Cor-de-rosa

Fotografia de Pierre Poulain / www.photos-art.org
Este texto de José Carlos Fernández foi inspirado na fotografia acima de Pierre Poulain, fazendo parte de um projeto intitulado FiloFoto.

Se há uma expressão que faz tremer a nossa alma é a de “flor nascida no deserto”. Tudo o que nasce está destinado a morrer, e não só no sentido de se extinguir, mas também de mudar a sua condição aparente, de passar frente ao nosso olhar até desaparecer. Mas se no deserto do mundo, tantas imagens e momentos passam como sombras, que oração de beleza a daquelas que florescem! Que exalam o perfume da sua alma, a música da sua autenticidade. Plenas na sua oferenda, uma chispa de Eternidade dignificando o efémero e irmanando tudo, um olho aberto de esperança.

É a alma quem dá a sua beleza ao mundo, e não o contrário: chamamos a isto “Natureza”. Como no romance e no filme aterrador de Cormac Mc Carthy, The Road, o sorriso e a pureza no olhar de uma criança, num mundo que é somente um cadáver, é como uma estrela que cintila na noite, é uma flor de esperança no deserto. A beleza abre os seus olhos ao mundo e este ilumina-se. O canto de vitória da espuma, branca, surge do lamento silencioso do mar e abraçando o sol, morre.

Que maravilhosamente o expressou o filósofo hindu Sri Ram (m. em 1973) no seu livro Pensamentos para Aspirantes: “A Beleza é a verdadeira Lei. Todas as coisas que expressem a Lei do seu próprio Ser são ao mesmo tempo belas e livres, pois a liberdade é também obediência à essa Lei do Espírito”.

Por mais que os adultos nos esforcemos em criar um mundo em ruínas, feio, utilitarista, alheio à verdade, despido de beleza, cacofónico, desordenado e caótico, ou pior ainda, com uma ordem falsa e imposta que nos alheie ainda mais. Por mais que perseveremos em caminhos errados, e esta seja a fatal herança que deixamos atrás, como um rastro envenenado; a esperança renova-se em cada nova geração, e estas fugirão daquilo que sabem, por instinto da alma, que as fere. Sabem que essa terra está erma, pois olham e não veem nem flores nem frutos; e, como a água, não se querem estancar, apodrecer e morrer.

Pois não o podem evitar, tal é a natureza do que vive, as crianças vêm nimbadas dessa auréola de um mundo divino, não triturado ainda por uma mente labiríntica e sombria. “Deixa que se aproximem de mim, porque deles é o Reino dos Céus” disse o príncipe do consolo e da paz. Aí onde estiverem, uma nota de beleza e inocência acompanha sempre os seus jogos e ainda os seus silêncios, e como nesta fotografia, sentados à espera nas estações de ferro e plástico de um mundo velho, o sorriso do amor os bendiz, e a luz e promessa dos amanheceres guia os seus passos.

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