Dionísio: o Deus que regressa

Invoca a musa dos poetas, aquela que abre a porta e faz entoar a voz da alma. O teu discurso é como o vinho, embriagante e faz-nos vacilar. Arrebate-nos do chão e neste desequilíbrio, caminhamos nas ondas do espaço, invocando a memória de outros tempos. Entre caminhos serpentinos de poeira e de estrelas, ouvimos-te chegar, ao som da tua fervilhante orquestra que faz girar os astros, eles cantam o teu mistério. Oh Morte florida.

Elevação

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,
As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,
Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,
Para além dos confins dos tetos estrelados,

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,
E, como um nadador que nas águas afunda,
Sulcas alegremente a imensidão profunda
Com um lascivo e fluido gozo masculino.

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,
Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,
E bebe, qual licor translúcido e divino,
O puro fogo que enche o espaço transparente.

Depois do tédio e dos desgostos e das penas
Que gravam com seu peso a vida dolorosa,
Feliz daquele a quem uma asa vigorosa
Pode lançar às várzeas claras e serenas;

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,
De manhã rumo aos céus liberto se distende,
Que paira sobre a vida e sem esforço entende
A linguagem da flor e das coisas sem voz!

Charles Baudelaire

Entre a videira serpentina, os cachos cheios do teu suco e os álamos negros da sinistra entrada, invoquei o teu nome “IACCHOS” o duas vez nascido.

Dionísio, és mito, porque o mito contém uma verdade que sobrevive ao tempo. O teu mito é o mistério da vida renovada que acorda em cada primavera no sulco da matéria petrificada.

Chamaram-te “o estrangeiro” porque és o peregrino do círculo do tempo, a ponte entre dois mundos, aquele que regressa porque a essência da vida é eterna. És o Deus das duas portas e dos dois rostos, simultaneamente criança e ancião, tal como a esperança que nunca morre e a sabedoria que nos ensina a morrer para a ignorância. Tu és o Verbo encarnado, fruto da Ideação Cósmica, palco do grande festival teatral da vida.

Hermes com a criança Dionísio, de Praxiteles. Museu arqueológico da antiga Olympia, Grécia / wikimedia

Deus dos mil nomes que volta de um passado remoto, és conhecido como Shiva na Índia, Osíris no Egito, Jehovah Nissi em Terra de Israel, pedaços dispersos da dualidade Céu e Terra que te viu nascer, és filho do Demiurgo celeste e da infinita Mãe Natureza (Semele – Deméter – Isis). Em ti a luz do Deus dormente palpita no teu coração. Este coração que brota na Mater adormecida.

Da tua mãe Semele, consumida pelo abraço ardente do Aether sideral, foste salvo aos seis meses de gestação pelo rei do Olimpo que te ocultou da ira do Fatum na sua coxa, onde concluíste a tua gestação, por isso possuis o poder de mover o mundo. É o símbolo da liberdade que nos faz sair do determinismo, o movimento de ruptura e de rotação que nasce do desequilíbrio. É também o caminho feliz de regresso a casa, porque como o eterno peregrino Édipo, nasceste na Tebas sagrada.

Como Osíris foste perseguido na tua inocência, as Forças tenebrosas dos Titãs cobiçaram-te e cobrindo as suas faces negras de pó branco, atraíram-te para o seu ignóbil festim oferecendo-te brinquedos mágicos. No espelho das águas de prata pura viste reflectir o jogo do mundo, números que se animavam num caleidoscópio de formas incandescentes e que rodopiavam ao som da música das esferas. Embriagado pela beleza multicolor da luz refletida, perdeste o equilíbrio e caíste da montanha sagrada Nysa e nesse mesmo instante foste atraído pelo desejo do mundo titanesco que te desmembrou, coseu-te e assou-te. Zeus, alertado por Hermes do infame crime, interveio mas já era tarde, o acto foi consumado e das tuas cinzas espalhadas pelo mundo nasceram os humanos. Desta morte trágica só sobreviveu o teu coração salvo do furor dos salvagens Titãs pela deusa Atena, a Sabedoria do mundo, nascida da cabeça do teu Pai celeste.

Plotino, o filósofo Neoplatónico de Alexandria, afirmava que a imagem é o limite do conhecido. O espelho é o suporte do último degrau da realidade, este transmite a sensação da existência e serve para aprisionar a alma que olha para fora de si mesma e se projecta no exterior, produzindo uma sombra, uma ilusão do Ser. A Causa primeira inteligível olha para si mesma. Para Plotino, nós tornamo-nos naquilo que contemplamos.

Nos ritos funerários e nos Mistérios, o espelho servia para reflectir a abobada celeste, o caminho das almas ninfas que se amamentam do leite da cabra sideral Amalthée, associada à constelação de Capricórnio.

Capricórnio como uma cabra com um rabo de peixe, Espelho de Urania, 1825 / wikipedia

O desmembramento do teu corpo, tal como o de Osíris e Orfeu e também a paixão de Cristo, simbolizam o Ser que se degrada à medida que desce e se divide em formas separadas. Por isso as Ménades, que pertencem ao teu cortejo, ora representam os desejos do mundo que andam à solta, ora são chamadas as devoradoras de carne crua, (omophagia).

As Bacantes, Frederick Arthur Bridgman / wikimedia

O touro, um dos animais que te está associado, é o símbolo da tua virilidade fecunda, à semelhança do raio e do trovão que liberta as águas prisioneiras das nuvens e abre fendas na terra sedenta. O seu bafo quente e o seu casco poderoso que abre as fissuras na terra, preparam o caminho para a semente que irá germinar. Os seus chifres em forma de meia lua são o cálice da Deusa Mãe, sempre desejosa de receber esta água celestial derramada desde o concerto zodiacal primaveril no mês de Maio dedicado a Vénus Genetrix, a Deusa do Amor Pandemos, festa dos sentidos em que se celebra o teu reencontro com a jovem Prosérpina, filha amada de Deméter e que permaneceu durante seis meses cativa do deus Hades, o Senhor do mundo infernal.  No antigo Egipto a esterilidade era vista como nefasta, em certos ritos agrários dedicados à Deusa Isis; os homens e as mulheres costumavam flagelarem-se a fim de atrair a fecundidade; em Roma, nos mistérios da Boa Deusa, existiam ritos de flagelação com murta com o objectivo de despertar a fecundidade da alma.

O sacrifício é o tema central dos teus mistérios, dos quais tu és a oferenda, o Soma da religião Hinduísta, ora touro, ora cabrito porque a matéria é a túnica que aprisiona a alma. O teu sangue derramado no altar é luz cristalizada, é a água da vida que tornou o mundo fecundo e por isso és chamado de Deus Húmido. O vinho, tal como o sangue é frio e quente, solar e lunar. É o licor da aliança entre o céu e a terra. Como Osíris ensinaste aos homens a plantar a vinha, porque o segredo do vinho é o processo alquímico das tuas metamorfoses, dissolução ou morte, purificação ou separação e por último as núpcias reais que permitem libertar a essência.

Baco no Museu do Vaticano / wikimedia

O cabrito era o atributo dos teus iniciados. Foi o leite da cabra Amalthé que amamentou Zeus. Na constelação do Cocheiro, a brilhante estrela Capella assinala o teu regresso desde do inferno, onde foste resgatar a tua mãe Semele que se tornou uma das Hyades com o nome de Thyoné, estrela que brilha no olho da constelação do Touro.

Segundo Nono de Panópolis, poeta épico grego, nativo de Panópolis, na Tebaida egípcia, e que provavelmente viveu entre o final do século IV e o início do século V d.C., o equinócio de Outono era fixado pelo deitar da constelação do Touro e o levantar da Serpente. A pantera que acompanha Dionísio estava relacionada com o signo do Sagitário e o deitar da Cassiopeia, que era representada por uma corça. O leão solsticial, domicílio do sol, era associado a Bacchus, nome romano de Dionísio. A pele do gamo que cobria o teu corpo representava o céu estrelado.

Dionísio, Senhor das Humidades (Hyes), é também Halieus, o marinhero que atravessa as águas siderais que circundam os quatros cantos do mundo. Sobre a taça de libação de Exékias, vimos-te em pleno êxtase, deleitado na barca sem governante e remos encostadas, seguras numa das tuas mãos uma cornucópia, símbolo da abundância, e sobre o mastro do teu navio serpenteia uma videira com 7 cachos de uvas, à tua volta 7 golfinhos parecem flutuarem nesta substância indefinida cor de sangue. O salto dos golfinhos assemelha-se ao mergulho da alma que atravessa os dois mundos. Outrora em Argolide, conta a tradição que, perto do lago de Lerme, encontrava-se  uma das entradas para o reino dos mortos. Neste lugar realizavam-se concursos de natação e saltos que te eram dedicados sobre o nome de Dionysos Melanaigis, o deus infernal. O mundo liquido faz a transição com o mundo dos vivos por isso te foi atribuído o nome de Deus Lycophon (o que caiu) Senhor do salto e do salpicar quando emerge do mundo subterrâneo, rebolando sobre a terra sob a forma do divino Touro.

Túmulo do Mergulhador, Paestum, Itália, um afresco grega datada de 470 aC. / wikipedia

Nos simpósios funerários praticava-se o rito que constava de lançar uma gota de vinho numa taça colocada em homenagem ao defunto, este gesto simbólico assinalava o salto da alma do defunto que mergulhava nas águas do mundo inferior.

Na Grécia antiga eram atribuídos nomes de barcos aos vasos de libações em tua honra e nos teus cortejos transportavam-te num barco com rodas.

Dionísio está para além de todas as formas, joga com as aparências, elimina as fronteiras entre o conhecido e o desconhecido, estados “mayávicos” (ilusórios) da matéria em transformação, ora é representado como homem ora vestido de mulher, água e fogo, céu e terra, vivo e morto, jovem e velho, instinto e intuição, salvagem ou civilizado… é o deus da máscara.

A máscara tem múltiplas funções e interpretações, ora serve para ocultar, ora serve para revelar. No Teatro Mistério da Grécia antiga, os actores mascarados revelavam através dos mitos os grandes temas da criação do mundo, modelos arquetípicos da trajectória do devir humano. O teatro proporcionava para os espectadores uma vivência virtual dos Mistérios da existência e serviam ao mesmo tempo de catarsis ou purificação. Durante as celebrações dos grandes momentos do calendário anual, representava-se a paixão do ciclo dionisíaco.

Durante as festividades das flores, as Anthesterias, que se realizavam em finais de Fevereiro e início de Março, celebrava-se o renascimento da natureza, do qual Dionísio era protagonista. O primeiro dia das Anthesterias era chamado de Pithoiguia, etimologicamente vem de pitho, tonel, e oignynai, que significa abrir, ou seja “abrir os toneis” onde se guardava o vinho da colheita do Outono. Os vasos enterrados eram também canais abertos que permitiam a comunicação com os mortos. Ofereciam aos mortos em libação vinho, porque o vinho possuí a faculdade de transportar e alterar o estado de consciência.

Os rituais dionisíacos tinham vários elementos comuns: a máscara, a dança, o canto, o entusiasmo, que significa acordar o divino dentro do coração, a ideia de fertilidade e de renascimento associado ao phalos, símbolo arcaico do impulso criador que desperta a mãe natureza, é também a coluna de fogo que liga a terra e o céu. A palavra sperma do verbo – speirein significa semear. O lingam do deus hindu Shiva e o falo do deus Osíris no Egito têm o mesmo significado de poder gerador de vida. Este é responsável pela continuidade do ciclo de vida e morte, o grande anel da serpente simbolizando o ciclo evolutivo de descida e subida da alma pelo círculo do tempo, o Ouroboros.

Sacrifício a Baco, Massimo Stanzione / wikipedia

A descida pelo mundo da matéria representa a travessia da alma em busca da sua verdadeira identidade, purificada pelo sofrimento causado pela perda da sua verdadeira natureza  divina, irá iniciar o seu ciclo ascendente de reconquista, cortando os laços ilusórios que a prendem à terra. Ares Dionísio com o seu machado de duplo gume representa o poder que permite sair do labirinto.

Estátua de Dionísio, La Storta, Itália / wikimedia

Glória e Eternidade

Olho para o alto –
lá rolam mares de luz:
– ó noite, ó silêncio, ó
ruído de silêncio mortal!…
Vejo um sinal –
dos mais longínquos longes
desce devagar cintilante
uma constelação a mim…
(…)
Suprema constelação do
ser!
Tábua das figuras eternas!
Vens tu para mim? –
O que ninguém viu,
a tua muda beleza,
como? Ela não foge ante
meus olhos?
(…)
Emblema da necessidade!
Suprema constelação do
ser!
– que nenhum desejo alcança,
– que nenhum Não macula,
eterno Sim do ser,
eternamente eu sou o teu
Sim:
porque eu amo-te, ó
Eternidade!

Nietzsche, dos Ditirambos Dionisíacos

Enquanto embriagada segui-te entre as videiras e o mar alto, perdi-me nos meandros do teu veloz caminho serpentino, trago com estas palavras escritas a sombra da tua luz para iluminar os tempos sombrios que nos cabe viver.

Neste culminar de tempos velhos, o homem tornou-se um comedor voraz de existência, a sobreabundância de consumismo fala da sua fome interior, do seu vazio de transcendência. A sua falta de estabilidade o condena a vaguear, à mobilidade, à fuga, ao híbris e à busca incessante de prazeres sensuais que só aumentam a sua insaciável avidez e egoísmo. Homo faber que procurou através dos meios técnicos a sua salvação reproduzindo o eterno mito de Ícaro que com asas de cera quis tocar o céu. Detentor do permanente sonho do Demiurgo de criar o mundo, o homem quis encontrar a partícula de Deus nas entranhas na matéria, véu opaco e negro que oculta o mistério.

O sonho do homem não mudou, continua a ter o mesmo desejo de liberdade, plenitude e êxtase que só poderá ser alcançado através do retorno voluntário e consciente para o Ser.

Enquanto que o Sol Apolíneo representa o Ser como Unidade, manifestação da ordem, harmonia e beleza, Dionísio representa o eterno rebelde à lei implacável, o seu caminho é semelhante aos movimentos da serpente, que ora desce pelas profundas cavidades da existência, ora sobe pela montanha construída sobre as velhas peles das suas vidas passadas.

O regresso de Dionísio, é o caminho do filósofo, aquele que busca compreender aquilo que já não é e dirige-se para aquilo que aspira a ser. A inquietação humana pela procura da felicidade, leva-nos a tomar consciência da condição trágica do pathos existencial, e a construção do nosso futuro deve ser resolvida na base da nossa capacidade de fazer escolhas que não repitam erros passados. Entre a alma inocente da criança e a alma amadurecida do ancião está Mnemósine, a Deusa da memória, que preserva Alethea, a Verdade, e que junta o entusiasmo de Dionísio que dá asas para continuar em direção à nossa estrela guia.

É necessário estar sempre embriagado. Tudo está aí: é a única questão.

Para não se sentir o horrível fardo do Tempo que quebranta os vossos ombros e vos curva em direcção à terra, deveis vos embriagar sem trégua.

 Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como quiserdes.

 Mas embriagai-vos. 

Charles Baudelaire, Pequenos Poemas em Prosa

Os mitos gregos são um manancial de sabedoria e traduzem o desejo profundo do ser humano em conquistar a sua transcendência. Liberdade que Prometeu e Dionísio promovem na defesa e emancipação do fatum ou fatalidade derrotista. Dionísio assinala a porta de saída do labirinto, Ele é o arquétipo das futuras gerações. Ele encarna o ideal da morte consciente e florida, a libertação dos desejos ancestrais que nos arrastam para o sofrimento e a amargura. Dionísio convida-nos a virar a máscara para a face luminosa do deus dormente que habita na caverna do nosso eu ilusório. Entoemos então o hino à vida renascida que abre o nosso coração para festejar o regresso do deus da luz pura, Apolo, o mestre do grande acordo, aquele que cura as feridas do mundo e abre os olhos da alma que permitem contemplar, despida dos seus sete véus, a Afrodite de Ouro, a eterna juventude.

O nascimento de Venus, Sandro Botticelli / wikipedia

 

 Bibliografia:
Une introduction a sa pensée: le retour de Dyonysos, de Jean Brun
Origine de tous les cultes ou religion universelle  – Tome V, de Charles-françois Dupui
A Tragédia Grega – edições Nova Acrópole, deJorge Angel Livraga Rizzi
Mythe et religion en Gréce ancienne, de Jean-Pierre Vernant
La Mer Dionysiaque, de Maria Daraki
Isis sem Véu – voluma IV, de Helena Petrovna Blavatsky
Plotin et le miroir de Dionysos, de J. Pépin

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