A visão do corpo no ocidente e no oriente

A visão do corpo no Ocidente e no Oriente tem matizes diferentes. No Ocidente procura-se saber mais sobre o aspecto “exterior” do mesmo, mas no Oriente, em particular na Índia, existe uma preocupação de estudá-lo integrado com uma mente saudável e positiva (aspecto “interior” do corpo).

I – Introdução

O corpo tem exercido fascínio, quer no Ocidente quer no Oriente, em diversas profissões, embora por razões diferentes. Por exemplo, os médicos procuraram desvendar os mistérios do corpo e da vida, enquanto os artistas procuraram a beleza exacta que permitiria aproximar o mundo dos homens ao dos deuses.

No entanto, a visão do corpo, no Ocidente e Oriente, tem assumido perspectivas diferentes de acordo com as culturas vigentes do meio. Por exemplo, no Médio Oriente o corpo da mulher quer-se recatado (com a necessidade de utilização da burka e do véu), enquanto que no Ocidente, o corpo feminino exibe uma liberdade de expressão que dificilmente vemos no Oriente.

Também o destino final do corpo (na hora da morte), assume igualmente diferentes sortes, no Oriente e Ocidente. Por exemplo, na Índia é comum a cremação sendo as cinzas espalhadas em locais Sagrados (como o rio Ganges), enquanto que no Ocidente ainda se recorre maioritariamente ao enterro do corpo físico, num cemitério.

II – A VISÃO DO CORPO NO OCIDENTE E ORIENTE

Existe uma diferença significativa da visão do corpo e dos padrões de beleza no Oriente e no Ocidente, que vêem desde os tempos imemoriais até à sociedade contemporânea. Um exemplo é o de Madre Teresa de Calcutá, naturalizada Indiana, e Marilyn Monroe, cidadã Norte Americana. Madre Teresa apresentava um corpo franzino tendo ficado conhecida como a “Santa dos pobres”, enquanto Marilyn Monroe, foi uma actriz e modelo cujo corpo “perfeito” emanava sensualidade que lhe valeu o título de “símbolo sexual”. Mas vejamos melhor estes dois casos à luz da importância do corpo na história e filosofia das ciências (Santin, 2003). Alguns filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, que viveram na sociedade grega antiga, também discutiram sobre a importância do corpo. Sócrates possuía uma visão integral de homem, julgando tão importante o corpo quanto a alma para o processo de integração plena do homem no mundo. Já Platão defendia que se o homem não estivesse integrado (corpo-mente) o mundo sensível ou dos sentidos podia distorcer a verdadeira essência das coisas ou das essências imutáveis e eterna. As ideias de Aristóteles acrescentaram que as acções humanas dependiam do corpo e da Alma, num processo conjunto de realização. Estas abordagens formaram a base das concepções sobre o corpo, no mundo Ocidental, até à Idade Média. Nesta altura a Igreja, desvalorizou o corpo sexuado, considerando pecado o desejo carnal. A Igreja influenciava a sociedade no campo moral, nos relacionamentos interpessoais, na vida familiar, na forma de pensar e até mesmo de se vestir. Assim, durante a Idade Média, houve um grande desprestígio das actividades corporais, e o corpo passou a ser controlado através de severas práticas religiosas.

Com a chegada do Renascimento, a racionalidade assume grande valor, assistindo-se a uma nova concepção do corpo. No século XVII, com Descartes, assiste-se à separação do corpo com a Alma, sendo o corpo visto como uma máquina que obedece a leis naturais. As questões como os sentimentos, as emoções, a sexualidade, que durante a Idade Média eram tidos como acções pecaminosas, foram incorporadas pela nova sociedade do século XVII. O florescimento científico do século XVII não foi importante apenas do ponto de vista da libertação do corpo em relação aos interesses da Igreja, mas fomentou uma maior liberdade para as actividades comerciais da burguesia, dando-se a chamada revolução industrial. Nesta nova sociedade o aspecto do corpo ganha particular importância.

Por exemplo, no século XVIII, as mulheres usavam corpete por baixo dos longos vestidos para afinar a cintura, mostrar o decote e os quadris, pois era uma maneira de ficarem bonitas para os padrões exigidos na época.

No século XIX, com o positivismo, o corpo era um pedaço de matéria a ser estudada a exaustão. Para Jean-Jacques Courtine (Courtine, 2006), Freud ao observar os corpos histéricos de Charcot concluiu que o “inconsciente fala através do corpo”, inserido nas formas sociais culturais. Para Merleau-Ponty, o século XX foi responsável pelo abolir divisão entre corpo e espírito, mas com exacerbação do corpo.

Já na sociedade contemporânea, no mundo Ocidental, o corpo humano passou a ter um papel importante, e ao longo do século XX, o mesmo ganhou evidência por meio das novas tecnologias e, principalmente, através do marketing de produtos e de estilos de vida, e o desejo de obter a perfeição física exigida pelos padrões que a Contemporaneidade exige. A partir do século XX, o corpo passou a ser, de fato, um produto comercializado, e tornou-se o desejo de consumo das mais diferentes camadas sociais. A este propósito refira-se o aparecimento da indústria da beleza que, através do marketing, influencia as atitudes das pessoas, fazendo com que elas busquem esse padrão de beleza idealizados, a qualquer custo. Exemplos práticos, desta nova forma de ver o corpo, são a cirurgia plástica, e as dietas exóticas de modo a obter um corpo “perfeito”. Mas com a chegada da terceira idade, as mudanças fisiológicas e as marcas físicas causadas pela idade no corpo são factores irreversíveis que fazem com que o idoso perca o encanto pelo seu corpo. Numa sociedade de imagens, em particular a Ocidental, onde a juventude e a beleza, principalmente na classe feminina, estão na aparência física, a idade torna-se um factor de desespero quando os anos passam. Os homens e as mulheres ao envelhecerem ficam tristes pela certeza de que na velhice a sensualidade, a masculinidade e a feminilidade e a expressão corporal perdem o poder de atracção de conquistar o sexo oposto, fazendo com que o homem e a mulher de idade perca a sua auto-estima. Com a chegada da menopausa e andropausa e também com as mudanças que esta fase traz à mulher e ao homem, como o encerramento dos ciclos reprodutivos, surge o sentimento de perda da sua identidade feminina e masculina, ainda que com a idade temos a vantagem de começar a ver as coisas de um modo diferente.

A idealização do corpo perfeito toma conta dos nossos dias, em particular no mundo Ocidental. As sugestões de uma beleza exterior perfeita, juntamente com uma carreira bem sucedida, encontram eco na sociedade contemporânea.

Os padrões de beleza impostos externamente não dão lugar a imperfeições técnicas do corpo (Daolio, 1995). A sociedade “impõe padrões de beleza muito superficiais que nos faz encantar com um corpo ideal, mas onde o desencanto surge logo depois quando nos confrontamos com a realidade de que, muitas vezes, a beleza exterior do corpo não corresponder ao interior do nosso verdadeiro Ser. Há uma ambivalência no encanto e desencanto do corpo, não só do ponto de vista pessoal como em relação ao corpo dos outros. O corpo é “a primeira imagem que se recebe de uma pessoa”, tendo por isso um grande impacto na idealização da pessoa. O culto exclusivo da beleza exterior do corpo é “extraordinariamente esvaziante”, no sentido em que não diz nada sobre o nosso carácter (Pinto and Jesus, 2006). No decorrer de toda a história da humanidade até os dias atuais, a questão do corpo veio com frequência à tona, despertando ao mesmo tempo horror e admiração. Trata-se da figura do monstro e da bela, que é exemplificada, por exemplo, no filme ”A Bela e o Monstro”, no qual existe a dicotomia entre o belo e o monstruoso.

A este propósito as filosofias Indianas admitem existirem vários corpos, para além do corpo físico exterior visível, e que são igualmente importantes para uma análise mais holística da pessoa (Dasgupta, 1979). Estes corpos são: Anna maya Kosha (corpo físico), Prana maya Kosha (corpo prânico), Kama maya Kosha (corpo emocional), Mano maya kosha (corpo mental concreto), Vijnana maya Kosha (corpo mental abstracto), Ananda maya Kosha (corpo intuitivo), Purusha maya Kosha (corpo espiritual) ou simplesmente o corpo físico visível e o corpo causal invisível. O corpo causal é representado por uma “aura” (dourada ou negra, de acordo com as suas acções) que se reflecte na figura do monstro ou do belo interior. Esta é a “aureóla” dos Santos.

O corpo do monstro difere do corpo normal na medida em que revela algo de “interior” (Moraes, 2005). Mas na realidade o olhar físico nada vê, dado que é-lhe oculto a própria imagem do corpo monstruoso. O que fascina é que o interior do corpo físico, o monstro, se corporifique e que seja revelada a Alma. Mostrando o avesso de sua pele, é a sua Alma que o monstro exibe: o seu corpo é o espelho de um Ser sem Alma. O encantamento pelo corpo físico/mental está ligado ao aparecimento da figura do monstro, isto é, entidade imaginária que surge pela escolha de um comportamento em que a Alma ou coração são secundários ou nem existem. Refira-se a raiz grega antiga da palavra monstro, Teras, a qual significava tanto de horrível como “fora do comum”, objecto de rejeição e espanto.

Abordando o tema da monstruosidade no âmbito da vida, Georges Canguilhem recorria a Gabriel Tarde para afirmar que o indivíduo santo era apenas o grau zero da monstruosidade (Canguilhem, 1992). Do seu ponto de vista, na vida o santo não transgredia as leis Universais e, portanto, não havia nada de monstruoso nos seus actos independentemente de parecerem lógicos ou não aos olhos do comum dos mortais.

Muitos santos apresentam corpos físicos, que segundo os padrões da cultura Ocidental, podem ser considerados pouco atractivos, mas cujas acções são de uma beleza incrível e que nos tocam no mais profundo do nosso Ser.

Acrescente-se que dentro das principais figuras no domínio das teorias médico-jurídicas sobre as anomalias do corpo, destaca-se a do monstro humano. Foucault mostra-nos como, no quadro de referência legal do saber jurídico, o que definia o monstro humano, tanto na sua existência como na sua forma, era não apenas a violação das leis da sociedade, mas também a violação das leis da própria natureza. Neste contexto, a existência do monstro enquanto tal já era suficiente para considerar as infracções às leis terrenas (matar, violar, corromper). Apesar de ser considerado um fenómeno extremo e extremamente raro no domínio biológico-jurídico, no limite, o monstro teria sido transformado num ponto central para a avaliação de diferentes aspectos de subversão das leis. Ainda de acordo com Foucault, “até a metade do século XVIII, havia um estatuto criminal da monstruosidade, no que ela era transgressão de todo um sistema de leis, quer sejam leis naturais, quer sejam leis jurídicas. Portanto, era a monstruosidade que, em si própria, era criminosa” (Foucault, 1999). A propósito das teorias médico-jurídicas sobre o corpo, no caso da mulher grávida que tem de decidir se faz ou não um aborto (por violação, por condições económicas deficitárias, pressão para progressão na carreira). Na visão Ocidental, o corpo da mulher grávida em condições extremas (devido às razões enunciadas), é sujeito, normalmente, ao aborto, enquanto que na visão Oriental, em particular na Índia, nas mesmas condições extremas opta-se por ter a criança e doá-la a um orfanato.

Ao nível da medicina, Ocidentais e Orientais, mostraram igualmente grande interesse pelo estudo do corpo (Kemp and Wallace, 2000). Na procura de desvendar os mistérios da vida, Aristóteles e Galeno, no Ocidente, dissecaram cadáveres para compreender a razão de ser do corpo humano. A ideia descritiva, quer da morfologia defendida por Galeno na Antiguidade (visão do corpo de um homem como o de um animal na plenitude do seu movimento vital), quer da morfologia de Vesálio no Renascimento (o corpo humano como uma estrutura arquitectónica), manteve-se pelo menos até ao começo do século XIX, no Ocidente. O funcional e o arquitectural juntaram-se no conhecido tratado De corporis humani fabrica de Samuel Thomas von Sőmmerring, publicado em Frankfurt entre 1794 e 1801. Em 642, Alexandria foi conquistada pelos Árabes, que respeitaram o legado cultural do Ocidente, ordenando a síntese da medicina antiga Ocidental. Avicena, Averrois, Rhazés, Maimónides foram algumas das figuras do Médio Oriente que se empenharam nestas tarefas.

Já no Extremo Oriente, na Índia, por volta de 1500 a.C., o povo Ariano trouxe os Vedas, e do mais recente deles, o Atharva-Veda, desenvolveu-se o Ayurveda. Este por sua vez gerou 6 grandes tratados médicos, em épocas diversas, entre eles o Sushruta Samhita (tratado de cirurgia) onde o estudo do corpo assume grande importância. Na China, na Dinastia Zhou (1000 a.C. – 221 a.C.) foi escrito o Huang Di Nei Jing ou o Clássico do Imperador Amarelo, onde numa das suas partes, no Su Wen, se faz a descrição detalhada sobre a anatomia do corpo humano. Estes estudos foram complementados, mais tarde, pelo médico Chinês Hua Tuo, que fez a descrição de várias cirurgias a corpos humanos utilizando anestésicos (Alphen, 1997). Nesta visão Ocidental e Oriental do estudo do corpo, em ambos os casos procura-se saber mais sobre o aspecto “exterior” do mesmo, mas no Oriente, em particular na Índia, existe uma preocupação de estudá-lo como um receptáculo da Alma ou da natureza espiritual do homem. Assim, na medicina Oriental existe uma preocupação com uma dimensão metafísica do corpo do homem, onde residem as causas da doença, e que se reflectem no corpo físico, sendo as terapias o meio através do qual o doente é levado à harmonia com o mundo. Esta dimensão espiritual do corpo está presente, por exemplo, na cultura chinesa, quando falam do corpo humano como o grande “atanor”, o lugar da grande transmutação, onde o fogo serpentino, kundalini, ascende desde a base da coluna vertebral até à cabeça, onde se dá a transformação da consciência do corpo físico (Souzenelle, 1984).

III-Conclusões

A visão do corpo na sociedade Ocidental e Oriental assume perspectivas diferentes, havendo uma exacerbação da aparência física, no mundo Ocidental. Na sociedade Oriental assume-se a existência do corpo causal (invisível), interligado com o carácter da pessoa, enquanto que o Ocidente, fala na figura do “monstro”, para expressar os “defeitos morais” do corpo físico (Gil, 2006).

Também a medicina Ocidental tem-se dedicado ao estudo do corpo físico, mas a medicina Oriental tem interligado esse estudo com a necessidade de integração com uma mente equilibrada, para se ter saúde.

Bibliografia
Alphen, Jan Van.1997. Oriental Medicine. Shambhala.
Canguilhem, G.. 1992. “La monstruosité et le monstrueux”. In: La connaissance de la vie. Paris: Vrin.
Courtine, J.J.. 2006. “O corpo anormal – história e antropologia culturais da deformidade”. In: Corbin, A., Courtine, J.J & Vigarello, G., História do corpo – As mutações do olhar: o século XX. Vol.3, Petrópolis: Editora Vozes.
Daolio, J. . 1995. Da cultura do corpo. Campinas: Papirus.
Dasgupta, Surendranath. 1973. The History of Indian Philosophy. 5 volumes, Motilal Banarsidass.
Foucault, M..1999. Les anormaux – cours au Collège de France, 1974-1975. Paris: Gallimard/Le Seuil.
Gil, J.. 2006. Monstros. Lisboa: Relógio D’Água Editores.
Kemp, Martin and Wallace, Marina. 2000. Spectacular Bodies – The Art and Science of the Human Body from Leonardo to Now. (Catálogo da exposição). London: Hayward Gallery and University of California Press.
Moraes, E. R.. 2005. “Anatomia do monstro”. In: Bueno M. L.; Castro, A. L. Corpo, território da cultura. São Paulo: Annablume.
Pinto, J.P.M.S. and Jesus, A. N.. 2006.  A Transformação da visão de corpo na sociedade ocidental. Motriz, Rio Claro: UNESP, v. 6, n.2. Campinas: Papirus.
Santin, S.. 2003.Uma abordagem filosófica da corporeidade. Ijuí: Uniju.
Souzenelle, Annick. 1984. Simbolismo do corpo humano. Editora pensamento.
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