A Grande Obra

Amanhece no Cosmos. Os Divinos modeladores das formas, concebem nas suas sapientíssimas mentes os corpos dos mundos, dos sois, dos planetas e dos homens. Os Construtores Celestes percorrem as oficinas do universo, contemplando a Obra. Purusha e Prakriti lançam-se à Vida objetivada. Purusha e Prakriti, Espírito e Matéria, darão alento, uma vez mais, ao grande ser do “Animal Sagrado”.

Livro da Vaca Celestial (papiro egípcio).
Hathor, Livro da Vaca Celestial (papiro egípcio).

Pouco a pouco, a Criação inteira começará a despertar do seu longo sono, no regaço Daquele que escapa às definições. O Supremo exército dos Deuses ocupará cada um o lugar que lhe corresponde na gigantesca tarefa. Assim, alguém faz girar a Roda da Existência, e tudo começa a respirar, a mover-se. Num lugar perdido do Cosmos, numa das tantas galáxias, berço de milhões e milhões de sois, e entre eles, num diminuto planeta – que uma vez se julgou a si mesmo, pela boca dos seus ocupantes, o centro do mundo – agitar-se-á[1] também a sombra, o projeto de um plano a realizar-se no Tempo. Quando tudo isto estiver firme nele, chegará o seu ocupante, o homem, com um longo passado que não pode recordar, pois o proíbe o seu esquecimento – inteligentemente projetado pela Sabedoria Superior – e com um vastíssimo futuro a percorrer, em que é necessário despertar os olhos do seu Espirito.

A Roda da Vida - Bhavachakra tradicional no mural de Yama.
A Roda da Vida – Bhavachakra tradicional no mural de Yama.

A pena de carregar com uma mente, o horror de escutar os seus uivos, o desespero de sentir as suas perguntas e não encontrar respostas para muitas delas, ainda não ser-lhe-á dado. Dormirá feliz, no sono passivo de uma natureza, de uma Lei, que sabe que ainda não se pode bastar a si mesmo. Estará protegido, cuidado, guiado. No entanto, ambicionará possuí-la, e ambicionará tanto, tanto, que lhe será dada. Aí começará a nascer para o homem, o seu elemento básico de torturas, disposto a acompanhá-lo fielmente, por milhares e milhares de séculos. O Quarto Adão, o Adão Bíblico, nascerá então na Terra. Guiado pela sua recente Conquista, aprenderá a odiar e a amar. Por infinito caudal de tempo, há-de viver prisioneiro entre estes dois extremos. Terá ao seu coração negado todo o laço de ternura. Conquistar, matar, predominar serão os seus mais caros ideais. Neles colocará o norte da sua Vida e regressará através de centenas de corpos, até que convencido – desde que desperte, através das sucessivas experiências, uma consciência nova – da falsidade do caminho escolhido, o recusará, buscando novos horizontes. Inexoravelmente, um dia lançará o seu olhar vazio ao céu, recolhendo nos cestos e concavidades dos seus olhos milhões de estrelas. Que pequeno se sentirá, que diminuto, que nada! Na pergunta que confessa ao seu coração, se projetará o gérmen do primeiro filósofo. “Quem é Deus?” Será a base de todas as suas torturas, a origem ilimitada de todos as suas ações metafísicas, a fonte inesgotável para as suas reflexões e dissertações. Hão de O cantar de todas as maneiras possíveis. Nascerá com o génio de um Bach, enamorado da Divindade, de uma Blavatsky, farol humano precedendo o caminho de milhões de extraviados, de um Nervo, de um Kant, que “sentiu” que não se podia captar mentalmente a Deus.

Criação de Adão. Miguel Angelo.
Criação de Adão. Miguel Angelo.

Não obstante, lançará também a um dos lados do Caminho a sua razão para buscar sem limites no seio do seu ser puríssimo. A sua marcha é eterna e nunca vê o seu fim. Passará por todas as experiências até alcançar a coroação de um Buda ou de um Cristo. Ele sumir-se-á no Nirvana, eterno solo para a compreensão dos que estão em baixo. Mas … e depois!

O grande animal do tempo que fora despertado no começo da criação, para que servira de vara, de medida para os mundos existentes, sentirá a sua força reduzida e se recolherá esperando novas energias. Muitas noites passaram antes da Grande Noite Cósmica, como muitas noites vive o homem, antes da morte do seu corpo físico. Pralaya, em todos os seus aspetos, e em todas as suas formas, visitará continuamente a Casa de Deus. Uma vez, no entanto, as formas conquistadas serão pela Essência, e tudo se resumirá nela. Onde estarão então as lutas fratricidas dos homens? Em que poço escuro dos tempos ficarão sujeitas as cadeias dos vícios e dos egoísmo que agora o cegam? … Pela boca da Sabedoria Eterna, talvez nós, os de agora, sorriamos face à recordação dos pecados cometidos sob o motor autoritário da ignorância. Nos reconheceremos em cada coisa como nós mesmos, e teremos uma tal capacidade de Amar, como Deus tem, pois gira no corpo dos mais galhardos sois, e trabalha na mais diminuta pata do mais ignorado dos vermes. Nós seremos o mundo, tal é a conquista para que vamos. Nós estaremos espalhados no Espaço sem limites quando a grande vida do Manvantara, ou Idade de Brahma chegue ao seu fim. Convertidos em estrelas, em galáxias, em plantas, em pó, já que transcendendo a forma é como alcançaremos estar em todas as coisas, esperaremos a chegada da noite Universal, na alcofa do Espaço Sempre Eterno. Este pedaço de ouro espiritual, chamado de homem e que não pode brilhar de baixo da capa espessa da sua lama psíquica, então haverá alcançado a meta suprema do seu Destino.

O Juízo Final. Tecto da Capela Sistina.
O Juízo Final. Tecto da Capela Sistina.

 

[1] Nota de tradução: no original  “aleteará” significa bater asas.
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