Fumando à janela

Fotografia de Pierre Poulain / www.photos-art.org
Este texto de José Carlos Fernández foi inspirado na fotografia acima de Pierre Poulain, fazendo parte de um projeto intitulado FiloFoto.

 

Magnífica fotografia, pelo que sugere, pela beleza de formas e cores. Surpreende-nos que esteja dentro da exposição “72 Nomes do Divino”, evocação dos Nomes de Osíris da filosofia e magia egípcias, tal como os 99 nomes de Alá da tradição islâmica. Há cinquenta e tal anos, a julgar por todos os momentos de “êxtase” dos filmes, diríamos que o divino é pelo facto de estar a fumar. Hoje, por exemplo nos Estados Unidos, invertendo a categoria, diríamos que esse é um símbolo do diabólico.

Divinizado o corpo, tudo aquilo que o fere é demoníaco, não no sentido que lhe davam os gregos e romanos, em que os daimones eram filhos dos Deuses e pais das cidades que regiam, vinculando-as assim ao mundo celeste. Mas não, não é divino nem por fumar nem por deixar de o fazer. Seria divino por fumar se o tabaco — e o natural, não o que leva aditivos — fosse, como entre os índios americanos, uma cerimónia de paz e fraternidade. Seria divino por não fumar como expressão da vontade que recusa todo o tipo de dependências, e nada mais divino no ser humano que a vontade em si mesma, que não se submete ante nada, nem sequer ante a Lei pois é metafisicamente um raio da mesma, como demonstrou Kant com os seus imperativos categóricos.

Esta imagem está dentro da categoria dos 72 Nomes de Deus, no sentido de que expressa o mistério do Eterno Feminino. Estamos a falar de símbolos, do que nos sugere e desperta na imaginação, não de factos concretos e sensíveis que possam ser agarrados ou não com as mãos da carne e sangue do nosso corpo. A linguagem dos símbolos, a linguagem da imaginação, a linguagem da alma. Se quiséssemos ser realistas e um pouco baderneiros, poderíamos pensar que por detrás da cortina, quem está é um tosco barbudo, como Dom Quixote quando vê Dulcineia, enquanto os outros só veem Aldonza. A imaginação é certamente poderosa, e como disse Henrique V na obra de Shakespeare, “all is ready if our minds are so”, ou o Buda, nos seus ensinamentos do Dhammapada:

Nada nem ninguém, nem o teu pai nem a tua mãe

Te podem oferecer tanta ajuda

Como a tua própria mente disciplinada.

A ondulação da cortina, que se converte aqui num véu de mistério, que mostra e oculta ao mesmo tempo, a mesma ondulação da sua forma corporal em curvas e rebolados tão próprios da mulher, se estiver de costas, reafirmando assim a sua condição enigmática; as cores indefinidas, filtrada a sua luz pela trama da cortina, tudo isso faz desta imagem um símbolo do Espelho Mágico do Eterno Feminino, a quem na Índia chamaram Maya, a resplandecente ilusão de mil véus que dança e sorri amorosa a tudo o que vive, para que não cesse de se esforçar em buscar a perfeição.

Os Jogos de Maya são os jogos da vida que tentam as almas ávidas de experiência lançando-as mais e mais, uma e outra vez ao mundo, e consolando-nos como uma mãe quando o que procuravam (os seus joguetes) se desfaz entre as suas mãos.

Embora também os Jogos de Maya sejam os que seduzem quem anseia conhecer-se a si próprio, fazendo que esqueça a sua santa missão ou que erre em labirintos de espelhos ou que mude a sua firme resolução em riso de palhaço e onde já não importa a vitória ou o fracasso da nossa própria alma. Já não caminhamos livremente, mas arrastados com correntes como escravos, correntes de ferro ou de ouro, ou ainda de lágrimas, mas que nos afastam da senda sonhada e traçada.

E ainda assim a dor converte-se em experiência, esta em consciência, e esta no idealismo de novas buscas, agora mais prudentes, menos ingénuas. E que ninguém culpe Maya, pois Ela desdobra-se como o próprio caminho que deve ser percorrido, e quem se engana é o nosso discernimento, aturdido com sombras às quais dá vida e volume. Maya é a Face de Deus, ou o Véu no qual Este se reflete, e que a filosofia hindu chamou LUZ (Buddhi).

No livro “Os Jogos de Maya” da professora Delia Steinberg Guzmán mostra-se com pedagogia mestra como esta, a Natureza sempre boa e amável, nos leva pela mão ou no seu regaço até ao Deus que esquecemos ser. Divino oásis, divina miragem que nos faz sair finalmente do deserto, divina mãe de vida, divina ilusão, forjadora dos mais divinos Ideais, alimentos de almas, espelho puro do sempre bom, sempre verdadeiro, sempre justo e sempre belo, da Eternidade sem máscaras!

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