Como despertar as crianças para a dimensão espiritual

“Cortai uma lasca de madeira e eu estarei lá” – Palavras de Jesus no Evangelho de São Tomé

A criança é naturalmente espiritual, porque do mesmo modo que a semente contém o potencial da flor, do fruto e da árvore, assim o Deus da Criação não pode estar ausente da semente que contém a essência da vida. Todos os seres humanos são na sua essência espirituais. Mas então o que é o Espiritual? O Espiritual é o Ser da vida, a Luz contida nas coisas. A luz é o primeiro e o último resultado visível do mundo. Por detrás dela está o mistério, a força que chama todas as coisas a Ser. Hoje a ciência chama a esse mistério “Matéria Negra”, a fonte oculta de onde nascem as Anãs brancas, milhares e milhares de galáxias que por sua vez contém milhares e milhares de estrelas. Com outro nome, as religiões de todo o mundo falam deste mistério atribuindo-lhe no entanto o nome genérico de Deus ou Unidade. Por exemplo, na China antiga o ideograma que sugere a ideia de Deus é composto por duas partes: uma cabeça que se abre e deita fumo ou talvez vapor da sua extremidade superior e outra é uma pegada; ambos os ideogramas se referem a algo que não pode ser captado de forma objetiva, mas sim como a presença de algo, um sinal omnipresente.

Perante a nossa infinita ignorância, o primeiro ponto a considerar é analisar a forma como nós, adultos, pensamos o mundo. Muito daquilo que pensamos provém de escassas e frágeis deduções, opiniões e preconceitos cheios de dúvidas e de conveniências. Por isso com facilidade caímos em dois tipos de erros na educação das nossas crianças; um é restringi-la a uma forma espiritual de exclusividade, através de uma prática religiosa determinada, outro é desprezar qualquer necessidade de orientação espiritual não lhes dando qualquer nutrição a este nível. A primeira produz fundamentalismos restritivos, como por exemplo dizer que as crianças não baptizadas não podem ter acesso ao Céu, ou pensar-se que Deus vive nas nuvens e que só aqueles que seguem uma religião têm direito à salvação. Esta forma de crença aprisiona a imaginação e limita a expansão do coração da criança que vê Deus com parcialidade. A segunda adormece a alma, torna a criança escrava das necessidades do seu corpo e fomenta o consumismo e o egoísmo.

O Pequeno Krishna

As crianças interagem naturalmente nos dois mundos: o mundo visível e o mundo invisível. Para elas a vida transborda para além dos objetos. A alma da criança está aberta para a exploração do mundo e comunica com ele sem qualquer restrição. É por volta dos 5 a 7 anos que a criança começa a separar o real do imaginário, adquirindo uma visão dualista; aprende a distinguir as coisas graças às suas primeiras experiências sensoriais e questiona o adulto sobre o porquê das coisas. Eu recordo-me da resposta que uma mãe deu ao seu filho quando este lhe perguntou onde estava Deus, já que nunca o tinha visto. A mãe respondeu que Deus era semelhante ao açúcar que o menino colocava no leite; não se via mas dava ao leite um sabor agradável. Por mais ingénua que possa parecer esta resposta, o menino ficou satisfeito e percebeu que Deus apesar de ser invisível dava um sabor doce à vida. Esta imagem muito compreensível para a criança ficará para sempre gravada na sua memória e nunca esquecerá que Deus se revela para apaziguar as amarguras da vida.

“Sagrada Família do Passarinho” do pintor Murillo / wikimedia
O PAPEL DA FAMÍLIA NA EDUCAÇÃO
“Menino a arrancar um espinho”, escultura no Museu Capitolino

À medida que a criança vai ocupando o seu lugar no mundo procura identificar-se com o seu meio. Indefesa frente ao desconhecido, a criança regista cada elemento do seu território. Nos seus primeiros contactos com a vida, as emoções são os primeiros sinais de adaptação. A criança capta de forma espontânea o exemplo e tem dificuldade em entender os conselhos verbais. Os seus alicerces repousam sobre as imagens modelo do pai e da mãe. Um poeta escreveu: “o amor pelo pai é a mais alta das montanhas e o amor pela mãe o mais profundo dos oceanos”. Na verdade, as duas polaridades pai – mãe representam os arquétipos da criação do mundo: o céu e a terra, o fogo e a água, a vertical e a horizontal. O pai indica a direção e a elevação; a mãe, o suporte e o sustento. Estes primeiros modelos alimentam a identidade da criança e constituem as suas primeiras vivências de uma religião natural, até que um dia um professor ou um mestre possa dar continuidade ao despertar da sua consciência para outras dimensões da evolução da sua individualidade. Deste modo, a família constitui a terra de origem, o terreno propício para o crescimento da semente. A família não é o molde da vida, porque se assim fosse esta tenderia a reproduzir a mesma estrutura e não permitiria que a semente revelasse a sua particularidade e o seu poder de regenerar o mundo. A família é o suporte desta jovem semente. Se a terra for muito seca, queimará o rebento e isto pode traduzir-se por uma educação muito rígida e carente de afetos. Se a terra for muito húmida, isto é excesso de protecionismo ou mimos, apodrecerá a semente e debilitará as resistências do futuro rebento. A família através da educação e a escola através da instrução constituem os alicerces da vida humana. A família lança as pedras das bases fundacionais desta existência em construção; a elevação do potencial humano dependerá dos valores transmitidos na juventude, fortalecendo o carácter, fazendo interagir o coração com nobres sentimentos e a mente com princípios elevados. Deste modo poderá erguer-se esta catedral humana, revertendo todas as energias e esforços para os sonhos mais altos.

 

A EDUCAÇÃO

“Se educarem as crianças não será necessário castigar os adultos” – Pitágoras

“Santa Justa” de Murilo

A palavra educação significa na sua etimologia (educer) fazer sair, ou emergência do potencial humano. Educar é então aprender a ser, exaltando o melhor de cada individualidade. Somos o resultado daquilo que pensamos e daquilo que contemplamos. Para isso necessitamos de linhas de força para estruturar as bases de uma boa educação. Os grandes tratados clássicos estabeleciam um eixo central representado pela ética ou conhecimento do Bem e quatro virtudes cardinais que constituem a justa conduta. O instinto, responsável pelos apetites do corpo seria moderado através da prudência e da temperança. As emoções e os sentimentos responsáveis pelas paixões e medos da alma seriam moderados pela coragem e a razão ou mente, responsável pela dúvida e a mentira, seriam orientadas pelo discernimento da justiça. As virtudes ou valores representam aquilo que pode tornar-nos humanos e são os alicerces da emergência do Ser Espiritual. Falta, nos dias de hoje, um ideal de reverência por aquilo que é nobre, um modelo de vida para que os jovens possam encontrar inspiração para o seu futuro. Todos o jovens necessitam de desafios para crescer, para se conhecerem e conquistar a sua autonomia e valorizarem-se no seio da grande família humana. Os primeiros passos na direcção da vida espiritual são amar o Bem e deixar progressivamente de fazer o Mal; por ignorância ou negligência os erros acontecem e são necessários para se poder crescer, mas continuar no erro por falta de orientação é perder a oportunidade de nos valorizarmos como seres humanos. Assim, os passos seguintes são ativos e requerem o tornar-se capaz de fazer aquilo que é certo, contribuindo para um mundo melhor. Temos que dar às nossas crianças a oportunidade de se tornarem pequenos heróis do quotidiano, dando o exemplo, porque é educando as crianças que aprendemos também a educar-nos.

“A apresentação da virgem”, de Tintoretto / wikimedia

A Educação espiritual da criança depende da nossa disponibilidade para lhe mostrar o lado luminoso de qualquer pequeno esforço, o mesmo que faz desabrochar a flor e caminhar tantas formas de vida em direção à sua plena realização existencial. Mostrar-lhe que a morte é também uma necessidade de renovação e de transformação para alcançar estados mais elevados da existência, tal como o calor que brota da madeira queimada e a luz que dela se liberta. Todas as formas de vida contribuem para o equilíbrio e a beleza do mundo. A pedra revela a sua resistência, a flor o seu perfume, o animal o seu instinto de sobrevivência e o homem o seu discernimento para reproduzir a beleza do mundo na sua vida interior. Nós transformamo-nos naquilo que amamos. Ao ensinar às nossas crianças o amor pelo bem, pelo bom e pelo belo, damos-lhes a oportunidade de se direcionarem para a luz, como o pequeno rebento que encontra no sol a sua fonte de vida, porque sem luz, a planta murcha e morre.

O Espírito é o sol das nossas vidas e faz brilhar cada existência dando-lhe cor, perfume e sobretudo um destino em comum com todas as formas de vida. Sentir-se unido ao céu e à terra, à água e ao fogo, ao grão de areia e à estrela distante, ser um elo de uma grande cadeia de vida que brota em cada coração, é fazer desta terra um jardim de luz para todas as crianças do mundo.

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