Arte Cisterciense – a construção da abadia interior

“Procurai ser vigilantes meus Irmãos, enquanto estais construindo o edifício espiritual que está em vós, senão, podeis correr o risco que quando começardes a colocar o telhado, este abane e caia por falta de não ter consolidado as suas bases com uma forte estrutura de madeira.”  

“As pedras e os troncos de madeira que se encontram dispersos, nunca poderão servir de abrigo, unicamente a união dos mesmos permite fazer uma casa.”

Sermões de São Bernardo de Claraval

 

INTRODUÇÃO

A Ordem de Cister (Ordo cistercienses) inspirou-se na doutrina de S. Bento, e foi fundada por Roberto de Molesme (monge Cluniacense) em 21 de Março de 1098, dia de renovação e de celebração do equinócio da primavera. O lugar escolhido para a construção desta primeira abadia (Novum Monasterium) encontrava-se perto de Dijon em França. Este local (Cistercium) afastado do mundo, de terreno pantanoso e inóspito era conhecido como o deserto de Cister. Aqui longe da vida mundana e desvinculado do fausto esplendoroso das abadias dos monges beneditinos de Cluny, Roberto realizou, juntamente com um pequeno grupo de 21 confrades, o seu sonho de viver o ideal monástico, símbolo de renúncia, pobreza e solidão. Após 20 anos de duras vivências ascéticas, desalento e afastamento gradual do seu fervor inicial a Ordem parece apagar-se. Em 1112 ou 1113, com a chegada de um jovem nobre, Bernardo de Fontaine (mais tarde conhecido como Bernardo de Claraval), homem de grande carisma e fortaleza espiritual, a comunidade toma um novo impulso e incentiva a adesão de numerosos adeptos.

Escultura de São Bernardo na Igreja de São Martinho Pinario, em Santiago de Compostela / wikimedia

São Bernardo tornou-se o líder e a consciência deste movimento de reforma monástica que se expandiu por toda a Europa. Mais de 350 mosteiros foram fundados sobre o seu impulso, neles aderiram mais de 11.000 monges e monjas cistercienses. Com a divisa: “ora e labora”, a ordem de Cister trouxe à Europa medieval um novo modelo arquitetónico: o Gótico. As suas granjas, autênticas escolas de agricultura, permitiram difundir novas concepções agrícolas que proporcionaram um avanço significativo para o mundo rural. A reforma de Cister assumiu como objetivo recuperar o ideal de vida espiritual ascética que naquela época se via confrontada com o poder temporal. Sob a influência de São Bernardo, uma parte do lirismo cavalheiresco converte-se num cristianismo de penitência e de procura de pureza. São Bernardo, monge guerreiro e contemplativo, assume uma dupla missão, quer no plano espiritual, contribuindo para uma Igreja mais purificada e disciplinada, quer no plano temporal e político, através do ideal templário e da pregação de uma nova cruzada, em lugares onde se firmava o avanço perigoso do Islão. A regra dos templários foi escrita por São Bernardo. A sua divisa foi extraída do livro dos Salmos: “Non nobis Domine, non nobis, sed nomini tuo ad gloriam” (Slm. 115:1 – Vulgata Latina) que significa “Não a nós, Senhor, não a nós, mas pela Glória de teu nome”.

 

ARTE CISTERCIENSE

Na estética cisterciense, não existe o conceito de arte pela arte, mas da arte como meio de difusão e de reencontro com Deus. A arte cisterciense tem três propósitos: orar a Deus, tornar presente o invisível ou o reino de Deus, afirmando assim o seu poder através da criação artística. Deste modo os monges deviam viver em isolamento, pobreza, refutação de benefícios eclesiásticos, trabalho, oração e paz interior.

Refeitório do Mosteiro de Alcobaça / wikimedia

A arte cisterciense tem por alicerce o estilo Românico, mas lança-se no Gótico puro pela sua luminosidade e verticalidade. Os seus mosteiros e abadias, despidos de adornos, são construídos através de linhas arquitetónicas de grande sobriedade. O Gótico cisterciense revela uma aparente ausência de estilo dando prioridade aos espaços vazios sobre os cheios. A vida de clausura deve ser uma imagem e um ante gozo do Paraíso: Paradisus Claustralis, pois para São Bernardo a beleza exterior excita os sentidos e é fonte de enganos. A sua fervorosa devoção à Virgem, símbolo da esposa mística e da Mãe do céu e da Igreja, faz que esta se torne a padroeira de todas as abadias.

O mosteiro cisterciense deve bastar-se a si próprio e deve funcionar como uma autêntica cidadela, protegida do exterior, concentrando-se no seu interior. As oficinas e a produção devem porvir as necessidades da comunidade sem qualquer dependência externa. Tudo deve ser resultado do trabalho laborioso, o cultivo das terras, as oficinas e o cuidado do rebanho. Nada escapa à vigilância de São Bernardo, aqui seguem algumas das suas recomendações para os objetos de cultos: “As toalhas dos altares, os paramentos dos ministros, com exceção da estola e do manípulo, não devem ser de seda, a casula, porém deve ser de uma só cor, todas as peças de serviço do mosteiro, copos e outros utensílios não devem ter nem ouro nem prata ou gemas, com exceção de duas: o cálice e a colherinha, aos quais permite-se que sejam dourados e prateados, mas não de ouro, e as cruzes pintadas que sejam de madeira.”

Durante a Idade Média existiram diversas ordens religiosas (beneditinos, cistercienses, cartuchos, etc.). Estas estavam submetidas a uma regra ou conjunto de normas que regulavam todas as actividades monásticas (horas de oração, leitura, sono, visitas e trabalho).

Da esquerda para a direita: monge beneditino, cisterciense, franciscano, cartucho, dominicano.

A comunidade dos monges brancos dividia-se em dois grupos distintos: os primeiros ou irmãos professos dedicavam-se aos ofícios e à liturgia, os segundos, os Irmãos conversos, eram constituídos por leigos que auxiliavam os anteriores no trabalho manual, estes dedicavam-se ao trabalho agrícola e à produção animal, a maior parte dos conversos eram iletrados.

 

A construção da Abadia

“Quid est Deus? Longitudo, latitudo, sublimitas et profundum”

São Bernardo

Fachada do Mosteiro de Alcobaça / wikimedia
Nave do Mosteiro de Alcobaça / wikimedia

1º- A escolha do terreno: a escolha do “Genius Loci” cisterciense exigia locais recônditos propícios à experiencia mística e ao trabalho, estes deviam ser florestados e abundantes em água. São Bernardo dizia “não é nas cidades, castelos ou aldeias que se hão-de construir os nossos mosteiros, mas em lugar afastado do convívio dos homens. 

2º- A Agua: A água era fundamental pelo seu atributo purificador e batismal. Também a higiene era considerada um bem essencial para a vida monástica, a presença da água indicava a força vivificadora de Deus no meio dos homens. Procuravam-se linhas de água com alguma força de corrente tendo em vista o aproveitamento de recursos hidráulicos para a construção de canais e sistemas de rega para alimentar a horta.

3ª- O Mosteiro: A igreja é o primeiro edifício a ser construído, pois é o Alfa e Omega de toda a fundação. A Igreja deve possuir esplendor e austeridade, através dela realizam-se as metamorfoses do Homem que aspira a Deus. A imagem da cruz latina é a base da sua arquitetura porque esta é o reflexo físico da vida interior. A orientação axial do cruzeiro representa a tensão para Deus, o eixo longitudinal é orientado para a abside, lugar de nacimento da luz ou da Jerusalém celeste, o eixo vertical eleva-se através da abobada e converge para o céu. As quatro extremidades da cruz estão associadas às seguintes virtudes:

No centro da abside encontra-se o altar-mor ou coração do santuário, este é o lugar de comunhão e de entrega. Na entrada do mosteiro encontrava-se um ancião, responsável pela Portaria.

 

O Claustro do silêncio e da escuta interior

“Deixai à porta o vosso corpo que trazeis do mundo. Aqui só os espíritos entram, a carne não serve para nada.”

 São Bernardo

  

O claustro, pátio quadrado, era edificado em paralelo com a nave sul, correspondia a duas necessidades:

1º) Nível prático, lugar de comunicação com as várias partes do cenóbio. Todos os monges tinham que passar por ele quando se dirigiam ao refeitório.

2º) Nível espiritual, lugar pessoal de encontro com Deus. Este espaço de meditação reproduzia a imagem do Paraíso com a associação aos quatros rios do Éden (rio de água, leite, azeite e vinho), também representavam simultaneamente os quatros Evangelhos e as quatros virtudes cardinais: paciência, coragem, temperança, e justiça.

Outras partes do edifício

No transepto sul estaria também a sacristia, a sala do Capítulo, que era o lugar onde se realizavam diferentes actos comunitários e onde se tomavam decisões importantes, o parlatório, lugar destinado à escuta das ordens do abade responsável pela logística e a distribuição dos trabalhos a realizarem em cada dia, o scriptorium ou sala de estudo e cópia de manuscritos e a sala de estar dos monges.

Na parte superior do claustro encontrava-se o dormitório. Os monges deviam-se deitar em leitos separados e dormir com a sua própria roupa, unicamente os doentes tinham direito a ter uma cela à parte. O calefactorium ou calefatório, era reservado para a higiene corporal.

Ao norte encontrava-se o refeitório, e perto ficava a cozinha. No claustre era costume ergue-se um lavatório (lavabo) junta do refeitório. Todos os monges deviam participar nos trabalhos da cozinha.

A hospedaria, espaço reservado, era distinto dos espaços comunitários de modo a salvaguardar-se o espaço de silêncio.

O celeiro do mosteiro consistia no lugar de reserva das provisões alimentares mas também de outros bens necessários, tais como instrumentos de trabalho, roupas, etc. Por fim a horta, que juntamente com os terrenos cultivados, serviam de sustento e de escola agrícola para toda a comunidade.

A Virgem a amamentar com o seu leite (sabedoria) a São Bernardo / wikimedia

Conclusão

Devemos em boa parte a São Bernardo e aos seus irmãos cistercienses o impulso para a construção de uma Europa renovada do obscurantismo medieval. Bernardo proclamava o conhecimento de si mesmo como ponto de partida para a conquista espiritual. Sem o trabalho que fortalece o corpo, a pureza interior que disciplina a alma, e o conhecimento que ilumina a mente, não se pode conquistar o céu.

“Uns estudam por puro amor da ciência: é uma curiosidade ignominiosa;
Outros o fazem para alardear um renome de sábios: é uma vaidade vergonhosa;
Outros, ainda, estudam e vendem o seu saber em troca de dinheiro e honras: é um tráfico vergonhoso;
Mas, há também os que estudam para edificar o seu próximo: é uma obra de caridade;
Outro, finalmente, para edificar-se a si mesmos: é uma atitude de prudência.”

São Bernardo de Claraval

 

Bibliografia :
Duarte Nuno Ferreira Madaleno Ferreira Morgado: Cister: espiritualidade, estética e teologia na arquitetura cisterciense (dissertação final sob orientação de Doutor David Sampaio Dias Barbosa-Lisboa 2012)
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