www.darwinproject.ac.uk/moralnature no dia 11 de Agosto de 2013
[2] Michael Ruse and Edward O. Wilson (2013, p. 566), Moral Philosophy as Applied Science, in “Exploring the Relationship Between Virtue Ethics and Moral Identity”, Ethics & Behavior, Volume 23, Issue 1, 2013
[3] Ibid. p. 571
[4] Lee Alan Dugatkin (2006), “The Altruism Equation: Seven Scientists Search for the Origins of Goodness”, New Jersey, Princeton University Press.
[5] Paul Thagard (2012), “The Brain and the Meaning of Life”, New Jersey, Princeton University Press.
[6] Michael Ranney e Paul Thagard; Explanatory Coherence and Belief Revision in Naive Physics, Tenth Annual Conference of the Cognitive Science Society: 17-19, p. 426, 1988.
[7] Max Jammer (1999), “Einstein and Religion”, New Jersey, Princeton University Press.
[8] Frederick Grinnell, Jeffrey P. Bishop, Laurence B. McCullough; Bioethical Pluralism and Complementarity, Perspectives in Biology and Medicine 
Volume 45, Number 3,
pp. 338-349, 2002
[9] Lothar Schäfer, Diogo Valadas Ponte, Sisir Roy; Quantum Reality And Ethos: A Thought Experiment Regarding The Foundation Of Ethics In Cosmic Order, Zygon, Volume 44, Issue 2, p. 265–287, 2009
[10] Barabab Nicolescu, in Nós, a Partícula e o Universo, Lisboa, Équilo, p. 180
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