A dor como veículo de consciência

A dor é uma força que alerta o Ser Humano quando algo não se encontra em equilíbrio funcionando como um motor de reposição.  Com a ausência deste mecanismo de defesa, o Ser Humano não poderia sobreviver nem desenvolver-se interiormente.

Vivemos hoje uma espécie de vazio que afecta as nossas ações e as nossas palavras carentes de verdade e transparência. Dizemos que amamos alguém, quando na verdade “amamos consoante as nossas necessidades” ou dizemos que nutrimos respeito por um amigo quando na verdade “temos interesse na sua amizade”. Afetados por esta situação chegamos a uma perda de coerência entre aquilo que dizemos, sentimos e fazemos pois o Ser Humano deseja obter resultados de interesse imediato, ausente de construção, perseverança e mesmo ética.

Percebemos que hoje, conceitos que para os grandes pensadores da antiguidade eram vistos como virtudes humanas, e falamos do esforço, do dever ou do sacrifício estão totalmente afastados do quotidiano comum. Ideias entendidas pelos grandes sábios milenares como caminhos para a elevação da consciência sendo eles a dor ou a adversidade são consideradas como fonte da depressão humana.

Mas para a Filosofia Clássica, de natureza prática e metafísica, a questão simplifica-se com esta pergunta:

Existe aprendizagem sem dor?

“Persona” significa máscara e simboliza as faces que o Ser Humano coloca para refugio da sua dor e das suas reais intenções.

Tal como referia Buda, inserido na lógica da Filosofia do Oriente, quando o Ser Humano foge de si mesmo, tentando escapar ao seu “Falador Silencioso”[1] entra num processo de ilusão que o leva a acreditar que o mundo exterior, revestido por essa massa formatada que é a nossa sociedade, apresenta-se como a guardiã da verdade, a grande juíza das falhas, dos medos e fracassos de cada um. Esta ideia gera no Ser Humano medo de errar, medo de fracassar, medo de cair, medo de mostrar as suas fragilidades pois a sua mente valoriza este julgamento ao ponto de negar os seus próprios sonhos e ideais.

“Perante o homem que se arrasta e se deixa cair nas dificuldades, o horizonte é apenas uma linha muito próxima sem esperanças e sem vislumbres.” – Delia Guzmán

É importante desfazer esta ideia e perceber, pelo uso da reflexão filosófica, que ninguém detém a Verdade. Isso seria lógica e fisicamente impossível. Cada Ser Humano tem apenas uma infimíssima parte da verdade que ao fechar-se no seu próprio fanatismo não constrói pontes de tolerância e compreensão recorrendo à crítica do outro como meio de ocultação da sua própria ignorância.

Se observarmos a natureza que nos rodeia, todas as formas de vida nascem e brotam de um processo de tensão e fricção. As próprias metamorfoses inerentes ao nascimento de uma borboleta ou um escaravelho, animal simbólico para o antigo Egipto, ou a própria flor de Lótus Hindu que renasce do lodo, ensina que tudo aquilo que se encontra absorvido pelas leis da natureza, atinge a beleza e o equilíbrio pelo movimento da resistência até à consequente libertação.

“O que agora é escuridão pode ser luz amanhã.”  – Delia Guzmán

Mas se falamos na dor, torna-se imperativo definir: o que é a dor? Tal como referem as grandes obras da literatura clássica oriental, como o Dhammapada ou o Bhagavag Gita, a dor não é mais do que um processo de mudança de um estado de consciência para outro através de uma reposição física, mental, emocional ou mesmo espiritual. Em muitas circunstâncias da vida, se o corpo sente dor significa que devemos procurar a origem dessa dor antes que entre num processo de sofrimento sem retorno. Vemos a dor física como algo positivo e benéfico pois sabemos que a ausência deste sinal culmina muitas vezes em situações penosas.

A OMS refere que os casos de depressão aumentaram quase 20% na última década, sendo a maior causa de incapacidade no mundo.

O mesmo sucede no campo emocional e mental. Se a tristeza, a raiva, a frustração ou o egoísmo surgem, deve o Ser Humano procurar a origem dessa dor para tratar a ferida. Caso não exista esta reacção o processo emocional irá abrir ruturas que por vezes se convertem em abismos de complexas patologias. Os pensamentos cíclicos e obsessivos merecem o mesmo tratamento pois caso contrário arruínam o Ser Humano em sintomas de profunda depressão e isolamento. Não se trata de fugir à dor pois ela existe. Trata-se de reconhecer a origem da dor, atuando na raiz, ou seja, o motivo que gera ao seu aparecimento. Não actuando na origem, a dor será como uma erva daninha que sempre regressa.

O Ser Humano deve conhecer a dor como algo inevitável mas cuja função passa pela recuperação do equilíbrio perdido, ou seja, do Dharma. Evitar ou negar a dor significa ignorar os próprios mecanismos de conhecimento interior superados pela acção e pelo esforço levando-nos à segunda questão:

Como converter a dor em conhecimento atenuando o sofrimento?

(continua num próximo artigo)

[1] presente na obra da Tibetana “A Voz do Silêncio”

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