A magia e a vida do terceiro incluído

Na verdade, todo este tema poderia ser resumido na questão: eu, tu, ele, como podemos ser nós? Ou na afirmação bíblica “quando dois ou mais se reúnem em meu nome, eu, Cristo, estou entre eles”, ou na divisão de um segmento na sua média e extrema razão, ou seja, o Número de Ouro que harmoniza um e o outro, ou como método de conhecimento na “analogia”, que nos permite estabelecer uma ponte entre o que conhecemos e não.

Desde Aristóteles, no seu livro Metafisica, o pensamento ocidental – com poucas exceções – trabalhou com um sine qua non, com o princípio do terceiro excluído que é, definitivamente, o mesmo princípio da não contradição.

Aristóteles o formula assim:

“É impossível que, ao mesmo tempo e sob uma mesma relação, se dê e não se dê no mesmo sujeito, um mesmo atributo”. Por não se cumprir isto nos encontraríamos ante uma contradição lógica formal.

Hoje, na nossa matemática algébrica, o exporíamos de um modo mais simples, apesar de mais redutor

A=A  e  A≠ não A

Assim é, na verdade, como funciona a nossa mente formal, desvinculada da vida e sua essência, a imperiosa necessidade que temos de classificar tudo o que conhecemos e de colocar a ideia, numa categoria ou outra, numa gaveta mental ou fora dela, no vizinho, num conjunto ou no infinito universo mental que nega o mesmo.

O que vejo pela janela é uma pessoa ou não é, é um cavalo ou não é, escrevo agora com uma caneta ou não (ou então faço com um lápis, ou com um computador, ou com um iPhone).

O domínio humano atual sobre a Natureza não teria sido possível, pelo menos não desta forma, sem esta mecânica da mente que permitiu classificar ad infinitum tudo o que nos rodeia para, mais que conhecer, descrevê-lo e assim subjugá-lo. Este é o motivo pelo qual Aristóteles no quadro “Escola de Atenas” de Rafael aparece com a mão aberta e a palma para baixo. A sua filosofia não é para aceder à essência da Natureza, à Causa Arquetípica, mas para conhecê-la formalmente, e assim a dominar.

O mesmo Platão mencionou a existência de dois mundos quando disse que há dois reis. Da Natureza – disse – o rei é o Sol e no mundo inteligível o Bem, a fonte da luz espiritual que tudo na existência vivifica e impulsiona. A diferença é que o Sol e a natureza não estão mais além do alcance desses ventos divinos de bondade que os egípcios chamaram de Amón.

É evidente que nas coisas importantes da vida há que definir se um corpo está vivo ou não está, ou seja, que está morto; e que existe um caminho para a luz, que ascende no mais íntimo, e outro – quem sabe o mesmo, no sentido contrário – que nos leva às sombras e ao esquecimento da nossa verdadeira natureza.

Descartes cristalizou, ou endureceu asperamente esta dualidade. A substância material (res extensa) e a mental (res cogitans) são, diz, duas realidades absolutamente autónomas, independes e excludentes.

Como Santo Agostinho ao opor a Cidade de Deus à Cidade do Homem, esta dualidade, sem possibilidade de as harmonizar é muito perigosa para a alma, entre outras coisas, porque não é certa. A mente humana não pode focar-se sobre qualquer objeto sem colocar como fundo o que “não é”, pois é por natureza dual. Por isso, não significa que a realidade seja assim, que seja dual, pois ainda nos contornos das sombras dos corpos vemos uma gradação, e nada que seja objeto de conhecimento e vida é absolutamente claro ou escuro, bom ou mau, grande ou pequeno, etc., senão sempre em relação com o outro, ou a si mesmo, antes ou depois.

Quantos universos podem existir?

Além disso, Platão demonstrou genialmente ao dizer no Timeu que só existe um Universo pois se existisse 2, já haveria 3. O primeiro, o segundo e a relação entre ambos, ou o espaço que está entre ambos. E repetindo o argumento, os universos se multiplicariam até ao infinito, que para o pensamento matemático e filosófico grego nunca existe de facto, “em ato”, mas como potência ou como um “chegar a ser”.

Depois da punhalada de Descartes em que cortou o vínculo entre a ideia e a vida, ou entre o pensamento e a matéria, a maior parte dos filósofos do chamado “Século das Luzes” caiu neste tecido de alucinação. O princípio do terceiro excluído ficou afirmado não apenas como método lógico, mas como certeza que governa o real. Não sabemos se as cinzas de Aristóteles sorririam ou simplesmente diriam “serão sempre crianças” (ou ambas as coisas).

Descartes, que seguiu ao pé da letra o argumento de Al Gazzali ao continuar com a sua dúvida metódica e afirmar em vez de “Eureka!”, “Cogito ergo sum” (penso logo existo), que é mais difícil de dizer, separou os dois pólos da realidade quando na natureza vemos sempre que os dois pólos do mesmo ou se atraem (se são diferentes) ou se repelem (se são iguais).

O materialismo dialético, que tanta dor desnecessária lançou no século XIX, e o materialismo alucinado (que inclui os fanatismos religiosos, científicos, etc.) do final do século XX e XXI são os filhos bastardos desta forma de pensar sectária e excludente.

Recordemos a parábola dos Grous de Platão em que estas se reúnem para determinar a natureza do mundo em que viviam e depois de longas e doutas deliberações chegam à conclusão que o mundo pode dividir-se em dois, os grous e os não grous.

A sabedoria hindu, pelo menos a da Escola Samkhya, é muito mais natural e harmónica. Trabalham com muitas filosofias antigas com base no número 3 e não o 2. Já que é impossível um 2 sem um 3. Esta diz que tudo o que é material (matéria que se vai subtilizando até ser pensamento, consciência do Eu – ahamkara– e ainda budhi (luz inteligível) está formado por três qualidades (gunas), rajas (excesso), tamas(defeito) e satva (justo meio, harmonia). Tal como toda a cor pode ser formada pelas 3 primárias (vermelho, amarelo e azul) tudo o que existe na natureza física, psicológica e moral está formada por estes três elementos ou princípios. Assim, chamavam à natureza, cabra de 3 cores.

O carvão negro (tamas) arde (rajas,vermelho) e converte-se em luz, (satva, branco). O insensível agita-se, sofre, vence as suas limitações e no final converte-se na luz que era antes de cair nos abismos da matéria.

Os gregos falavam do corpo (soma), alma (psique) e espírito (nous) e esta foi a crença no Ocidente, antes dos cristãos afirmarem que se o espírito era Deus, o homem estava deste modo apenas composto de corpo e alma. Deus passou a ser ex machina, externo ao ser humano e este renunciou assim à sua imortalidade essencial. Deus deixou de ser imanente e ficou apenas como transcendente, o qual é um absurdo lógico. E corpo, alma e espírito, como elos de uma cadeia, tinham os seus pontos de união e separação, não estavam separados.

Não podemos construir um triângulo e nem sequer fechar um espaço, com apenas duas linhas retas, são necessárias três.

Dignāga (480 – 540 dC) foi um estudioso budista indiano e um dos fundadores budistas da lógica indiana (hetu vidyā) / wikipedia

O Budismo Mahayana – mais especificamente a Escola Yogacharya – ao fazer uma leitura sábia do verdadeiro significado dos 3 gunas da filosofia védica, descreve três naturezas (syabhava):

1 – a imaginada (parikalpita)

2 – a dependente (paratantra)

3 – a perfeita (parinishpana)

Panchasatika Prajnaparamita Sutra, o “Sutra sobre a Perfeição da Sabedoria em 500 linhas” considerado uma segunda e mais perfeita promulgação do Dharma, refere-se a estas três natureza como

1 – não existência

2 – uma pobre classe de existência

3 – existência

Dignaga, discípulo de Vasubhandu, e um dos grandes discípulos da Escola Yogacharya, diz a respeito:

O ensinamento na Perfeição da Sabedoria está baseado em três: o imaginado, o dependente e o perfeito. Com as palavras isto não existe, etc, podemos refutar todo o imaginado. Com os exemplos, como uma ilusão, é dado o ensinamento do dependente. Pela quadruple purificação[i] o perfeito é ensinado.

Usando um exemplo clássico da filosofia vedantina, se ao caminhar de noite acreditamos que um ramo caído é uma serpente isso é o não existente. Se a vemos e analisamos o tipo de ramo ou de folhas que tem, isso é “dependente” pois aqui todo o conhecimento está formado por elementos de um conjunto que formam parte de outro maior, ou simplesmente de outros, do mesmo modo que uma mesma pessoa pode ser ao mesmo tempo pai, filho, mestre e esposo.

Mas este tipo de conhecimento não nos permite aceder ao essencial, ao real, à quinta-essência, não toca a alma do que conhece, como a colher não bebe a sopa. Chegar a compreender de verdade – a vibrar em uníssono, como diz Platão, que significa realmente compreender a natureza do tal ramo e árvores, seria um ato de verdadeira sabedoria, que nos faria viver na árvore como a árvore vive em nós. Este é o conhecimento “verdadeiramente existente”.

Se um pai vê o seu filho como um pedaço de carvão em vez de um diamante em bruto, como uma simples pedra, esta é a primeira natureza. Se o vemos como o que queríamos que fosse, remetemos a ele aquilo que não é a sua vocação ou identidade, essa seria a segunda natureza, o dependente. Se sabemos quem e o que é, qual é a sua verdadeira natureza, só assim saberemos como educar. Aí está o amor verdadeiro, que é sabedoria e compreensão, que não torce nem dobra mas simplesmente lava – como o famoso exemplo de Plotino – a crosta do barro que impedia de ver a pérola oculta.

Na natureza, na vida, no real, o Um e o Outro estão sempre vinculados, entrelaçados, não há dois sem três. O terceiro não está excluído, mas incluído. Estamos aqui, mas para chegar ali há um caminho. O caminho não se opõe ao caminhante, somente como as caras do mesmo, pois não há caminho sem caminhante nem caminhante sem caminho. E ao caminhar, caminho e caminhante, sintetizam-se numa mesma realidade, harmonizam-se vitalmente. Nem a cidade terrestre se opõe à celestial pois é o seu reflexo mais ou menos perfeito, nem a matéria se opõe excluindo o espírito pois é o seu veículo de manifestação (upadhi).

Antes de entrar no Templo, o átrio permite-nos, desde o profano, ir acendendo ao sagrado. Desde o silêncio, ou a ignorância, primeiro ouvimos alguém e depois, pouco a pouco, compreendemo-lo. A própria computação quântica abandona o sistema binário do Sim ou Não (1 e 0) exclusivo e gera valores simultâneos de ambos. É como se trabalhasse com os intervalos, com os espaços internumerais.

E Platão, o Mestre de Aristóteles, no Mito da Caverna fala de três mundos, ou naturezas, equivalentes às que o livro místico da Voz do Silêncio menciona:

  • Sala da ignorância, onde se nasce, vive e morre (a matéria que opaca a alma)
  • Sala da Instrução, onde a alma encontrará as flores da vida e debaixo de cada flor uma serpente escondida (o mundo psíquico)
  • Sala da Sabedoria onde vive e se reflete a luz imarcescível da Eternidade.

No Mito da Caverna são:

  • O mundo das sombras ou irrealidade, como presenças ou objetos de conhecimento (matéria) que deve desidentificar-se para percorrer a:
  • Caverna, com a sua rede labiríntica de cenários (psique) da qual é necessário sair para chegar à:
  • Verdadeira Natureza, fora da Caverna o mundo dos Arquétipos, vivificados por um Sol espiritual que Platão identifica com o Bem.

Nem na Natureza nem na Vida há um terceiro excluído porque nada há totalmente excluído. Apesar de o sim extinguir o não e o não o sim, nada há totalmente luminoso ou totalmente escuro. E como bem diz H.P. Blavatsky, a Luz Absoluta é o mesmo que a Obscuridade Absoluta, não as podemos diferenciar. O sim é sim e o não é não. Mas os rios correm porque existem montanhas e vales, a vida sustenta-se no equilíbrio osmótico dentro-fora, a eletricidade corre entre ambos os pólos, e o vento entre as altas e baixas pressões, geradas por ciclones ou massas de ar que giram em sentidos opostos. Recordemos para terminar a passagem em que se encontra o jovem e já sábio Ibn Arabi e o erudito cordovês Ibn Rushd (Averroes):

Passei uma jornada em Córdoba, em casa de Abú al-Walid Ibn Rushd (Averroes), quem anteriormente tinha expresso o seu desejo em conhecer-me pessoalmente. Parece que lhe tinham falado de certas revelações recebidas por mim durante o meu retiro espiritual, o que despertou a sua curiosidade e estranheza. Assim, o meu pai, que era seu amigo, levou-me com o pretexto de que deveria solucionar uns assuntos em Córdoba.

Naquela época era ainda um jovem sem barba. Ao entrar na sua casa, o filósofo levantou-se para me acolher com grandes sinais de amizade e afeto e me beijou. Depois me disse: Sim? E eu respondi: Sim. Mostrou alegria ao ver que o compreendi. Ao observar o motivo do seu júbilo, disse-lhe: Não. Então Ibn Rushd surpreendeu-se, empalideceu e diria que duvidava de si mesmo. Seguidamente fez-me a seguinte pergunta: Que resposta encontraste às questões da Revelação e da graça divina? Coincide a tua resposta com a aquela que dá o pensamento especulativo? E eu contestei: Sim-Não. E entre o Sim e o Não os espíritos voam mais além da matéria e as cabeças separam-se dos corpos. Ao ouvir isto, Ibn Rushd empalideceu e até tremeu e escutei os seus lábios a murmurar: Não há maior força e poder que a que vem de Deus. Logo tinha compreendido.

 

Artigo escrito em Córdoba, a 1 de Janeiro de 2017 
[i] Imagino que se refere às Quatro Nobres Verdades da Doutrina Budista.

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