Bartolomeu do Mar e os Antigos Ritos de Purificação

É no dia 24 de Agosto que em S. Bartolomeu do Mar, entre Viana do Castelo e Esposende, se realiza com maior exaltação as cerimonias dedicadas a S. Bartolomeu. Enraizadas em ritos muito mais antigos que o cristianismo procura integrar o homem no mistério da renovação da Vida.

São Bartolomeu – séc.XVII Real Academia de Belas Artes de São Fernando / wikimedia

Desta forma ritual celebra-se a entrada no signo da Virgem (23 de Agosto a 22 de Setembro). É a terra queimada pelo sol estival sob a qual a espiga ceifada espera que o grão que se soltou do seu invólucro penetre na nova terra, virgem, destinada a receber a semente. Ocupado o sexto lugar na ordem zodiacal partilha do simbolismo deste número, como o Selo de Salomão. Encontra-se simultaneamente em relação com o fogo e a água, simbolizando a consciência que emerge do caos, assim como o nascimento espiritual. O número 24 exprime a relação dos ciclos com as necessidades kármicas; é a roda dos renascimentos, a roda da libertação de 24 raios. Para Warrain é «a combinação da individualidade consciente e senhora de todas as energias do cosmos desenvolvendo a sua completa harmonia». 24 de Agosto assume assim um marco de regeneração na natureza e no homem que a ela está ligado. É um processo de libertação das limitações da sua personalidade para desenvolver as potências desta semente – tomada de consciência da sua dimensão espiritual que o liga a todo o universo.

Conta a lenda que S. Bartolomeu terá sido um dos apóstolos de Cristo e evangelizador da Índia. Foi queimado vivo e as suas cinzas lançadas ao mar de onde renasceu trazendo nos braços a sua pele. Toda esta lenda está cheia de significados profundos que penetram na tradição universal. Os seus ensinamentos reportam-se à humanidade.

Também no México, os heróis gémeos do Popol Vuh, livro sagrado dos Mayas, após serem queimados vivos pelos seus inimigos renasceram do rio onde as suas cinzas haviam sido lançadas. Fogo e água presidem aos ritos iniciáticos de morte e renascimento. O fogo é o símbolo purificador, tanto no oriente como no ocidente. Para Buda o fogo interior é conhecimento penetrante, iluminação e destruição do invólucro. Para Abuya´qub Sagestani, no islamismo, o fogo tem a função de levar as coisas ao estado subtil pela combustão do invólucro grosseiro. «O fogo simboliza a purificação pela compreensão, até à mais espiritual das suas formas, ao passo que a água simboliza a purificação do desejo, até à mais sublime das suas formas – a bondade» (Paul Diez, Le symbolisme dans la mythologie grecque).

Máscara de Xipe Totec – Museu do Louvre, MH_78-1-60
Martirio de S. Bartolomeu, de Jaume Huguet. Retablo (1480) MNAC. Barcelona

É extremamente interessante o facto de S. Bartolomeu renascer despido da sua pele. Ele é aquele que se renovou. Para compreendermos toda esta riqueza de conteúdo falaremos da divindade mexicana Xipe Totec, o esfolado, deus da primavera e representado com a pele caindo-lhe o corpo. Ele é a semente que tem de romper a sua pele e a terra para emergir à superfície passando por um período de luta, da qual sai vitorioso. Por isso, outro dos nomes que lhe é dado é «a semente germinada». Foi ele que deixou arrancar a sua pele para que fosse libertado o princípio escondido dentro da matéria. Xipe Totec é o símbolo do homem renascido, aquele que conseguiu fazer germinar a sua semente divina rompendo as limitações da carne. S. Bernardo de Claraval, fundador da Ordem de Cister, pedia aos seus noviços que deixassem o corpo à porta do mosteiro, pois somente o espírito é admitido no interior do templo. A pele é a membrana que aprisiona a alma, sendo as sete camadas da pele associadas aos sete níveis de consciência do homem. Em hebraico, a palavra Iver tanto significa túnica de pele como cego, sendo a última pele Aor, a luz. Na festa de S. Bartolomeu, na foz do Porto, os fiéis cumprem o rito mergulhando no mar com fatos de papel para que as águas dissolvam a «pele velha» e renasça um novo homem.

Em S. Bartolomeu do Mar, o rito começa logo pela manhã, sendo os primeiros a chegar os mordomos, que dão três voltas à igreja antes de entrarem seguidos por toda a gente que ali se dirige, à semelhança do oficiante do rito de lustração romano que reunia todos os cidadãos fora dos muros da cidade, dando em seguida três voltas à assembleia antes de dar início à cerimónia. «Três é a conta que Deus fez» diz o ditado popular, porque três são as esferas humanas (físicas, psíquica e espiritual) tal como tríplice são os mundos (os sub mundos, a terra e o céu), porque é ternária a natureza divina (Vontade, Amor e Inteligência; Pai, Filho e Espírito Santo; Osíris, Ísis e Horus, etc.).

De seguida entra-se no recinto sagrado fazendo tocar na cabeça, especialmente das crianças, a imagem do santo como forma de expulsar os demónios. S. Bartolomeu é frequentemente representado com um diabo aprisionado, pois ele é aquele que venceu a natureza maligna porque possui a luz do espírito que cura. Tocar com o santo na cabeça, sendo esta, no corpo humano, símbolo do espírito, constitui uma forma de magia simpática para se «apoderar» da luz do santo.

São Bartolomeu do Mar / flickr

Como dizíamos logo no início, todo o ritual que compõe esta festa encontra o seu assento na purificação e renovação. O processo de morte e renascimento é, desde as mais antigas culturas e crenças, o processo por excelência de regeneração. Esta morte não é apenas a morte física na qual reside a esperança ou a evidência de um novo amanhecer da alma, mas também a morte iniciática, que é a morte de um estado para o nascimento num outro mais consciente, mais desperto. Para o homem tradicional existem dois nascimentos: o físico e o espiritual. É neste sentido que vamos encontrar na festa de S. Bartolomeu os devotos amortalhados e, há alguns anos atrás, faziam-se mesmo transportar em caixões, tal como acontece em Mondim de Basto, na Festa de N. Sra. da Graça. Tudo isto nos transporta até às imagens de iniciação no antigo Egipto em que o discípulo presente à iniciação era colocado no sarcófago (sarco-fagos, comedor de carnes) para renascer espiritualmente, tal como nos ritos de enterro dos faquires na Índia, ou nos encerramentos nas grutas, etc. Esta morte e renascimento eram simbólicos no plano físico mas reais para o plano psíquico e espiritual.

Há alguns anos atrás era costume encontrarem-se peregrinos em S. Bartolomeu cumprindo voto de silêncio e transportando na boca uma flor, pois é na boca que está o poder da palavra, o poder de animar, de dar alma ou vida, de elevar, mas também a capacidade de destruir, de enganar ou de rebaixar. A boca, através da palavra, tão depressa pode edificar como derrubar. Por isso ela é a mediadora entre o estado do ser e o mundo inferior ou superior para os quais ela o pode arrastar. Nas cerimónias de iniciação exigia-se ao noviço que mantivesse o silêncio ou era-lhe mesmo amordaçada a boca, representando a obrigação de respeitar a Lei e a humildade na capacidade de manter o segredo, para que da sua boca pudessem florescer as sementes de sabedoria recolhidas no seu coração.

Brasão da Freguesia de S. Bartolomeu do Mar, onde se vê o galo preto.

Em oferenda a S. Bartolomeu, as crianças levam um galo preto, sendo nos nossos dias já de outras cores. O galo é aquele que anuncia o nascer do sol após ter percorrido durante a noite os submundos. O galo assume assim um papel psicopômpico, conduzindo e anunciando no outro mundo o advento da alma do defunto, a alma que abre os olhos a uma nova luz, a um novo nascimento. É neste sentido que ele era atributo de Átis, o deus solar no oriente, morto e ressuscitado, da mesma forma que era atributo de Hermes, aquele que percorre os três mundos. O galo anuncia o nascimento do sol. Daí lhe advêm os seus poderes contra as influências maléficas da noite. É desta forma que em S. Bartolomeu vamos encontrá-lo ligado a um poder de exorcismo dos demónios e da doença. Ele anuncia a luz que cura; era o animal dedicado a Esculápio, deus da medicina, e filho de Apolo, a luz e o discernimento. Por essa razão ouvimos o pedido de Sócrates antes de morrer para que fosse oferecido um galo a Esculápio. Esta divindade presidia aos locais de cura não somente física, mas também aos locais de iniciação como acontecia com o Santuário de Panóias junto a Vila Real. Também entre certos povos altaicos, por ocasião das cerimónias de purificação e expulsão dos espíritos que se seguiam à morte de alguém, usavam um galo, representando um defunto, que era colocado junto ao leito mortuário.

Auto-retrato de Miguelangelo com a pele de S. Bartolomeu – detalhe do Juízo Final na Capela Sistina

Porquê um galo preto?! É o negro que precede a criação, o cosmos: «No início eram as trevas…». Na alquimia a Obra ao Negro, a putrefacção da semente que antecede a germinação, leva à Obra Branca e finalmente à Obra Vermelha da libertação espiritual. O preto é a terra fértil, a morada dos mortos, que prepara o renascimento, é a noite que antecede o dia, e é neste sentido que vamos encontrar em cerimónias dedicadas a Plutão sacrifícios de animais pretos, sendo realizados nas trevas e de cabeça virada para terra. Torna-se curioso observar que as crianças ou mesmo os adultos que transportam as oferendas de galos, antes de os depositarem em lugar improvisado no exterior da igreja – e que antigamente era no próprio interior, à semelhança do templo solar em Ise, no Japão, onde no seu recinto se encontra sempre um grande numero de galos -, passam por baixo do andor de S. Bartolomeu cuja forma é um barco. Passar por baixo da barca é passar pelas águas profundas e obscuras, é ir aos submundos e renascer deles, é ser digno de alcançar a barca sagrada que transporta a alma para o além, procurando vencer todos os perigos e demónios tentadores a fim de atingir a «Terra do Sol Levante» onde o galo canta, como diz um texto egípcio: «O laço está desatado, atirei por terra todo o mal que há em mim. Ó Osíris (deus da ressurreição) poderoso! Acabo de nascer! Olha-me, acabo de nascer!». A barca é o «berço redescoberto», é o símbolo da navegação segura através da travessia perigosa da vida no aqui e no além.

O apóstolo S. Bartolomeu a prender o diabo com uma corrente

Em seguida, os devotos dirigem-se ao mar para o banho sagrado, onde as crianças são mergulhadas em três ondas e, se for em mais, sempre em número impar, a fim de expulsar o demónio, curar a epilepsia, o medo e a gaguez. Diz-se que um banho neste dia vale por 7. As águas e a imersão ou o espargimento constituem para todos os povos um meio de purificação. Pois a água comporta duas funções: «Todo o contacto com a água, quando é praticado com uma intenção religiosa, resume dois momentos fundamentais do ritmo cósmico: a reintegração nas águas e a criação» (Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões). Para todas as tradições, incluindo a judaico-cristã, tal como a ciência veio a confirmar, a origem da criação está nas águas. Ela é a mãe, a matriz, o útero, contem o germe dos germes, todo o processo de desenvolvimento mas também de absorção. É fonte de vida e também de morte; é criadora e destruidora; possui a virtude e o poder lustral. Imergir nela é regenerar-se. A água apaga as infracções e toda a mácula, é a morte do homem velho e o nascimento do Homem Novo, porque a alma é lavada pelas águas da vida. Na Índia, as doenças são projectadas na água porque «as águas em verdade curam todas as doenças» (Atharva Veda), trazem a vida, a força e a pureza. Na alquimia chinesa o banho é uma operação de natureza ígnea, sendo o mercúrio alquímico a água ígnea.

O tema da criança lançada ao mar ou dela surgindo é abundante em muitas tradições e mitologias. Por exemplo, o mago Merlim é Moris-genos «nascido do mar». Na Irlanda, Morann é um monstro mudo, que nasce sem boca, e que é lançado ao mar, para que a água rompa a máscara que lhe cobre o rosto, após o que é recolhido e torna-se um grande juiz.

No México realizavam-se lustrações baptismais dos recém-nascidos em que a criança era consagrada à deusa das águas, considerada a sua verdadeira mãe, tendo sido ela também a criadora da ponte para o céu para que os homens, transformados em peixes, subissem por ela. Antes de imergir a criança na água diziam: «toma esta água, porque a deusa Chalchihuilycue Chalchiutlatonac é tua mãe. Que este banho te lave dos pecados dos teus pais…» Em seguida, tocando a boca, o peito e a cabeça com a água, da mesma forma que hoje se faz o sinal da cruz às crianças mergulhadas em S. Bartolomeu, acrescentava-se: «Recebe, menino, a tua mãe Chalchihuitzylue, a deusa da água». Na Grécia, as ninfas eram divindades do nascimento. Educavam as crianças, ensinando-lhes a tornarem-se heróis.

Assim, a água como fonte de vida e de regeneração «confere um novo nascimento por um ritual iniciático, ela cura por um ritual mágico, ela assegura um renascimento post mortem por rituais funerários» (Mircea Eliade, Tratado de História das Religiões).

Todo o rito procura levar o homem à tomada de consciência da sua natureza, que é a mesma do universo: «Conhece-te a ti próprio e conhecerás o universo e as suas leis». O rito é uma oportunidade para se tomar consciência de que a vida é cíclica, para permitir ao homem renovar-se, purificar-se no fogo dos seus ideais e renascer das profundezas da sua alma com uma personalidade renovada por onde possa crescer essa semente de um homem novo.

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