A honestidade, verdadeira beleza

 “Nenhum legado é tão rico como a honestidade.” – William Shakespeare

Vivemos numa época em que a perda progressiva de valores, a falta de uma moralidade que imprima bondade às nossas ações, converteu em habitual o “tudo vale” que está degradando a nossa sociedade a passos agigantados. A tão aclamada liberdade de expressão converteu-se na desculpa perfeita para se cometer injustiças, atentar contra a dignidade dos outros e, inclusivamente, da nossa própria. À força de normalizar a imoralidade acostumámo-nos a ela e converteu-se numa presença constante nas sociedades atuais.

Lia-se não há muito tempo que a honestidade consistia em ser fiel a si mesmo em pensamentos e ações. Ou seja, fazer o que pensamos e dizer o que sentimos. De um ponto de vista filosófico isto é aceitável, porque significaria que teríamos alcançado a harmonia interior que, sem dúvida, se refletiria no exterior. Mas falta um elemento nesta equação para que o resultado seja válido. Vamos dar um exemplo. Infelizmente o terrorismo converteu-se numa praga que ameaça a paz e a harmonia, expandindo-se por todo o mundo, os terroristas imolam-se ou cometem atentados ceifando a vida de muitas pessoas sem se importarem, aparentemente, serem portadores da desgraça e do sofrimento. No entanto, se perguntássemos a algum destes terroristas se consideram que as suas ações são autênticas, isto é, se estão em harmonia com o que pensam e sentem, seguramente diriam que sim. Porque crêem no que fazem, ainda que esta ação os converta em assassinos e não contribua, em nada, para o desenvolvimento da sociedade. Portanto, o elemento que falta na equação é a intenção de fazer o bem. A honestidade não é apenas coerência entre o que pensamos, sentimos e fazemos, mas também tem que contribuir para o Bem.

“Não é lícito causar dano a outro para seu próprio benefício.”[1] – Cícero

Cícero, na sua obra Dos Deveres afirma que a honestidade é a base do dever, já que compreende tanto o respeito a si mesmo como aos outros. E qual é o dever que corresponde ao ser humano? Segundo o filósofo romano “viver de acordo com a natureza” que não é outra coisa do que viver de acordo com uma conduta moral e elevada.

Há na definição de honestidade muito da busca do justo. Disse Cícero: ”todas as coisas que se fazem com justiça são decorosas e as que se fazem com injustiça, como as coisas torpes, são indecorosas” [2]. Para o filósofo o decoro é “tudo o que se encontra conforme com a excelência do homem precisamente naquilo em que a sua natureza o distingue dos outros animais” [3]. Ou, se quisermos dizer de outra maneira, ser honesto (ou decoroso) é próprio do ser humano da mesma forma que também o é a saúde, sendo a doença uma alteração do que é natural e um sinal de que as coisas não estão bem. Do mesmo modo, também a corrupção é uma doença da alma, é a sombra da honestidade e um indicador de falta de harmonia interior.

Cícero denuncia Catilina, Cesare Maccari / Wikimedia Commons

A falta de honestidade no ser humano é um problema não só individual, como também social. Uma pessoa honesta inspira confiança enquanto que o contrário gera insegurança, desconfiança e, inclusivamente, temor. As bases das relações humanas fundam-se na confiança mútua e quando esta falta, a sociedade desintegra-se porque sentimo-nos traídos. Esta realidade está magistralmente expressa na obra de Júlio César, de Shakespeare, no discurso que Marco António profere após a morte do imperador. Nesta cena, um aturdido e angustiado Marco António ironiza sobre as qualidades daqueles que se intitulam de honrados mas que atuam seguindo os seus instintos e não buscando o melhor para o povo:

“Amigos, compatriotas, escutai-me! Venho para sepultar César, não para louvá-lo! O mal que os homens fazem sobrevive-lhes. O bem costuma ser sepultado com os seus ossos! Que seja assim com César! O ilustre Brutus disse que César era ambicioso. Se assim foi, tratava-se de uma grave falta, e ele pagou, gravemente, pela ambição. Com a autorização de Brutus, que é um homem honrado, como também o são os demais, venho falar-vos no funeral de César. Era meu amigo, sempre leal e justo comigo. Mas Brutus diz que era ambicioso, e Brutus é um homem honrado. Muitos cativos trouxe para Roma cujos resgates encheram os cofres públicos. Era isso ambição? Se os pobres se lamentavam, César chorava. A ambição devia ser mais dura. Contudo, Brutus disse que era ambicioso. E Brutus é um homem honrado. Todos vós vistes, nas Lupercais apresentei-lhe, por três vezes, uma coroa real. E por três vezes a recusou. Era isto ambição? Contudo, Brutus disse que era ambicioso e ele é um homem honrado. Não desaprovo as palavras de Brutus! Mas estou aqui para dizer o que sei! Todos o amastes alguma vez, e não sem uma razão. Que razão, então, vos impede de chorá-lo?… Se eu quisesse incitar à rebelião e à cólera as vossas mentes e corações, seria injusto com Brutus e com Cássio, que como sabeis, são homens honrados!…Fui injusto para com os honrados homens que apunhalaram César! Tenho medo disso. [4]

A Morte de César de Vincenzo Camuccini (Museo de Capodimonte) / Wikipedia

Também Confúcio nos fala sobre a honestidade. Segundo o filósofo chinês, a honestidade é uma virtude imprescindível para quem pretende manter uma sã relação consigo mesmo e com os outros. Se a nossa intenção é fazer o bem, a comunidade beneficiará dos esforços que realizarmos para conseguir atingir os nossos objetivos. Se pelo contrário é o egoísmo que nos dirige, os nossos atos poderão não ser tão positivos sobretudo se deixarmos de cuidar da honestidade dos próprios métodos utilizados. Para a filosofia, o fim não justifica os meios. Uma sociedade justa para todos é aquela onde as boas ações, baseadas na consciência do cumprimento do dever, se encadeiam para construir uma comunidade onde todos sejam beneficiados. Aqui se estabelece a necessidade de nos conhecermos a nós mesmos para podermos empatizar e compreender os outros. É necessário um código ético que estabeleça uma justiça que abarque não somente o tempo presente, mas também o passado e o futuro. O que se pretende é criar uma harmonia baseada no respeito mútuo, uma espécie de lema – “trata os outros como gostarias de ser tratado”. Desta ideia de beneficio mútuo já nos falaram os pitagóricos quando afirmavam que a justiça estava baseada na reciprocidade e na proporção.

No antigo Egipto, a deusa Maat era símbolo da Justiça e da Ordem Cósmica e no ser humano representava a verdade e a honestidade. Tratava-se de não trair a nossa verdadeira natureza, essa que faz do ser humano um Ser social, amável, harmonizador e não um egoísta. Maat era representada como uma mulher com uma pluma na cabeça. No Código de Cavalaria, o penacho que os guerreiros costumavam levar representava a sua honra, honestidade e conservá-lo íntegro até ao final era sinal de que se haviam mantido puros. Esta ideia aparece representada na obra Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, quando o protagonista agoniza e se vangloria de que tinha perdido tudo menos o seu penacho:

Benoît-Constant Coquelin vestido como Cyrano de Bergerac / Wikimedia Commons

“(…) Quantos sois?… Mil?… Reconheço-vos, meus velhos inimigos!… A Mentira!… Toma! Toma!… Ah! Os Compromissos… os Preconceitos… as Cobardias!… Que pacto?… Isso nunca!… Ouvis-me bem? Nunca! Ah! Por fim te vejo, Estupidez!… Eu bem sei que afinal sucumbo, mas não me importo: luto, luto, luto! Sim! Tudo me arrancais, o louro e a rosa! Arrancai! Mas há uma coisa que não me tirareis!… Esta noite, quando entrar no céu, a minha saudação varrerá o solo azul e, por mais que possa pesar, comigo irá uma coisa sem manchas nem rugas… e essa coisa é… Meu penacho!”

No mundo em crise a desonestidade converteu-se numa presença constante que tinge de obscuridade e falsidade os nossos tempos. Cabe aos filósofos fazer chamadas de atenção para que o ser humano recupere um código moral que permita a livre expressão das virtudes humanas, que não é outra que a verdadeira natureza do homem.

Bibliografia
[1] Cicerón. Libro III, cap. V, 23. Sobre los Deberes, pág. 203. Alianza Editorial.
[2] Cicerón. Libro I, cap. XXVII, 94. Sobre los Deberes, pág. 106. Alianza Editorial.
[3] Cicerón. Libro I, cap. XXVII 96. Sobre los Deberes, pág. 107. Alianza Editorial.
[4] https://es.wikisource.org/wiki/Julio_C%C3%A9sar_(Shakespeare):_Acto_III

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