Estudos anatómicos de Leonardo da Vinci

Até ao Renascimento, na Europa, os conhecimentos de anatomia eram muito primários e as ilustrações muito escassas e rudimentares. Quando foi fundada a primeira escola europeia de medicina, em 1235, na cidade italiana de Salermo, as fontes de estudo de anatomia eram basicamente obtidas das fontes árabes a partir das obras Galeno do séc. II e as dissecações eram restritas a animais. A decisão de introduzir no currículo da escola de Nápoles o treino prático de anatomia em 1240 foi um impulso importante no avanço desta ciência. Meio século mais tarde surge Mondino De’Luzzi (1275-1326), aquele que é considerado o “restaurador da Anatomia da Idade Média”, produzindo em 1316 uma tese de quarenta páginas denominada Anothomia. Conhecedor dos escritos de Galeno, Aristóteles, Avicena e outras obras árabes, Mondino retirou daí muita da informação para a sua tese, a par de dissecações que realizou pessoalmente. O seu método para o estudo do corpo humano foi um modelo para gerações de médicos, anatomistas e pintores e muitas das pesquisas futuras de anatomia, como as do próprio Leonardo da Vinci, tiveram como ponto de partida e de referência a obra de Mondino.

O clima efervescente duma necessidade de conhecimento, muito baseado na “novidade” da experimentação, veio favorecer o progresso dos estudos de anatomia. Para a mudança de mentalidade, contribuiu especialmente a abertura por parte do clero, respeitante à dissecação de corpos, e a redescoberta de textos gregos conservados pelos muçulmanos assim como o crucial pensamento renovador dos humanistas. Apesar da prática de dissecações se tenha difundido durante o séc. XV, o progresso das ilustrações era no entanto quase nulo, tratavam-se de ilustrações grosseiras que eram inúteis para a aprendizagem.

Especialmente a norte da Itália surge um especial interesse dos artistas pelo estudo da anatomia, pois esse estudo irá ajudar os artistas a melhor trabalharem o desenvolvimento da perspectiva que então ocorre na pintura e que vai permitir uma representação tridimensional mais realista das estruturas do corpo humano. Os estudos da morfologia humana, que os artistas realizavam, incluía não só o das formas da superfície do corpo mas também das estruturas de suporte. A primeira academia de artes a instituir a obrigatoriedade do curso de anatomia foi a de Florença, onde os artistas copiavam, através da observação directa, cadáveres e esqueletos. Os mais ousados realizavam pessoalmente as suas dissecações, enquanto que a maioria participava das dissecações destinadas a plateias de médicos. No entanto este método de ensino ainda era muito peculiar, distanciando-se a teoria da observação prática, em que o professor de anatomia lia o texto em latim e um cirurgião-barbeiro fazia a demonstração, não procurando na verdade investigar para um melhor conhecimento, mas no máximo confirmar as teorias vigentes, como o atesta de forma critica Vesalius, considerado o pai da anatomia:

Ilustração dos procedimentos usuais nas universidades do Renascimento, conforme descrito por Vesalius

“Estes últimos ficam empoleirados no púlpito como macacos”, e com um notável ar de desdém, eles lançam informações a respeito de factos dos quais nunca se aproximaram em primeira mão, mas que meramente dizem de memória dos livros de outros, ou dos quais leem descrições que têm em frente dos seus olhos. Os primeiros são tão ignorantes em línguas que são incapazes de explicar as suas dissecações aos observadores e apontar ao que deveria ser exibido segundo as instruções do médico, que nunca coloca a sua mão na dissecação, e desprezivelmente governam o navio fora da acção, como se diz. Assim, tudo é erroneamente ensinado, dias são gastos em questões absurdas…”

Ilustração dos órgãos internos no “Antropologium” de Magnus Hundt (1501). É impressionante a rudeza da ilustração, principalmente se tivermos em consideração que Leonardo da Vinci fez os seus desenhos do crânio humano

O Renascimento vai mudar esta postura, passando de uma cultura de memória e instrução para uma cultura de descoberta e invenção. No entanto as ilustrações continuam a ser poucas e rudes, já que os próprios professores davam pouco importância a estas, pois a ciência tinha que ser discursiva. A inclusão de gravuras nos tratados de anatomia foi surgindo gradualmente e o próprio Vesalius enfrentou várias resistências para as incluir na sua obra.

A formação de Leonardo da Vinci inicia-se aos 18 anos no atelier de Andrea del Verrocchio, o qual insistia que todos os alunos deveriam aprender anatomia para poderem representar os corpos humanos com a maior exactidão. Aos 20 anos Leonardo é admitido na Companhia de Pintores. Os seus estudos de anatomia começaram pela leitura das obras de autores da medicina pré-renascentista, como as do já referido Galeno de Pérgamo (129-200), Mondino dei Luzzi (1270-1326) e Avicena (980-1037), entretanto inicia os primeiros estudos práticos de anatomia assistindo a dissecações, que então já eram usuais e às quais se leváva os artistas a observá-las. Simultaneamente. Ele próprio irá realizar estudos em dissecações de animais. A obra “S. Jerónimo” de Leonardo, datada de 1480 e o estudo de S. João Baptista de 1478 mostram já um grande conhecimento da musculatura humana e a articulação dos seus membros.

São já notórios os conhecimentos de anatomia de Leonardo nesta obra “S. Jerónimo” de 1480

 

Estudo para Madona com o menino e gato de 1478. Deste estudo não se conhece uma pintura dele resultante, mas onde observamos um exemplar da retratação das palavras de Vasari: “deu às suas figuras o movimento e o sopro da vida.

Uma das características muito particulares da aplicação dos estudos anatómicos de Leonardo, o que demonstra o seu olhar profundo que busca não só o entendimento das formas e da sua funcionalidade mas as causas que as movem, é o modo como os movimentos musculares e dos membros reflectem estados de alma, como os estudos das madonas em que os movimentos expressam afecto, e noutros esboços e obras o carácter ressalta das posturas e tensões musculares dos seus personagens, tal como as suas retratações das mãos que reflectem todo um rigor e intensidade no gesto, só possível do resultado do profundo conhecimento anatómico das mãos assim como das tensões e relaxamentos musculares resultantes de cada alma do gesto.

Grande parte da originalidade das descobertas anatómicas de Leonardo está precisamente no facto de não ter somente procurado definir as estruturas do corpo humano e os seus diversos órgãos, muitas vezes em estudos comparados com os de animais, mas essencialmente por avaliar e determinar-lhe uma função apropriada.

Apesar da necessidade do conhecimento anatómico para as suas produções artísticas, Leonardo não considerava a anatomia como algo simplesmente coadjuvante da arte e por isso os seus estudos ultrapassaram largamente as suas necessidades para o desempenho artístico, fazendo parte de todo o seu espírito paradigmático do homem renascentista a compreensão de todos os aspectos da natureza.

Foram mais de 1.200 os estudos e ilustrações de anatomia humana que Leonardo da Vinci realizou baseado em mais de 30 dissecações ao longo de cerca de 30 anos. Estes trabalhos foram desenvolvidos de forma descontinuada em vários períodos, tendo o primeiro deles ocorrido no início da sua actividade artística. O facto de ser membro da agremiação de S. Lucas, que estava associada à confraria dos médicos e farmacêuticos sedeada no hospital de Santa Maria Nuova em Florença, permitiu-lhe obter permissão para aceder aos cadáveres de doentes aí falecidos para as suas primeiras observações anatómicas. O período seguinte, chamado preparatório, decorreu aproximadamente entre 1487 e 1495, tendo realizado os seus estudos e dissecações no hospital Maggiore. Entre 1507 e 1508 ocorre um período marcado pela observação de um doente centenário falecido no hospital de Santa Maria Nuova de Florença e na qual regista e comenta pela primeira vez as lesões ateroescleróticas e comparando essas lesões com as observações dos vasos de uma criança de dois anos autopsiada registou a notável conclusão que a parede vascular ficaria progressivamente mais espessa com a idade e que a redução da perfusão sanguínea justificaria a sensação de frio e as alterações tróficas periféricas mais frequentes nos idosos. A última fase, iniciada em 1509, em Milão, vai marcar o seu afastamento dos conceitos galénicos vigentes a favor das suas próprias observações e deduções.

Um marco inicial importante ocorre em 1489 em que terá tido acesso a uma caveira humana a partir da qual aproveitou para realizar desenhos da estrutura global mas também de secções através de cortes e nas mais variadas perspectivas. No corte sagital observa-se a cavidade craniana o osso zigomático e os maxilares e no corte sagital vêm-se os seios frontais e maxilar. Também representou o nervo maxilar superior saindo pelo orifício maior da base do crânio e emergindo ao exterior pelo orifício suborbitário. Num outro desenho aparece representado o jugular e a carótida com as suas ramificações faciais, constituindo a primeira representação do sistema vascular nervoso desta região. Trata-se de um raro estudo com desenho in loco, dado que Leonardo, de um modo geral, compunha de memória as suas ilustrações e demonstrações sem estar a observá-las directamente. É a partir daqui que realiza os seus primeiros estudos sobre o cérebro, a visão e outros sentidos, tendo realizado a primeira representação e descrição conhecida dos seios frontais. Estes estudos prolongar-se-ão até 1495.

“A cabeça divide-se em dez partes, cinco externas e cinco internas; as externas são o cabelo, a pele, os músculos, a fáscia e o crânio. As internas são a dura-máter e a pia-mater (que envolvem o cérebro). A pia-máter e a dura-máter aparecem de novo por baixo e encerram o cérebro; seguem-se a rede mirabili e o osso ccipital, que suporta o cérebro, de onde emergem os nervos.”

Leonardo da Vinci

Primeira descrição e ilustração conhecida dos seios frontais realizada por volta de 1489.

Entre 1510 e 1511 Leonardo colaborou com o médico anatomista Marcantonio della Torre, de Pavia, para a realização conjunta de um tratado de anatomia, tendo para tal Leonardo realizado 228 desenhos. No entanto, a morte repentina do médico fez que a obra nunca chegasse a ser publicada e o que poderia ter revolucionado os conhecimentos anatómicos e da medicina acabou por nunca chegar à comunidade médica.

A grande produção de estudos anatómicos de Leonardo ocorre entre 1510 e 1513, já reflectindo uma nova metodologia que consistia na observação e no registo para de seguida investigar as suas funções. É desse período o conjunto de observações realizadas sobre a visão e sistema nervoso, assim como dos músculos de todo o corpo e dos seus movimentos, a par de estudos de morfologia e mimica facial e estudos comparados de anatomia humana e animal.

Comparação entre o estudo anatómico da pata traseira de um cão e o membro inferior do homem (cerca de 1504-1506).

 

Curioso estudo projectando a estrutura das asas sobre um dorso humano.
Desenho dos órgãos internos de uma mulher (1508-1509)

Do seu período final conta-se um dos seus desenhos anatómicos mais extraordinários, a representação dos órgãos internos de uma mulher onde se observa o coração, principais vasos sanguíneos, aparelho urinário e ginecológico. Trata-se de algum modo de uma síntese dos seus conhecimentos, ilustrando a localização relativa dos órgãos e as suas inter-relações.

Igualmente assombrosas são as observações anatómicas e conclusões fisiológicas de Leonardo sobre a estrutura do coração, descrevendo-o como um músculo, que como os restantes se abastece através de veias e artérias, tendo sido o primeiro a perceber que o órgão tem quatro câmaras, e não duas, e descobriu os átrios, chamados por ele de os dois “ventriculos superiores”. Descreveu os movimentos de diástole e sístole cardíacas, o sincronismo da contracção cardíaca com a pulsação periférica. Fez um molde de vidro tridimensional da aorta para estudar o funcionamento da válvula aórtica e a ejecção sistólica do sangue através da aorta que só no séc. XX ficou plenamente demonstrado pelas modernas tecnologias. Igualmente estudou as válvulas tricúspide, pulmonar, mitral e aórtica.

A) Vórtex de fluxo de sangue na raiz da aorta, Leonardo da Vinci;
B) e C) Vórtex de fluxo de sangue na raiz da aorta, por ressonância magnética

Neste mesmo período e durante vários anos realiza estudos sobre o sistema reprodutivo do homem e da mulher realizando esquemas anatómicos e funcionais, assim como os órgãos no coito, mostrando uma boa parte da enervação e vascularização dos órgãos sexuais masculinos. A par vai realizar investigações sobre a embriologia em vacas e sobre um feto humano de sete meses do qual resultaram extraordinários desenhos.

“No caso desta criança, o coração não bate e não respira, porque está permanentemente dentro de água. Se respirasse morreria afogada, e a respiração não lhe faz falta, porque a vida é alimentada através da vida e da alimentação da mãe. Os dois corpos são governados por uma única alma.”

Leonardo da Vinci

O desenho do útero mostra as três camadas do tecido uterino e as irrigações sanguíneas, além disso possibilita a visualização da estrutura exterior ao feto que pode ser entendida como a placenta. O feto encontra-se representado com os braços e pernas flectidos, assim como a cabeça, em posição pronada, podendo-se também visualizar parte do cordão umbilical. Em torno do desenho central podem ainda indentificar-se os esboços das camadas teciduais do útero.

Estabelece relações anatómicas entre a laringe, a traqueia e a produção de sons, além de ter desenhado os principais constituintes do tubo digestivo, registando detalhes anatómicos como o apêndice.

Os seus estudos práticos através de dissecações foram interrompidos em 1515, ao ter sido acusado de práticas sacrilégias pelo Papa Leão X, tendo-lhe proibido a entrada no Hospital do Espírito Santo de Roma.

Desenho que mostra a constituição dos membros desde a estrutura óssea com a sobreposição dos tecidos musculares e tendões

Leonardo não se limita a elaborar desenhos dos seus estudos, eles estão repletos de notas riquíssimas de demonstrações e estudos funcionais das estruturas que são desenhadas com uma enorme clareza e que vão demonstrando em ângulos diferentes e algumas em corte criando visões de diferentes secções. A técnica que utiliza para uma grande parte dos seus desenhos anatómicos só é possível graças à sua genialidade e memória, ao reconstruir as estruturas sobrepostas de dentro para fora, contrária à ordem da dessecação nos seus estudos, sendo realizados posteriormente de memória no seu estúdio.

“Esta minha configuração do corpo humano ser-te-á demonstrada como se tivesses o homem natural diante de ti. O motivo é que se desejas conhecer a fundo as partes anatómicas do homem, deves dar-lhe a volta ou girar o teu olhar para examiná-lo de diferentes lados, desde baixo, em cima e dos lados, dar a volta em seu redor e investigar a origem de cada parte”

Leonardo da Vinci

Estudos sobre o cérebro (1508)

Exemplos da sua metodologia, rigor e perfeição de trabalho são a reprodução exacta de cavidades ósseas, como por exemplo os seis maxilares e frontais, e dos ventrículos cerebrais para o qual inventou uma técnica que consistia em injectar cera líquida no cérebro de um boi para descobrir as suas formas, que pode observar não serem regulares, e a partir daí ter elaborado os seus desenhos e estudos, tendo feito a primeira descrição precisa das artérias menígeas. Inovador nas técnicas de investigação, utilizava injecções de corantes nas veias e artérias para estudá-las e ao sistema circulatório, assim como criou uma técnica para o estudo do olho recorrendo à impregnação deste com clara de ovo, após o que procedia aos cortes das partes coaguladas, um processo que precedeu em cerca de quatrocentos anos as técnicas de corte histológico.

“Ao fazer a anatomia do olho, para poder ver bem o interior sem derramar o humor aquoso, temos que colocar todo o olho em clara de ovo e cose-lo até que solidifique, para de seguida cortar o ovo e o olho transversalmente, de modo que não se derrame nada da parte seccionada ”

Leonardo da Vinci

O olho, pela sua importante relação com a arte e especialmente com a pintura, foi um dos grandes interesses de estudo anatómico e fisiológico de Leonardo. Embora nos seus desenhos do olho não se vejam em grande detalhe as estruturas e o cristalino seja mostrado numa posição central errada, que era a concepção da época, mesmo assim o cristalino era considerado o local onde se levava a cabo a visão. Outros desenhos mostram o quiasma óptico assim como os nervos cranianos. Podem ser identificados sete pares, incluindo os nervos olfactivos, os quais nunca haviam sido descritos como nervos cranianos, assim como os nervos ópticos. Leonardo foi o primeiro a representar com todo o realismo a trajectória destes nervos ópticos e como se cruzam no quiasma óptico chamando a esse ponto “sentido comum”, neste local cria que se localizava o centro dos sentidos, onde hoje se sabe localizar o terceiro núcleo cerebral e o hipotálamo, o centro de regulação das funções orgânicas mais importante. Todos estes nervos cranianos deixaram de ser representados a entrar nos ventrículos, como ocorria até aí, mas atravessando o tecido cerebral que circundava o quiasma.

“O olho, instrumento da visão, está alojado no osso superior e no espaço debaixo deste (o seio maxilar) há um fluido que alimenta as raízes dos dentes. A cavidade do osso da maxila é similar em profundidade e largura à cavidade que contém o olho no seu interior e recebe veias no seu interior através dos orificios ”

Leonardo da Vinci

“A pupila do olho transforma-se em tantas dimensões diferentes como diferenças há nos graus de brilho e obscuridade dos objectos que se apresentam perante eles (…) Desta forma, a natureza consegue uma adaptação permanente e um equilíbrio contínuo através da contacção e dilatação da pupila, de acordo com a obscuridade ou brilho que se apresenta perante ela (…) A pupila encontra-se no centro da córnea, que tem a forma de parte de uma esfera, em cujo centro da sua base recebe a pupila. Esta córnea recebe todas as imagens dos objectos e as transmite através da pupila ao  lugar onde se realiza a visão.”

Leonardo da Vinci

Leonardo tinha conhecimento de que a imagem entrava em posição invertida no olho e depois era vista em posição correcta, já que o cristalino modificava a orientação dos objectos.

“Nenhuma imagem, inclusive o mais pequeno objecto, entra no olho sem ser virada ao contrário, mas quando penetra no cristalino é novamente voltada no sentido contrário e assim a imagem volta à mesma posição dentro do olho como a do objecto que está fora.”

Leonardo da Vinci

Estudos de Leonardo sobre óptica e a fisiologia do olho humano.

Leonardo é considerado também o percursor das lentes de contacto devido à criação de um dispositivo fabricado com vidro que continha água, esse artefacto era colocado sobre a superfície corneal provocando um fenómeno refractivo.

São impressionantes os seus estudos da coluna vertebral com enorme precisão e descrição das partes desenhadas, representando correctamente tanto a curvatura como o número de vertebras, assim como o seu aspecto funcional e para o qual terá contribuindo muito dos seus estudos de mecânica e engenharia.

As notas que coloca junto do estudo da coluna vertebral mostram bem a importância que procurava demonstrar para todo o artista do profundo conhecimento da anatomia:

“Esta representação é tão importante para o bom desenhador como a derivação das palavras latinas para os gramáticos, pois aquele que ignora quais são os músculos que produzem este ou aquele movimento desenhará mal os músculos das figuras nos seus movimentos e acções.”

Leonardo da Vinci

A influência da engenharia e da matemática é bem visível: roldanas, formas geométricas e engrenagens estão presentes em muitas das gravuras ao lado de estruturas ósseas, de tendões e músculos mostrando cálculos para interpretar os movimentos e a funcionalidade, estudos estes completamente inéditos.
Um dos desenhos mais famosos de Leonardo da Vinci é “O Homem de Vitrúvio”, de alguma forma o culminar dos seus estudos das proporções no homem e consiste num estudo baseado nas teorias do arquitecto Marco Vitrúvio sobre a aplicação da medida áurea ao ser humano. Segundo esta a proporção entre a distância desde a cabeça até ao umbigo e desde este até aos pés, deve ser a mesma que a proporção entre a distância desde o umbigo até aos pés e desde a cabeça até aos pés. Leonardo buscava o conhecimento da forma ideal do corpo humano, compreender todas as suas proporções e a sua unidade orgânica, em que cada parte era uma fracção de um todo. O corpo humano reflectia assim a harmonia regente do universo.

Leonardo nunca permitiu que os seus desenhos anatómicos fossem observados enquanto foi vivo, talvez não só por temer a possibilidade de plágio mas por entender que a compreensão dos esquemas requeria um espírito especialmente preparado. Tendo Leonardo escrito junto de um dos seus desenhos anatómicos:

“Que nenhum homem que não seja um matemático veja os elementos do meu trabalho”

Leonardo da Vinci

Apesar de toda a descoberta dos conhecimentos anatómicos e brilhantismo na sua ilustração, o trabalho de Leonardo desapareceu durante vários séculos até ser encontrado e publicado. Após a sua morte em 1519, todos os desenhos e textos de anatomia que produziu foram herdados pelo seu discípulo Francesco Melzi, que os terá guardado até 1570. Partir daí o percurso que esses trabalhos vão ter são praticamente desconhecidos, até evidências de estudos levam a crer que em 1690 na estariam na Biblioteca Real de Windsor, em Inglaterra. O primeiro esforço para trazer os seus desenhos e estudos ao conhecimento público terá ocorrido em 1898, com a publicação de alguns deles. Apenas no século XX houve um grande trabalho para organizar os desenhos e traduzir os textos que resultou na edição em livro da obra anatómica de Leonardo da Vinci.

A sua investigação anatómica, tal como em praticamente todas as áreas de saber às quais Leonardo se dedicou, e que foram imensas, conseguiu trazer uma dimensão que ultrapassou completamente o seu tempo. A sua visão profunda e atenta de tudo, a capacidade inventiva, um amor incondicional pelo conhecimento, assim como a sua capacidade de inter-relacionar todos os conhecimentos aquiridos foram muito provavelmente os segredos da sua genialidade. Se os seus estudos anatómicos tivessem chegado à área médica seguramente esta teria dado um salto de décadas e em alguns aspectos possivelmente de mais de um século.

 

Monografia efetuada em Fevereiro 2016
Bibliografia:
Leonardo da Vinci, um polímata da Renascença – Histórias da Medicina, Boletim da SPHM Vol. 22, Abril, Maio, Junho 2007
A ciência visual de Leonardo da Vinci: notas para uma interpretação de seus estudos anatómicos, de Eduardo Henrique Peiruque Kickhöfel
Algunos conceptos de Leonardo da Vinci sobre el ojo, de Eréndira Güemez-Sandoval

 

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