A obra literária de Helena Petrovna Blavatsky

O presente capítulo pretende ser uma breve introdução à obra literária de H.P.B. que, por enquanto infelizmente só se encontra disponível de forma relativamente completa em idioma inglês. Entre 1933 e 1985 foram publicados, em inglês, 14 volumes das suas obras completas, ordenados cronologicamente, os quais não incluem, mas complementam, o que H.P.B. escreveu em forma de livros, como Ísis sem Véu e A Doutrina Secreta. Infelizmente, estes textos por agora só se encontram noutros idiomas e de forma fragmentária. Devemos este abnegado trabalho de recompilação de todo o material escrito de H.P.B. ao compilador das suas Obras Completas, Boris de Zirkoff, que contou com a colaboração das diversas Sociedades Teosóficas e especialmente de um dos seus presidentes, Sr. N. Sri Ram.

A obra literária de Helena Petrovna Blavatsky foi imensa. Não só compreende os seus livros mais conhecidos, como A Doutrina Secreta, Ísis sem Véu, A Voz do Silêncio, O Glossário Teosófico, A Chave da Teosofia, ou compilações de contribuições literárias surgidas em jornais como, Pelas Grutas e Selvas do Indostão; também inclui cerca de mil artigos em russo, inglês, francês e italiano, que em volume superam o do conteúdo dos seus livros. Devemos igualmente considerar as suas cartas, das quais só se publicaram dois volumes, e as instruções para a Escola Esotérica, das quais somente fragmentos são do domínio público.

Na nossa opinião, é possível que um futuro volume das Obras Completas (Collected Writings) inclua material adicional, como cartas inéditas, ou notas para a Escola Esotérica, que não são conhecidas pelo público. A ideia geral é que os apontamentos para a Escola Esotérica publicados no tomo XII das Obras Completas, e em similar forma em A Doutrina Secreta, edição de Adyar (Tomo V) por A. Besant, são todos os que H.P.B. deixou. O material incluído no tomo XII das Obras Completas (págs. 513-713) inclui cinco notas e uma série de ensinamentos baseados em respostas a perguntas de H.P.B. que devemos ao Dr. Roso de Luna; série retirada de uma carta de H.P.B. a Sinnett de 1889 (pág. 345) e que indicaria um volume maior de escritos para a Escola Esotérica:

Perguntais-me quais são as minhas novas ocupações? Nenhuma, excepto escrever todos os meses cinquenta ou mais páginas sobre as minhas Instruções Esotéricas, que não podem ser impressas. Cinco ou seis desgraçados, mártires voluntários entre os meus generosos esoteristas, fazem trezentas cópias para mandá-las aos membros ausentes da minha Secção Esotérica: mas eu tenho entretanto de revê-las e corrigi-las! Logo, as nossas reuniões das quintas­-feiras, com as perguntas científicas dos savants, tais como Bennet ou Kigsland, que escrevem sobre electricidade, com taquígrafos em todos os cantos e a segurança de que a menor palavra minha aparecerá no nosso novo jornal Transactions of the Blavatsky Lodge, e que será lida e comentada, não só pelos meus teosofistas, mas por centenas de pessoas predispostas contra mim.

Numa série de notas preliminares à instrução Número III, H.P.B. menciona ter recebido instruções para não continuar os ensinamentos esotéricos (O.C. Tomo XII, págs. 581-600), as quais foram ainda assim resumidas na instrução Número V. Porém, exista ou não material adicional da Escola Esotérica, o leitor conta com um material precioso que abarca um terreno intelectual enorme.

Infelizmente, não são muitos os que tenham estudado seriamente a obra de H.P.B. por completo, incluindo muitos malogrados copistas, que caíram abertamente no sectarismo religioso ou no mais baixo medianismo e fantasia, esquecendo o fio fundamental da obra de H.P.B.: o eclectismo e um espírito fundamentalmente filosófico.

Esperamos que o presente trabalho contribua para a orientação do leitor das obras de H.P.B., que não deve sentir-se desencorajado ao enfrentar o monumental conhecimento esotérico expressado em Ísis sem Véu e A Doutrina Secreta. Existem centenas de artigos, narrações de viagens e contos ocultistas produzidos pela pluma de H.P.B., através dos quais o leitor pode penetrar no mais maravilhoso mundo do Mistério que H.P.B. tanto amava. 

 

Relação das obras de Blavatsky

A obra literária de H.P.B. foi composta (exceptuando alguns artigos anteriores) entre 1875 e 1891, principalmente em língua inglesa, idioma que H.P.B. só dominava de uma maneira rudimentar na sua chegada a Nova Iorque a 7 de Julho de 1874. Isto só por si é um enigma e um prodígio que excede a imaginação. Neste período, H.P.B., com muito pouca ajuda (cabe aqui citar a Olcott, a quem devemos o trabalho editorial de Ísis sem Véu), escreveu as seguintes obras:

Ísis sem Véu (Nova Iorque, 1877).

A Doutrina Secreta (Londres e Nova Iorque, 1888).

A Chave da Teosofia (Londres, 1889).

A Voz do Silêncio (Londres e Nova Iorque, 1889).

Jóias do Oriente (Londres, 1890).(*)

Transcrições da Loja Blavatsky (Londres e Nova Iorque, 1890 e 1891). (*)

O Glossário Teosófico, obra póstuma (Londres e Nova Iorque, 1892).

Contos de Pesadelo (Londres e Nova Iorque, 1892). (*)

Pelas Grutas e Selvas do Indostão. (Londres, Nova Iorque e Madrás, 1892). Obra reeditada como tomo adicional às Obras Completas.

 

Finalmente de referir os catorze volumes das Obras Completas de H.P.B. que contêm textos adicionais, dos quais só o primeiro volume corresponde ao período compreendido entre 1874 e 1878, anterior a Ísis sem Véu. Estes catorze volumes foram publicados em Londres (Inglaterra), Madrás (Índia) e Wheaton (Illinois, EUA) entre 1933 e 1985 e contêm artigos, contos, anotações várias, respostas a cartas (contidas em O Teósofo e Lúcifer, dos quais H.P.B. foi editora), e inclusivamente material apresentado em livros a partir de 1874. Por exemplo, o volume XII inclui o pequeno livro de aforismos compilados por H.P.B. para cada dia do ano publicado sob o título «Jóias do Oriente» em 1890. Também foram incluídos cronologicamente, os Contos de Pesadelo (publicados em espanhol sob o título de Narrações Ocultistas), e outros textos anteriormente apresentados em forma de livros ou compilações (por exemplo, Cinco Anos de Teosofia). Os catorze volumes também incluem o material de A Doutrina Secreta que não apareceu na edição original de dois tomos. Este material, que aparece no tomo XIV das Obras Completas corresponde ao tomo V de A Doutrina Secreta, edição de Adyar, e tomos V e VI da edição espanhola publicada pela editora Kier em Buenos Aires.

Blavatsky e Olcott / Wikipedia
Blavatsky e Olcott / Wikipedia

 

Os primeiros escritos de H.P. Blavatsky

Não existe prova concludente de que H.P.B. tenha publicado artigos antes de Outubro de 1874, no entanto, é altamente provável. Por exemplo, numa entrevista a H.P.B. publicada no jornal Daily Graphic de Nova Iorque em 13 de Novembro de 1874, H.P.B. referiu-se ao facto de ter escrito anteriormente para a Revue de Deux Mondes de Paris e de ter sido uma correspondente do Independence Belge e de outras publicações francesas. Também existem referências orais a outras publicações nos EUA, traduções para o russo, etc.

Entre 1874 e 1878, durante a sua estadia nos Estados Unidos, H.P.B. escreveu uma série de artigos polémicos nos jornais espiritistas mais conhecidos: Banner of Light (Boston, Massachusetts), Spiritual Scientist (Boston, Massachusetts), Religio-Philosophical Journal (Chicago, Illinois), The Spiritualist (Londres) e a Revue Spirite (Paris). Também escreveu uma série de contos ocultistas para alguns dos jornais americanos mais importantes como The World, The Sun e The Daily Graphic, todos de Nova Iorque.

O primeiro artigo de H.P.B. sobre os habitantes do mais além intitulou-se «Maravilhosas manifestações de Espíritos» (O.C. Vol. I pág. 30) e foi publicado a 30 de Outubro de 1874 no Daily Graphic de Nova Iorque. O artigo é uma resposta a um artigo anterior do Dr. G. M. Beard que tratava de desmentir os fenómenos espiritistas que estavam a suceder na quinta dos Eddy em Vermont, EUA. Na sua resposta, H.P.B. escrevia no seu estilo inimitável:

Durante as últimas semanas, o Dr. G. M. Beard assumiu o papel de “leão que ruge” procurando um medium para “devorar”. Ao que parece, hoje este culto cavalheiro tem mais fome do que nunca. Logo, o fracasso que experimentou com o “leitor de pensamento” de New Haven não é de surpreender.

Não conheço o Dr. Beard pessoalmente, nem me interessa saber até que ponto merece ter os louros da sua profissão de doutor em Medicina. O que sei sim, é que jamais poderá aspirar a igualar, e muito menos ultrapassar, homens sábios como Crookes, Wallace, ou inclusivamente Flammarion, o astrónomo francês; qualquer um dos quais se dedicou, durante anos, à investigação do espiritismo. Todos eles chegaram à conclusão de que, mesmo supondo que o bem conhecido fenómeno de materialização dos espíritos não provasse a identidade das pessoas que dizem representar, não se tratava, de qualquer modo, da acção de mãos humanas, e muito menos uma fraude.

Recordemos que H.P.B. havia chegado aos Estados Unidos em Julho de 1873 e que o seu conhecimento do inglês era, no melhor dos casos, rudimentar. Durante a sua infância havia aprendido noções de inglês com uma instrutora de Yorkshire, Inglaterra. No entanto, como ela própria nos relata, jamais voltou a falar e menos ainda escrever a dita língua entre os 14 e os 40 anos de idade. Na mesma nota autobiográfica (compilada por Mary K. Neff) recorda também uma instância em que lhe havia sido extremamente difícil entender um livro escrito em inglês durante uma estadia em Veneza em 1867. Porém, logo depois, teria que começar a escrever a sua grande obra em inglês, com a qual ganharia uma bem merecida reputação de insuperáveis conhecimentos ocultis­tas: Ísis sem Véu.

Blavatsky em 1877 / Wikipedia
Blavatsky em 1877 / Wikipedia
Ísis sem Véu

Ísis sem Véu foi escrita entre 1875 e 1877, abarcando menos de dois anos de trabalho contínuo nesta magna obra que, talvez pela primeira vez desde a desaparição dos platónicos e neoplatónicos, representa um esforço coerente de sintetizar fragmentos de sabedoria esotérica de todas as idades e culturas do mundo. No prefácio à obra, H.P.B. explica que o «seu objectivo é ajudar o estudante a descobrir os princípios vitais que subjazem nos antigos sistemas filosóficos».

Ísis sem Véu teve um enorme êxito, esgotando-se na primeira edição de mil exemplares em dois dias. Em reconhecimento dos enormes conhecimentos desenvolvidos nas suas obras, H.P.B. recebeu o mais alto grau maçónico, o de «Princesa coroada» (Rito de Adopção sob os Ritos de Memphis e Mizraim). Aclaramos que H.P.B. jamais perten­ceu à Maçonaria regular e, portanto, nas suas próprias palavras: «Não nos encontramos sob nenhuma promessa, obrigação ou juramento, e portanto não violamos nenhuma confiança», referindo-se à sua crítica da Maçonaria ocidental em Ísis sem Véu.

O leitor atento notará que Ísis sem Véu começa com uma exposição dos princípios fundamentais da tradição pitagórico-platónica e outras fontes gregas de sabedoria tradicional, ou seja, das raízes do Esoterismo no Ocidente. Nas suas referências a Platão, H.P.B. analisa entre outros o «Mito da Caverna» (A República) e refere-se à filosofia platónica como «o mais perfeito compêndio dos abstrusos sistemas da antiga Índia, e o único que pode oferecer-nos terreno neutral… Platão foi, na mais plena acepção da palavra, o intérprete do mundo, o maior filósofo da era pré-cristã…».

Em Ísis sem Véu H.P.B. demonstrará o mesmo espírito filosófico que caracterizará todo o seu labor. É uma obra de síntese que se esforça em demonstrar a identidade das ideias essenciais de todo o grande sistema filosófico. Segundo H.P.B. «Há uma regra de interpretação que deve guiar-nos no exame de qualquer opinião filosófica. A inteligência humana, sob a necessária acção das suas próprias leis, está impelida em manter as mesmas ideias fundamentais, e o coração do homem a alimentar os mesmos sentimentos em toda a época». Em Ísis sem Véu e suas obras posteriores, especialmente A Doutrina Secreta, H.P.B. esforçar-se-á por provar esta afirmação.

Um facto lamentável em relação à publicação de Ísis sem Véu foi que o material que viu a luz na primeira edição de dois tomos corresponde aproximadamente à metade ou a um terço da que H.P.B. havia reunido para a obra. O resto foi destruído, facto que ela lamentaria quando chegou a hora de escrever A Doutrina Secreta.

 

A Doutrina Secreta

A Doutrina Secreta foi indubitavelmente a obra literária mais importante de H.P.B. Inicialmente havia sido concebida como uma revisão do material contido em Ísis sem Véu. No entanto, o produto final, para nossa sorte, contém poucas repetições e muitíssimo material original que, segundo H.P.B., não seria compreendido ou discutido inteligentemente até ao «próximo século» (nosso século XX).

Olcott relata que em 1879 havia começado a ajudar H.P.B. a escrever «o seu novo livro teosófico». No dia 24 de Maio de 1879 havia esboçado um índice e em 4 de Julho havia terminado de escrever o prefácio. Esta havia sido a semente da qual germinaria anos mais tarde A Doutrina Secreta, cujo título Olcott havia sugerido durante um esboço inicial.

O primeiro aviso da publicação da obra e solicitação de subscrições, apareceu em O Teósofo, de Fevereiro de 1884. Porém, a publicação não seria possível até finais de 1888. O primeiro volume saiu da gráfica em Londres no dia 20 de Outubro de 1880 e o segundo em finais de Dezembro do mesmo ano ou Janeiro de 1881.

O plano original da obra, segundo o que H.P.B. havia concebido, compreendia quatro volumes. A primeira edição foi publicada em dois volumes dos quais faltava muito material que H.P.B. havia preparado. O material que faltava compreendia fundamentalmente um «longo prefácio» (não o prefácio que conhecemos) relativo à história dos grandes Adeptos e do Esoterismo através do tempo. Este é provavelmente o material publicado no tomo V da edição de Adyar e tomos V e VI das edições em espanhol, excluindo as notas para a Escola Esotérica (publicadas como Alguns Apontamentos sobre o Significado da Filosofia Oculta na Vida no tomo VI da edição em espanhol). A respeito do conteúdo do tomo IV original, existem várias referências que nos fazem crer que versaria sobre Magia e Ocultismo prático. Parece-nos altamente provável que parte deste material tenha sido incluído posteriormente nas instruções para a Escola Esotérica.

Tal com chegou até nós, o material de A Doutrina Secreta, no qual se citam 1.200 autores e obras, incluindo alguns como O Livro Caldeu dos Números que não foi possível encontrar, foi ordenado do seguinte modo (incluindo o material publicado postumamente):

— Estâncias de Dzyan sobre Cosmogénese e comentários.

— Estâncias de Dzyan sobre Antropogénese e comentários.

— Simbologia arcaica.

— Capítulos sobre Ciência.

— História dos grandes Adeptos e do Esoterismo.

— Algumas instruções param a Escola Esotérica.

 

As estâncias e comentários obedecem à tradicional forma de exposição oriental conhecida como sutri, sutra e smrti, ou seja, a apresentação dos textos sagrados (sutra) e comentários qualificados aos mesmos (smrti). No que diz respeito aos capítulos relacionados ao Simbolismo, H.P.B. esclarece que, sem compreender Simbologia arcaica, é impossível desvendar e compreender as antigas concepções acerca da origem do Universo (Cosmogénese) e do Homem (Antro­pogénese).

Em relação ao modo recomendado por H.P.B. para estudar o material contido em A Doutrina Secreta, devemos as anotações seguintes atribuídas a conversas com H.P.B., a Robert Bowen, membro da Loja Blavatsky de Londres:

Alguém que imagine que obterá uma imagem satisfatória da constituição do Universo em A Doutrina Secreta, só ficará confuso com o seu estudo. Não pretende dar tal veredicto da existência, mas sim conduzir até à VERDADE…

Deve encarar-se o estudo de A Doutrina Secreta como um meio de exercitar aquele aspecto da mente jamais tocado por outros estudos.

 

H.P.B. recomendava, para além disso, a reflexão acerca das seguintes ideias:

  • A unidade fundamental de toda a existência. Trata-se do ensino de que a existência é uma coisa, não simplesmente muitas coisas ligadas. Fundamentalmente só existe um Ser. Este Ser tem dois aspectos, positivo e negativo. O aspecto positivo é Espírito ou Consciência. O negativo é substância.
  • A segunda ideia vital é a de que não existe a matéria morta. Todo o átomo está vivo. Não pode ser de outro modo, posto que cada átomo é em si mesmo o Ser Absoluto.
  • A terceira ideia fundamental é que o Homem é o Microcosmos. E se é tal, todas as Hierarquias dos Céus existem dentro de si. Mas na verdade, não existe um Macrocosmos nem um microcosmos mas uma só Existência. O grande e o pequeno são assim, somente vistos por uma consciência limitada.
  • A quarta e última ideia fundamental é a expressa no grande axioma hermético que sintetiza as demais.

Como é no Interior, é no Exterior; como é o Grande é o Pequeno; como é Acima é Abaixo: só existe uma Vida e uma Lei; e aquele que actua é Uno. Nada é Interior, nada Exterior; nada é Grande nem Pequeno; nada é Alto nem Baixo na divina Economia.

 

A Chave da Teosofia

A Chave da Teosofia foi publicada em 1889. Trata-se de uma obra fundamentalmente pedagógica dedicada por H.P.B. «a todos os seus discípulos, que possam aprender e por sua vez ensinar». A obra está estruturada em forma de perguntas e respostas, mais um glossário de termos esotéricos e filosóficos. Segundo H.P.B.:

 Não se trata de um livro de texto de Teosofia completo ou exaustivo, mas só de uma chave que permite abrir a porta que conduz a um estudo mais profundo. A obra traça as grandes linhas da Sabedoria-Religião, e explica os seus princípios fundamentais, enfrentando ao mesmo tempo as várias objecções do investigador ocidental comum, tratando de apresentar conceitos pouco familiares numa forma e linguagem o mais simples possível. Seria demais esperar que tenha êxito em mostrar de maneira inteligível a Teosofia sem muito esforço intelectual por parte do leitor. No entanto, esperamos que a obscuridade que permaneça seja devida ao pensamento e não à linguagem, à profundidade das ideias e não à confusão. Ao intelectualmente preguiçoso ou confundido, a Teosofia tem que parecer um enigma; pois nos mundos mentais e espirituais, cada homem deve progredir pelos seus próprios méritos.

A obra representa um esforço importante por parte de H.P.B. de tornar os princípios básicos da Filosofia esotérica em termos acessíveis ao leitor médio, que teria dificuldade ao confrontar-se com os difíceis delineamentos e exposições de Ísis sem Véu e A Doutrina Secreta. A sua utilidade adicional é a de resumir num livro traduzido em muitos idiomas respostas a cartas e perguntas planeadas ao longo dos anos através das revistas O Teósofo e Lúcifer. No entanto, não se trata de uma simples compilação do que apareceu nas referidas publicações, material este que pode ser consultado nas Obras Completas.

 

A Voz do Silêncio

A tradução de A Voz do Silêncio, que, como H.P.B. nos relata no prefácio, ela havia memorizado durante o seu treino ocultista no Tibete, está relacionada com a abertura da Escola Esotérica. Isto fica manifestado na dedicatória da obra: «Dedicada aos poucos». Quer dizer, aos verdadeiros aspirantes à Sabedoria.

Esta obra importantíssima, que contém, segundo H.P.B., inspiração tanto pré-budista como budista (Budismo Esotérico), explica o «espírito» da verdadeira Tradição esotérica. Nela despreza-se a aquisição de poderes psíquicos e exalta-se a «Sabedoria ou Doutrina do Coração», conhecida exotericamente como a «doutrina de compaixão» de Buda.

 

As Transacções da Loja Blavatsky

Contrariamente às instruções para a Escola Esotérica, o material contido em As Transacções da Loja Blavatsky jamais foi considerado de uso restringido. O livro está baseado em notas tomadas taquigraficamente por assistentes às reuniões da Loja Blavatsky, nas quintas-feiras em Londres (1889-1891), nas quais se discutiam as Estâncias de Dzyan, nas quais se baseia A Doutrina Secreta, e em que H.P.B. respondia a diversas perguntas. Por se tratar do período final da vida de H.P.B., só contém respostas a perguntas sobre as quatro primeiras Estâncias de Dzyan correspondentes a Cosmogénese.

 

O Glossário Teosófico

O Glossário Teosófico foi a obra póstuma de H.P.B. Na introdução à primeira edição de 1892 o editor lamenta que ela só tenha visto em vida as primeiras 32 folhas das provas de impressão, pois tinha intenção de estender consideravelmente o volume da obra, tal como nós conhecemos. A maior parte dos escritos pertence em punho e letra a H.P.B., exceptuando certos conceitos das doutrinas cabalísticas, rosa-cruzes e herméticas, que ela delegou a W. W. Wescott, um erudito cabalista e rosa-cruz.

 

Pelas Grutas e Selvas do Indostão

Esta obra, publicada como tomo adicional aos XIV volumes das Obras Completas, corresponde a contribuições literárias de H.P.B. publicadas em jornais russos. Ela havia começado a escrever regularmente para jornais russos em 1877, desde Nova Iorque. Encontraram-se 17 artigos deste período.

Pelas Grutas e Selvas do Indostão começou a ser publicado em Novembro de 1879 em forma de cartas de viagem. A primeira série, publicada originalmente na Crónica de Moscovo, foi interrompida em Janeiro de 1882. Em Novembro de 1885, o Mensageiro Russo, que havia reimpresso a série original entre Janeiro e Julho de 1883, reassumiu a publicação de uma segunda série, que chegou a compreender 7 capítulos, terminando no final de um parágrafo com a promessa de continuar, e assinado com o pseudónimo de H.P.B. Raddha-Bai.

A obra não é simplesmente uma descrição literal das aventuras de viagem de H.P.B. Não sabemos até que ponto História, Literatura e Esoterismo se misturam. Na edição espanhola, o Dr. Roso de Luna tratou de elucidar estas perguntas nos seus copiosos comentários a cada capítulo. No entanto, grande parte do mistério permanece…

Devemos um detalhe biográfico notável (compilado nos escritos de H.P.B. em russo) à sua irmã Vera de Zhelihovsky, que nos conta que durante a guerra entre a Turquia e a Rússia ela deu instruções para doar todos os seus honorários à Cruz Vermelha e às famílias dos soldados feridos.

 

O Teósofo e Lúcifer

Pouco depois da sua chegada à Índia a 16 de Fevereiro de 1879, em colaboração com Olcott, Blavatsky começou a planificar a publicação de uma Revista exclusivamente dedicada a temas ocultistas: O Teósofo. Esta viu a luz a 1 de Outubro do mesmo ano e até finais do mês já contava com 381 subscrições. Nela H.P.B. verteu muitos esforços e conhecimentos através de artigos, notas editoriais, respostas a cartas, etc. Infelizmente nem tudo o que ela escreveu tem a sua assinatura ou um de um dos seus pseudónimos, facto que dificultou o trabalho do editor das sua Obras Completas. Ao longo da sua trajectória literária, H.P.B. havia utilizado diversos pseudónimos como Hadji Mora, Raddha-Bai, Sanjna e «Adversário». O seu inimitável estilo teve que servir muitas vezes de guia para o reconhecimento de artigos e comentários não assinados, especialmente aqueles que aparecem em O Teósofo e Lúcifer.

Em Março de 1885 H.P.B. abandonaria a Índia para não regressar mais. Durante os seus últimos seis anos de vida, seguramente os mais difíceis, daria luz às suas mais maravilhosas flores: A Doutrina Secreta, A Voz do Silêncio e a Escola Esotérica. A este período corresponde também a fundação de uma nova revista sob o nome de Lúcifer. O primeiro número de Lúcifer apareceu em Londres a 15 de Setembro de 1887. A página titular levava a seguinte inscrição: «Uma revista teosófica, dedicada a “trazer à luz as coisas ocultas da obscuridade”». Em Lúcifer, H.P.B. continuou a expressar a sua inesgotável criatividade e conhecimento que incluíram importantes trabalhos como «O carácter esotérico dos evangelhos», que surgiu em Lúcifer naquela época.

 

Conclusão: um Enigma chamado H.P.B.

Não conseguimos saber plenamente quem foi o ser que o mundo conheceu como H.P.B… mas não é necessário compreender a essência da luz para seguir um sinal luminoso. A obra de H.P.B. foi plena desses sinais luminosos que permitem descobrir um património espiritual comum para toda a Humanidade. Esperamos que o leitor tenha a coragem de enfrentar estes ensinamentos com os seus próprios meios e através dos seus próprios esforços. A recompensa talvez seja aquela Liberdade da qual tanto falamos e tão pouco vivemos.

Helena Petrovna Blavatsky / Wikimedia Commons
Helena Petrovna Blavatsky / Wikimedia Commons

 

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