Curiosidades e notas filosóficas sobre física quântica

No ano de 1887, no artigo “Deuses, Mónadas e Átomos” da Doutrina Secreta, H. P. Blavatsky escreveu:

“… Um por um, todos os factos e procedimentos das oficinas da Natureza podem revelar-se pela ciência exata, quando fornece uma ajuda misteriosa a alguns indivíduos para descobrir os seus arcanos. Após a conclusão dos grandes ciclos, relacionados com o desenvolvimento de raças, geralmente ocorrem tais eventos. Encontramo-nos no final do ciclo de 5.000 anos do Kali Yuga Hindu; e daqui até 1897 irá fazer-se um grande rasgão no Véu da Natureza e a ciência materialista receberá um golpe mortal.”

Numa das suas instruções Esotéricas para discípulos, ela mesma mencionava que tal revelação encontrava-se num livro de profecias, elaborado, no início do Kali Yuga (a 17 de fevereiro do ano 3102 A.C) pelos Sábios que conduzem o destino da Humanidade.

É evidente que, com esta afirmação, se refere à descoberta da radioatividade, e com ela, do interior do átomo, e o conhecimento do longínquo universo através do estudo dos raios cósmicos. Em 1896, a descoberta casual de Henri Becquerel, de que um calhau de minério de Pecheblenda, mineral que contém urânio, velou uma chapa fotográfica embrulhada em papel escuro, dentro de uma gaveta (eliminando assim a hipótese da fluorescência), permitiu à Ciência e com ela a toda a Humanidade, avançar numa dimensão nova e desconhecida. Dividindo o átomo em partículas ainda mais infinitesimais, veio também a ser descoberto que a matéria era, de facto permeável, outra profecia ou ensinamento de H. P. Blavatsky na sua Cosmogénese.

No ano de 1905 Einstein demonstra a existência inequívoca do átomo, ao estudar o movimento Browniano. Quase dois mil anos antes, o poeta e filósofo Lucrécio na sua Natura Rerum tinha escrito que a prova da existência dos átomos estava no movimento em ziguezague das partículas coloidais da poeira em suspensão no ar, quando feitas visíveis na presença de um feixe de luz: mas poucos deram o valor devido às suas palavras.

Os trabalhos de Pierre e Marie Curie sobre esta nova e surpreendente fonte de energia, e sobre o rádio, fez-nos dar um passo mais no mistério. A descoberta dos raios cósmicos, quando, em 1912, o físico Victor Franz Hess subiu num balão a 5000 metros, equipados com eletroscópios, foi outo passo. A descoberta e o trabalho com as partículas alfa, beta e gama (que hoje sabemos que são, respetivamente, núcleos de hélio 4, eletrões procedentes de uma desintegração no núcleo de neutrão a protão e fotões de alta energia emitidos pelo núcleo em processos radioativos) permitiu elaborar o primeiro modelo atómico “nuclear planetário”, o chamado modelo de Rutherford. O exame microscópico das bandas de luz emitidas por gases incandescentes permitiu estudar os níveis de energia ou “órbitas” no interior do átomo; e com estes elaborar o modelo de Bohr, e, de seguida, o das “orbitais” na equação de onda de Schrödinger, com os seus diferentes tipos e tamanhos (n, s, p, d e f). Heisenberg explicou todos estres saltos energéticos com matrizes matemáticas, ferramenta da álgebra até então praticamente desconhecida; e renunciou, com o seu famoso Princípio da Incerteza, a querer saber o que estava acontecendo fisicamente dentro do átomo, se é que acontecia algo fora das suas operações matemáticas: tinha nascido a Física Quântica. Vários anos antes, em 1900, Max Planck tinha determinado empiricamente a “moeda” mínima de energia que poderia ser trocada na Natureza, mínima, portanto, não infinitamente pequena e que formava a rede ou tecido da própria realidade, o “quanta de ação” (energia x tempo). A descoberta que fez Einstein da natureza corpuscular da luz, estudando o efeito fotoelétrico; e o da natureza ondulatória da matéria, por Louis de Broglie em 1923, analisando interferências ondulatórias de eletrões, fez com que se fechasse a porta atrás de nós e que ficássemos presos na escuridão de um labirinto (o da matéria) que era necessário iluminar e percorrer. A matéria é onda, a luz é matéria? Qu’est-ce que c’est ça?

Albert Einstein / Public Domain
Albert Einstein / Public Domain

 

Einstein, Schrödinger, De Broglie, Planck, por um lado, querendo libertar a Física Quântica de abstrações matemáticas impossíveis – o famoso “Deus não joga aos dados” – do absurdo por ser ilógico. Bohr e Heisenberg por outro lado – na base da chamada “interpretação de Copenhaga” – não querendo dar nome nem forma, nem traçar qualquer semelhança entre o mundo intra-atómico e o macroscópico, tensionaram a corda da nossa racionalidade.

Mas o golpe final foi dado por Max Born, ele foi quem cortou essa corda, deixando-nos cegos e “loucos” interpretou a equação de Onda de Schrödinger estatisticamente. As órbitas deixaram de ser tais, e as orbitais (da Equação de Onda) converteram-se em ondas de probabilidade de encontrar aí um eletrão! Quem sabe o que isto significa? Nos meus tempos de estudante corria uma piada de que a Teoria da Relatividade, realmente só a entendeu o seu criador, Einstein, mas que a Física Quântica, nunca ninguém a tinha entendido, se é que tal façanha poderia chegar a ser alcançada. Schrödinger protestou contra a impertinência da irracionalidade, e em 1935, explicou o absurdo desse ponto de vista, com a sua famosa alegoria irónica do gato que está morto e vivo ao mesmo tempo. Ironia que não foi entendida como tal e, pelo contrário, foi sacralizada como uma nova visão, absolutamente absurda se não for bem compreendida, ou mesmo bem compreendida – da realidade. O cúmulo foi quando Max Born afirmou que estava disposto a abandonar o determinismo no mundo atómico. Ou seja, a renunciar à lei de causa e efeito no campo quântico, num local x no espaço e no tempo, ou incluso, deduzimos, ao princípio de identidade: ambos três princípios intrínsecos, ou “a priori” da mente humana: os ossos de Kant certamente que se agitaram no seu túmulo de Königsberg, Aristóteles teria olhado com desdém, como se dissesse, “deixai-os, eles sempre serão como crianças” e Platão teria sorrido enigmaticamente, como a Mona Lisa.

A experiência quântica da dupla fenda, divulgada pelo Dr. Quantum do filme documentário (tendencioso e manipulador, adulterando as declarações dos cientistas entrevistados) “What the bleep do we know”, realizado pelos discípulos de quem diz canalizar o grande guerreiro atlante assim reencarnado, deixa-nos atordoados. Além disso, embora não seja dito, nem no filme nem na maioria dos textos informativos quantialucinantes, não é a consciência, não é a observação de que determina se é o eletrão que se comporta como uma onda -interferindo com ele mesmo- ou como partícula – sem fazê-lo. É a medição de um instrumento, o que tem implicações muito diferentes. Pode ou não haver um observador, é a medição que “fixa” o resultado, ou quem “colapsa a onda”, que será onda de qualquer coisa, mas não de probabilidade… o que em si mesmo é um absurdo. O instrumento de medição não tem consciência e o experimentador pode estar de férias e só ver o resultado um mês depois da dita medição. É evidente que a consciência modifica a realidade, já o ensinavam os egípcios, por exemplo, com o seu hieróglifo “olho”, ari, que significa “ver” e “criar”, ao mesmo tempo; ou mais vulgarmente, no provérbio popular espanhol “o olho do dono engorda o gado”.

Hoje não sabemos se o gato de Schrödinger está morto ou não, ou se deu à luz – talvez fosse uma gata e estivesse prenha – e amamentou os seus filhotes. O que podemos dizer com certeza é que ele não está morto e vivo ao mesmo tempo, nem que, como dizia o físico Everett, existe um gato vivo, e, num mundo paralelo, o mesmo está morto, perdido numa das infinitas dimensões da natureza.

Mais além das interpretações de uns ou de outros, os génios que fizeram nascer a Física Quântica foram das mentes mais lúcidas do século XX, e a sua sede de conhecimento ia mais além do simples âmbito científico. Amavam a Filosofia, a Poesia e a Música, eram todos eles humanistas, evocando assim os luminares do Renascimento, paradigma ao qual todos devemos aspirar.

Vamos examinar algumas curiosidades sobres estes personagens incríveis, que atraídos pela história abriram a caixa de Pandora da energia atómica:

– Heisenberg não era somente um enamorado dos números, mas da mesma filosofia pitagórica. Era atraído por Kant e ainda mais Platão. Lia o Timeu no grego original, e passou horas e horas inspirando-se nos modelos geométricos com que Platão explica a natureza essencial dos Elementos: o Tetraedro, o Fogo; o Icosaedro, a Água, o Octaedro, o Ar e o Cubo a Terra. Teria ficado pasmado, se tivesse conhecido os trabalhos do Dr. Robert J. Moon (1911-1989) da Universidade de Chicago, sobre as ligações destes mesmos “sólidos platónicos” com a Tabela Periódica dos Elementos como também os do físico Stephen M. Phillips vinculando estes poliedros e as suas relações numéricas com a Teoria das Cordas.

Heisenberg disse: “Fascinava-me a ideia de que, nas partes mais ínfimas da matéria, conseguiram-se encontrar fórmulas matemáticas”[1]

Werner Heisenberg / Wikimedia Comons
Werner Heisenberg / Wikimedia Comons

– Schrödinger sentia-se arrebatado pelos textos sagrados da Índia, que tinha conhecido graças ao trabalho de Schopenhauer. Escreveu na sua juventude cadernos e cadernos num estado quase de delírio, comentando os Upanishads, talvez os melhores textos de Metafísica de toda a história conhecida do pensamento humano, se é que não são, como dizem os brâmanes, de origem divina. Schrödinger, antes de ter deixado a sua marca na ciência do século XX, quando lhe foi oferecido o cargo de professor de Física Teórica em Chernivtsi, aceitou, mas com o propósito secreto de apenas dar aulas para dedicar todo o seu tempo livre ao estudo da filosofia Vedanta… mas não era isso o que lhe reservava o destino.

– No ano de 1943, Schrödinger improvisou três conferências no Trinity College explicando de uma forma muito original os princípios que governam a vida de acordo com as leis da física. O sucesso foi tão grande que mais tarde converteram-se num opusculo “O que é a vida”. Tinha-se acabado de descobrir a existência dos genes e que estes seriam grandes moléculas, mas Schrödinger foi mais além. Adivinhou que seriam de estrutura regular, mas sem repetir-se exatamente: um cristal aperiódico. Disse, ele primeiro, com intuição vidente espiritual, que estas variações conformariam uma espécie de código, um alfabeto em que se registaria a informação genética: “A configuração da molécula não incluía só uma mensagem com instruções, mas também os elementos para a sua execução. São ao mesmo tempo os planos do arquiteto e a mão-de-obra do construtor”[2]. Talvez se inspirou em Giordano Bruno, que já tinha sugerido o mesmo.

Erwin Schrodinger. Escultura Na Universidade De Viena, Áustria / Flickr
Erwin Schrodinger. Escultura Na Universidade De Viena, Áustria / Flickr

James Watson, um dos descobridores do ADN, fê-lo motivado por este livro, “O que é Vida” do físico da famosa Equação de Onda.

De qualquer forma, não nos devemos inquietar pelo labirinto em que parece que nos encontramos aprisionados, e o certo é que cada vez mais a mente permeia a matéria, segundo mostra a nossa Ciência Quântica, mesmo que, por outro lado, e, infelizmente, mutatis mutandi, ainda são de grande atualidade as palavras escritas no século XIX por H. P. Blavatsky na sua Doutrina Secreta[3]:

“A ciência materialista, que só percebe a linha de base do Triângulo manifestado – o plano de Matéria – interpreta-o praticamente como (Pai) Matéria, (Mãe) Matéria  e (Filho) Matéria, e teoricamente  como Matéria, Força e Correlação.

Mas, para a maioria dos físicos, como observou um cabalista:

O Espaço, a Força e a Matéria, são aquilo que os símbolos em álgebra são para o matemático, meramente símbolos convencionais, [ou] a Força como Força e a Matéria como Matéria, são tão absolutamente incognoscíveis como o é o espaço presumivelmente vazio no qual se considera que atuam.

Os símbolos representam abstrações, e sobre estas fundamenta o físico hipóteses sobre a origem das coisas… ele vê três necessidades no que ele chama criação: Um lugar onde criar. Um meio pelo qual criar. Um material com o qual criar. E dando uma expressão lógica a esta hipótese, com os termos espaço, força, matéria, acredita que provou a existência do que cada um destes representa, como ele o concebe.[4]

Blavatsky em 1877 / Wikipedia
Helena Blavatsky em 1877 / Wikipedia

 

Artigo escrito em 17 de Julho de 2016
[1] Comentário de Heisenberg no seu livro “Diálogos sobre a Física Atómica” referindo-se às suas leituras de Platão no ano de 1918. Citado no extraordinário livro “Física Quântica: O Princípio da Incerteza. Heisenberg” de Jesus Navarro Faus.
[2] Do livro “Os Paradoxos Quânticos de Schrödinger”, do físico e escritor David Blanco Laserna. O que está em itálico é do próprio Schrödinger, do opusculo citado.
[3] Mais especificamente no capítulo “Deuses, Mónadas e Átomos”
[4] As citações que menciona H. P. Blavatsky são do livro New Aspects of Life and Religion, de Henry Pratt, ed. 1886
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